Vicky, Cristina e os Narradores (2)

Por: Reginaldo Pujol Filho
categorias: Colunas, Isso não é um trailer
Data: quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Como diria o paulista, então: pra vocês verem como eu posso falar mais sobre “Vicky Cristina Barcelona” do que ‘tri bom’, e pra vocês verem como achei mesmo “Vicky Cristina Barcelona” tri bom, eis-me aqui de novo falando sobre o dito filme.

Agora é pra comentar uma coisa que me lembro dos tempos de faculdade. E também de conversas aqui e ali, que falavam mal da narração em off. Que narração em off é incompetência de quem não consegue contar a história com ação, com imagem e, por isso, precisa dessa bengala. Em off.

Só que é aquela coisa da regra: daí vem um sujeito genial e desmente tudo isso. Sei lá eu quantas vezes o Woody Allen já se valeu do narrador em off na filmografia dele. Sei que, no mínimo, nunca me incomodou. E na maioria das vezes, me agradou. Entonces, agora vem esse “Vicky Cristina Barcelona” e o narrador em off é bom demais, acho que dá muito do clima do filme. E mais não falo porque isso aqui não é um trailer.

Posso apanhar de cinéfilos e cineastas por essa opinião. Mas me explico, que eu sou da paz. É que tenho uma peculiaridade nos meus gostos. Adoro narradores bem trabalhados, bem pensados, com personalidade, seja no cinema, seja nos livros. Um exemplo?

“Era Bom Que Trocássemos Umas Idéias Sobre o Assunto”, livro do Mário de Carvalho que tem momentos como esse “E porque já vamos na página dezesseis, em atraso sobre o momento em que os teóricos da escrita criativa obrigam ao início da acção, vejo-me obrigado a deixar para depois estas desinteressantes e algo eruditas considerações sobre cores e arquiteturas, para passar de chofre ao movimento, ao enredo. Na página três já deveria haver alguém surpreendido, amado ou morto. Falhei a ocasião de “fazer progredir” o romance. Daqui por diante, eu morte e amores não prometo, mas comprometo-me a tentar algumas surpresas.” Outro exemplo? Machado de Assis, que chama o leitor de desatento, manda saltar trechos e assim por diante.

Gosto desses narradores intrometidos, que, de tanto se intrometerem, acabam sendo aceitos como companhia do leitor, como alguém que conversa sobre a história em vez de só narrar. O José Saramago também faz isso. Claro, isso não quer desmerecer outras formas de contar histórias, de jeitos mais ou menos diretos. Já leram Sérgio Faraco? O Faraco não tem uma estripulia dessas, nenhuma intromissão assim. E, no entanto, cada vez que leio um conto dele, repenso o que penso.

Até porque, voltando ao dito lá em cima, uma das grandes funções da regra no mundo artístico é ser desmentida. Como o Woody Allen desmente a regra do narrador em off, como o Sérgio Faraco desmente a regra do meu gosto.

P.S: não dei jeito de encaixar isso ali no texto, incompetência minha. Mas um filme que eu recomendo sob esse ponto de vista – e não só por isso – é “O Grande Chefe”, do Lars Von Trier. Tem lá o seu narrador enxerido, numa tentativa constante de nos fazer ver o filme com afastamento, discutindo regras da comédia, lembrando por vezes o Mário de Carvalho ali de cima e, sobretudo, desmentindo mais algumas regras narrativas. E mais não digo, porque já disse, rapaz, isso aqui não é um trailer.

Reginaldo Pujol Filho tem 28 anos, é de e vive em Porto Alegre. Ganha a vida como redator publicitário, mas também é escritor. Publicou "Azar do Personagem", pela Não Editora. Mantém a duras penas o blog www.porcausadoselefantes.blogspot.com.
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