Vicky, Cristina e os Narradores (1)
Por: Reginaldo Pujol Filho
categorias: Colunas, Críticas, Isso não é um trailer, Película
Data: quinta-feira, 20 de novembro de 2008
Sobre “Vicky Cristina Barcelona”, do Woody Allen, por mim, bastava dizer que é tri bom. Pronto. Mas daí o pessoal do CineRonda chamaria outro colunista, eu acho.
Então posso falar sobre um fenômeno metafísico do filme.
Dizem que lá em Barcelona baixou um espírito no Woody Allen durante as gravações do filme. Sério. O espírito do Pedro Almodóvar. Sabe tudo aquilo que se fala a respeito de filmes como “Tudo Sobre Minha Mãe”, “Fale Com Ela”, “Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos”, sabe? De como o Almodóvar domina, conhece e revela a alma feminina? Pois então: esse sujeito aí encarnou no Woody Allen, que fez um grande filme com olhar feminino, como eu nunca tinha visto dele antes. E pra não acharem que isso é uma opinião masculina sobre o que é ser feminino, conto que a Jajá, depois do cinema, tinha a mesma opinião que eu. Ela também achou que o filme fala com e sobre as mulheres.
E daí fiquei pensando, mas o que é, como é que é, qual é o segredo? Tá nos personagens? No jeito de filmar? No ritmo? Nas situações? Onde mora essa feminilidade que uns exprimem e outros não? Porque é que o Almodóvar espelha as mulheres e não se diz o mesmo dos Irmãos Coen, por exemplo?
Perguntas, perguntas que só me levam a mais perguntas. E também a uma discussão recorrentíssima em literatura, que é justamente sobre literatura masculina e literatura feminina. Sobre a existência dessa diferença ou não. Sobre as dificuldades de um homem encarnar um narrador feminino sem parecer que é um homem tentando pensar como uma mulher. Porque é um troço um bocado difícil de se fazer, sem cair no clichê. Eu ainda não tentei. No máximo já criei narradoras crianças, mas acho que ainda não é tão complexo quanto uma cabeça feminina adulta. Neste exato momento, estou olhando pra tela do computador, tentando lembrar de algum homem que já tenha feito em livro o que o Almodóvar e o Woody Allen já fizeram nas telas.
Bueno, já falei aqui mesmo que tenho uma dívida enorme com a literatura, o que quer dizer que eu não li tanto assim. Mas nesse pouco que li, e no pouquinho que pensei, não encontrei aquele cara que escreveu um livro que tu termina pensando “pô, mas isso só uma mulher pra dizer”. Fiquei até cogitando se o Chico Buarque, que é o homem que faz isso nas músicas, segundo os lugares-comuns de mesa de bar, não deveria encarar essa empreitada. Ô, ele sabe expressar a alma feminina em suas canções, como já li e ouvi tantas vezes, e escreve muito bem. Será que não era do Chico topar esse desafio? Ou será que o fato de o Chico nunca ter encarado essa é a prova mais do que provada de que um homem escrever como mulher é complicado, mas complicado demais?
Não sei.
Pelo sim, pelo não, isso só conta mais pontos pro “Vicky Cristina Barcelona”.





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