Vestido de Noiva
Por: Fábio Morales
categorias: Cultura Pop, Por Trás do Pano, Teatro
Data: sexta-feira, 24 de julho de 2009
Texto de Nelson Rodrigues, “Vestido de Noiva” estreou nos palcos em 1943 sob a direção de Ziembinski, causando polêmica na época. E ainda hoje é considerado forte. A história não é fácil – dividida em três planos: Realidade, Alucinação e Memória – conta a vida de Alaíde, moça rica que é atropelada em uma noite no Rio de Janeiro. No primeiro espectro a moça é socorrida por médicos e os repórteres em volta tratam de espalhar a notícia. No segundo, a personagem procura por Madame Clessi, uma mulher que foi assassinada, vestida de noiva, no início do século. As duas conversam e Alaíde revela que matou o marido Pedro. É quando entra o último campo, pois ambas percebem que a morte de Pedro não passou de um sonho. A partir daí, os três planos se intercalam durante todo espetáculo. Trata-se de um triângulo amoroso. Alaíde toma o namorado da irmã, Lúcia, e casa-se com ele. Lúcia fica com o marido da irmã, e os dois formam um complô, que começa a enlouquecer Alaíde. Tamanho impacto foi considerado um marco na história do teatro moderno.
“Vestido de Noiva” foi montada diversas vezes e teve sua versão (equivocada) para o cinema em 2006, pelas mãos do filho de Nelson, Joffre Rodrigues. Nesta montagem atual, dirigida por Gabriel Vilela, existe uma particularidade: o diretor não usa cenários diferentes para definir em qual plano a ação está se passando, fazendo uso apenas de luzes e de uma quebra nas interpretações para situar o espectador. Em um cenário bonito e bastante colorido, com um certo ar meio “brega” e com vários elementos de cena, se passam as três ações. Um belíssimo figurino, criado pelo próprio diretor, e uma excelente trilha sonora de Daniel Maia dão o ritmo da peça. E o característico tom circense do encenador
Gabriel Vilela aparece por aqui mais uma vez. Vindo do fantástico “Calígula”, ele acerta mais uma vez revisitando um grande clássico. Os bonitos momentos musicais dão um charme extra à montagem.
A formação do elenco é bastante heterogênea no que diz respeito às atuações. Um grupo secundário fraco, respaldado por um excelente conjunto principal, não chega a fazer feio. Os sempre competentes Rodrigo Fregnan e Flávio Tolezani estão bem, já o mesmo não pode se dizer dos excessivos Cacá Toledo e Maria Carmem Soares e dos econômicos Helô Cintra e Pedro Henrique Moutinho. Estes últimos fazem os papéis de pais, dos médicos, dos jornalistas que cobrem o acidente e das prostitutas de Madame Clessi.
Os destaques, coincidentemente, são os atores mais conhecidos. Marcello Antony aparece como o debochado marido, Pedro, e em um papel pequeno o ator faz o que pode e de forma correta, tendo destaque quando canta (principalmente uma canção em espanhol). Vera Zimmermann começa num tom acima e com um voz sussurrante inexplicável, mas no decorrer vai encontrando o jeito e chega de maneira satisfatória ao final. Luciana Carnieli, do ótimo “Meu Abajur de Injeção”, começa devagar, mas cresce muito e se torna uma das melhores coisas do espetáculo. Atriz competente e carismática, Leandra Leal é protagonista em todos os sentidos, e tem sem dúvida o melhor desempenho em cena. É notável o quanto esta atriz vem crescendo na televisão, no cinema e agora no teatro, com um trabalho forte, visceral e arrebatador. Uma interpretação que deve figurar entre as grandes Alaídes de todos os tempos. Mesmo com altos e baixos o resultado das atuações é satisfatório.
Vale o espetáculo, tudo bem feito e produzido. O texto por si só é um pouco rebuscado para uma platéia acostumada com coisas mais simples e bobas, mas me parece que pelo tempo que está em cartaz a peça é um sucesso. E se for, merece estar colhendo estes frutos.
“Vestido de Noiva”
Cotação: Bom
De Nelson Rodrigues
Direção: Gabriel Vilela
Temporada até 2 de Agosto no Teatro Vivo – SP
Temporada dias, 21, 22 e 23 de Agosto no Theatro São Pedro – Porto Alegre





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