Verdades que se revelam brincando
Por: Willian Silveira
categorias: Colunas, Studio
Data: quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Não quero cair em conversa repetida, em clichê de estilo, mas é importante sublinhar a minha preocupação logo no início de filmes como “Policial, Adjetivo” (Politist, adj., 2009): o espectador. Sim, logo o filme completava seus trinta minutos iniciais e eu já tentava projetar como o público – aquilo que denominam por grande público ou público de massa – começaria a pensar o que estava na tela, o que estaria sentindo. Explico a minha preocupação. Não que esse processo reflexivo não aconteça sempre, pois ele está presente em todo filme, faz parte da profissão e do comprometimento para com aquele que lê. De toda forma, em algumas situações essa transferência para buscar o sentimento de um outro se faz mais necessária. Ela se torna obrigatória em casos nos quais o tempo fílmico se alarga mais que o normal – não necessariamente mais que o necessário -, mas mais que o de costume. Assim é o quarto trabalho do diretor Corneliu Porumboiu: um filme impraticável ao público impaciente.
A história gira em torno do policial Cristi (Dragos Bucur) e sua investigação sobre um garoto que supostamente poderia estar traficando drogas para a Romênia, crime sujeito a severas punições pelo código penal do país, especialmente – vale frisar – por se tratar de um jovem. A questão é que Cristi conseguiu verificar com suficiente grau de evidências que Victor Iancu, o garoto investigado, é um usuário de haxixe e, em qualquer outro lugar da Europa, isso não seria suficiente para enquadrá-lo como traficante ou criminoso. Estabelece-se, portanto, o embate central da obra de Corneliu. A discussão que de um lado abriga o bom senso – ou o senso de humanidade – representado na figura do simplório, mas não simplista, policial Cristi contra a intransigente disposição das leis romenas, obviamente intrincadas em um desinteresse maior por justiça, desde que todas as questões sejam resolvidas da forma mais eficiente possível.
Se o espectador for paciente, acompanhará uma construção muito interessante e qualificada desde o ponto de vista escolhido para a narração da história até a composição do protagonista, na simbiose de uma ambientação estética de cores frias e pálidas muito pertinente pelas lentes do diretor de fotografia Marius Panduru, parceria repetida anteriormente no média-metragem “Liviu’s Dream” em 2004 e no longa “A Leste de Bucareste” (A fost sau n-a fost?, 2006).
Em uma escolha arrojada, o diretor busca – e consegue – colocar o espectador o mais próximo possível do personagem do policial ao transformar as longas seqüências no perfeito simulacro representativo da suspensão da narrativa ao mesmo tempo que a projeta como o dia-a-dia de Cristi. Dividimos – e devemos compreender e apreciar essa divisão – o tempo de espera, por vezes angustiante, ao seguir os personagens envolvidos na investigado durante seus afazeres. Quando não cumprimos a dupla função de investigador-vouyer, somos envolvidos no tortuoso e sempre burocrático cenário da esfera pública, que torna a obtenção da mais simples informação uma política de favores e um jogo de interesses.
A partir de então, “Policial, Adjetivo” tem sua estrutura revelada. Figura-se alternadamente entre o território do policial e o da polícia. Os relatórios, revelados ao público da mesma forma que aos superiores, descrevem o suprimido na observação e se apresentam de uma maneira a colaborar pouco com o cinema, mas muito com a delicada proposta que é o manejar do tempo. Dono de um ritmo original e que se impõe sem alterações, o segundo ato ainda se permite aprofundar um contraste – pois nessa altura já estamos familiarizados com a esfera pública – com o particular. Conhecemos, finalmente, os itinerários de almoço e janta, assim como o relacionamento com a mulher do personagem interpretado por Bucur, que atua com perfeição na construção desse ser apático, dificilmente dissociável do homem que conhecemos até então, marcando, portanto, a denúncia evidente da profissão que a tudo consome, que a tudo apaga.
Aliás, é esse apagamento contínuo da presença do indivíduo que se pode rastrear nas entrelinhas do filme. Em grande escala, a discussão é o atraso dessa ex-integrante da União Soviética que gostaria de se incorporar, como a grande maioria dos países do continente, à União Européia. Aponta-se, então, o desejo do avanço contra a natureza do atraso. Sabendo utilizar a simbologia de maneira rica e muitas vezes imperceptível, a obra de Porumboiu trabalha todos esses detalhes para conseguir um dos mais inusitados desfechos. Localizado junto a um colega no gabinete do seu superior, Cristi expõe seus argumentos em defesa do garoto de maneira frágil e acaba sucumbindo frente à presença de um dicionário e da potência retórica do chefe – o que nos leva a lembrar os momentos históricos nos quais dominar a arte de falar era sinônimo de exercer a verdade. Vale ainda lembrar uma cena que nos minutos iniciais caminhou para o desapercebido e valeu, no máximo, algumas risadas sarcásticas. Cristi está organizando o material de sua sala quando Bellu, seu colega, pergunta-lhe se é possível conseguir um lugar no time de fute-tênis. Sem pensar muito, Cristi nega, pois alega que o pessoal joga sério e além de tudo Bellu é ruim no futebol. Um tanto incrédulo com a associação do amigo, Bellu pergunta desde quando jogar mal futebol acarretava em jogar mal um outro esporte. Com um tom de voz bastante confiante, Cristi não titubeia: “É assim porque é assim. É como uma lei.” Há verdades que se revelam brincando.
Cotação: Muito Bom






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