“Um Homem Bom”
Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Película
Data: sábado, 3 de janeiro de 2009
Muito se fala, aqui no Brasil, das carreiras internacionais dos diretores Fernando Meirelles e Walter Salles, e acabamos esquecendo que outros cineastas nacionais também conseguem, vez que outra, uma boa visibilidade lá fora. É o caso de Vicente Amorim, que estréia em língua inglesa com “Um Homem Bom”, atingindo resultados bastante controversos. Talvez a atenção recebida desta vez seja superior, mas o resultado final está definitivamente aquém daquele obtido com o seu primeiro longa-metragem, o simpático e honesto “O Caminho das Nuvens”, sobre uma família de retirantes nordestinos e que contava com os ótimos Wagner Moura e Cláudia Abreu como protagonistas. Mas não são os atores o problema deste novo projeto – nomes como Viggo Mortensen e Jason Isaacs nunca fizeram mal a ninguém – e sim justamente a mão do diretor brasileiro, aparentemente indeciso entre transmitir uma mensagem edificante ou simplesmente contar uma história.
O homem bom do título é um professor de literatura (Mortensen, de “O Senhor dos Anéis”) na Alemanha pré-Segunda Guerra Mundial. Ele acaba caindo nas graças de oficiais nazistas devido a um livro de ficção sobre eutanásia que escrevera anos atrás. Com isso, passa a receber vantagens profissionais e termina se filiando ao partido, mesmo sem nunca ter sido um fervoroso defensor dos ideais de Hitler. Só que ele foi tolo – ou ingênuo – o suficiente para não perceber o que estava acontecendo ao seu redor e em seu país, a ponto de não fazer nada para evitar que seu melhor amigo, um psicólogo judeu (Isaacs, da série “Harry Potter”), corresse risco de vida.
A ideia por trás de “Um Homem Bom” é mostrar que, apesar do nazismo ter sido, sem sombra de dúvidas, algo terrível, ainda assim nem todos os alemães envolvidos tinham noção do que estava se passando, e que muitos foram tão enganados quando o resto da comunidade internacional. Este seria o papel do personagem principal, um homem íntegro, completamente apolítico, mas que acaba sendo levado pelas circunstâncias e se colocando diante de atos que não lhe competiam, mas que acabava concordando pela simples ignorância dos acontecimentos. Viggo, indicado ao Oscar por “Senhores do Crime” (2007), entrega mais uma bela interpretação, mostrando num rosto marcado pelo tempo toda a indecisão, a insegurança e o sentimento de ausência de conhecimento sobre os fatos ao seu redor. O crescimento do poder de Hitler foi uma resposta de todo um povo massacrado e resultado de uma infinita série de eventos que somente os mais atentos à História podem explicar com clareza, mas é compreensível que nem toda a sociedade daquela época tivesse noção de onde tudo aquilo iria parar.
Baseado numa peça teatral, o texto escolhido por Amorim peca principalmente pela demora em tomar uma posição. Se em parte isso reflete o conflito do protagonista, por outro lado provoca um distanciamento com o público, que permanece apático durante o clímax da trama. Outro problema é a demora em chegarmos ao cerne da questão: perde-se muito tempo com a estrutura familiar conturbada do professor, com a mulher doente, a mãe debilitada e os conflitos com o sogro, além das naturais intervenções no trabalho e o surgimento da amante, até sermos colocados diante o que realmente merece ser discutido – a influência do regime político, o envolvimento dele com o governo e sua relação com o melhor amigo, acima de tudo quando este passa a temer pela própria vida. E sem um discurso preciso e objetivo, tudo o que “Um Homem Bom” infelizmente consegue provocar são bocejos de apatia, restando apenas uma surpresa um tanto indiferente com o final obviamente apressado, que serve como cereja num bolo de frustrações e ambições não atingidas.
Good, Reino Unido/Alemanha, 2008
De Vicente Amorim
Com Viggo Mortensen, Jason Isaacs, Jodie Whitaker, Mark Strong, Gemma Jones
(nota 5)






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