terça-feira, fevereiro 24th, 2009
A festa de premiação do 81º Academy Awards, o popular Oscar, foi uma verdadeira volta ao mundo. E se o show, conduzido com habilidade e visível prazer por Hugh Jackman, foi um belo espetáculo – como há anos não acontecia – os resultados mais uma vez apontaram para uma previsibilidade atroz (mais…)
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quinta-feira, fevereiro 12th, 2009
Este ano aconteceu algo bastante curioso nesta categoria: a grande favorita ao Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante simplesmente foi indicada… como Atriz Principal! Kate Winslet, por “O Leitor”, ganhou este prêmio no Globo de Ouro e no SAG, por exemplo, e era considerada uma aposta certa. Mas, com ela fora da disputa, as cinco finalistas ficaram meio que em pé de igualdade – com um leve favoritismo de uma espanhola enfezada sob a direção de um dos mais respeitados cineastas de Hollywood. Mas surpresas sempre acontecem, não é mesmo?
Vai ganhar: Penélope Cruz, por “Vicky Cristina Barcelona”
Merece ganhar: Penélope Cruz, por “Vicky Cristina Barcelona”
And the Oscar goes to… PENÉLOPE CRUZ, POR “VICKY CRISTINA BARCELONA”
Amy Adams, por “Dúvida”
O personagem de Amy Adams é a principal observadora do filme, que dá início às ações e uma das que mais sofrem com as consequências. É a coadjuvante por excelência. Está perfeita, e pode acabar sendo reconhecida – uma vitória que não seria injusta. Foi indicada ao Bafta, Críticos de Chicago, Globo de Ouro e ao SAG – sem ter ganho em nenhum, o que diminui muito as suas chances. Outro grande problema que enfrenta é ter uma forte concorrente no mesmo filme! Esta é sua segunda indicação ao Oscar – concorreu também como Atriz Coadjuvante em 2006 por “Retratos de Família”.
*Penélope Cruz, por “Vicky Cristina Barcelona”
No começo da corrida ao Oscar 2009, logo despontou como favorita, mas aos poucos foi sendo ofuscada por Winslet. Mas agora, sem a estrela de “O Leitor” por perto, suas chances aumentaram consideravelmente. E ela realmente merece – coadjuvante ideal, faz juz à linhagem das intérpretes de Woody Allen, com diálogos saborosos e uma composição irretocável. Ganhou o Bafta, Críticos de Boston, de Kansas, de Los Angeles, de Nova York, de Southeastern e o National Board of Review, além de ter sido indicada ao SAG, ao Globo de Ouro, ao Independent Spirit Awards, Críticos de Londres, de Chicago, ao Broadcast e ao Goya. Esta é sua segunda indicação ao Oscar – concorreu ainda em 2007, como Atriz Principal, por “Volver”.
Viola Davis, por “Dúvida”
Ela tem apenas UMA cena no filme – mas uma ótima cena, em que domina o diálogo e deixa a própria Meryl Streep praticamente muda! Foi o que bastou para não só garantir a indicação, como também para colocá-la entre as favoritas – não será espanto algum se sair da festa carregando a cobiçada estatueta dourada! Desconhecida do grande público cinéfilo – no ano passado foi a melhor amiga de Diane Lane em “Noites de Tormenta” - tem extensa carreira na televisão. Foi indicada ao Broadcast, Críticos de Chicago, SAG e Globo de Ouro, e foi premiada no National Board of Review como “Revelação do Ano”. Esta é sua primeira indicação ao Oscar.
Taraji P. Henson, por “O Curioso Caso de Benjamin Button”
Com um desempenho simplesmente “adorável”, é praticamente impossível não se encantar pela mãe adotiva do protagonista! Mas Taraji possui poucos bons momentos em cena – e isso num filme de quase 3 horas é quase imperdoável. Sua inclusão na lista final já é, por si só, um prêmio mais do que merecido, e não há a menor chance dela sair vitoriosa. Quem sabe numa próxima vez? Apesar de ter feito poucos trabalhos no cinema, já apareceu em seriados como “House“, “C.S.I.” e “Boston Legal“. Ganhou o prêmio dos Críticos de Austin, Texas, e foi indicada ao SAG e ao Broadcast. Esta é sua primeira indicação ao Oscar!
Marisa Tomei, por “O Lutador”
Marisa está sensacional, e caso o Oscar não vá para Penélope, a minha torcida seria para ela. Apesar de ter o principal desempenho feminino no filme, é um personagem secundário, e sua indicação é mais do que justa – e uma vitória seria uma consagração! Concorreu ao Bafta, ao Broadcast e ao Globo de Ouro, e ganhou os prêmios dos Críticos de São Francisco, de San Diego, de Las Vegas e da Florida. Esta é sua terceira indicação ao Oscar – ganhou como Atriz Coadjuvante em 1993 por “Meu Primo Vinny” e concorreu em 2002, também como Coadjuvante, por “Entre Quatro Paredes“.
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domingo, fevereiro 8th, 2009
O ano de 2008 foi excelente para a sétima arte. Os próprios indicados ao Oscar já apontavam para este fato. Mas como a seleção que vimos no início do ano passado eram produções de 2007 e os que concorrem desta vez ainda não estrearam por aqui, tive que restringir minha lista a outros títulos, talvez não tão premiados, mas certamente merecedores de muitos aplausos. São produções do Brasil, França, Turquia, Japão, e, claro, Estados Unidos, que vão desde animações à musicais, de aventuras de super-heróis à comédias de humor negro. Ou seja, tem um pouco de tudo.
Preferi deixar de fora desta minha seleção escolhas um tanto que óbvias, porém que não dizem muito respeito à temporada 08. Estão entre estes títulos fantásticos, como “Sangue Negro”, “Desejo e Reparação”, “O Escafandro e a Borboleta”, “Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto”, “Longe Dela”, “A Família Savage”, “O Gângster” e “Senhores do Crime”, todos concorrentes à última festa do Oscar. Com exceção dos dois primeiros, vencedores em poucas categorias, todos os demais não foram vitoriosos – o que não diminui em nada seus méritos. Merecem ser descobertos! Assim como o meu seleto Top Ten abaixo:
10. “A Culpa é do Fidel!” (La Faute à Fidel!, França/Itália)
Um comovente drama político que tem como ponto de vista a curiosidade e a incompreensão infantil. Apesar de se passar na França, tem como cenário de fundo os movimentos revolucionários na América do Sul, em especial no Chile. Bonito, envolvente e muito bem filmado, representa também uma nova geração apta a grandes trabalhos: Julie Gavras, a diretora, é filha de Costa-Gavras, polêmico cineasta grego diretor de filmes como “Z” e “Amén”, enquanto que a protagonista, Julie Depardieu, é filha do ator francês Gerard Depardieu.
09. “Chega de Saudade” (Brasil)
Este drama contemporâneo nacional com toques de musical é simplesmente apaixonante. Laís Bodansky, a diretora, mostra de vez que “Bicho de Sete Cabeças” não foi um caso à parte em sua filmografia, entregando agora uma obra tão boa quanto, senão superior. E isso sem falar do elenco, que de Betty Faria à Cássia Kiss, de Tônia Carrero à Maria Flor, de Stepan Nercessian a Leonardo Villar está, no mínimo, “perfeito”.
08. “Ensaio Sobre a Cegueira” (Blindness, Canadá/Brasil/Japão)
Fernando Meirelles, depois de “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”, resolveu partir para um desafio ainda maior: adaptar o livro do escritor português premiado com o Nobel, José Saramago. Filmado em Toronto, São Paulo e Montevidéu, com elenco multinacional e financiado até por japoneses, tem esse ar cosmopolita que deixou muita gente confusa. Mas o que dizer quando o próprio Saramago, após assistir ao longa, às lágrimas, disse: “estou tão emocionado agora como estive quando terminei de escrever o livro”?
07. “Trovão Tropical” (Tropic Thunder, EUA)
Ben Stiller tem seu lugar garantido como ator e, principalmente, comediante. Mas ele ainda precisava mostrar algo como cineasta. Afinal, nem “O Pentelho” ou “Zoolander”, apesar de ótimos, deixavam de ter seus momentos irregulares. Mas com “Trovão Tropical” não restam mais dúvidas: o cara é um gênio. Debochando de Hollywood, dos reality shows e dos filmes de guerra, ainda conseguiu colocar astros como Tom Cruise e Matthew MacConaughey em papéis minúsculos e ridículos. E quem tem coragem de dizer que Robert Downey Jr. não merece o Oscar? Irresistível!
06. “Mamma Mia!” (EUA/Inglaterra/Alemanha)
Podem dizer o que quiser: que a peça teatral era muito melhor, que a diretora não sabe dominar os elementos cinematográficos, que as músicas são batidas, que é tudo um grande videoclipe. Mas, no final, como não sair cantando e com vontade de dançar após uma sessão de “Mamma Mia!”? Meryl Streep está fabulosa (e ela vem aí em “Dúvida”), o elenco todo está muito bem ajustado (sim, até Pierce Brosnan…), o cenário das Ilhas Gregas é um total deslumbre e as canções estão perfeitas, mesmo diante de um enredo aparentemente tolo, porém muito bem amarrado. O filme “evento” do ano!
05. “Queime Depois de Ler” (Burn After Reading, EUA/Inglaterra/França)
A melhor comédia do ano. O melhor elenco jamais reunido com uma simples missão: ser, cada um, o mais idiota possível! Como não amar? Brad Pitt e Frances McDormand estão soberbos, e George Clooney, John Malkovich e Tilda Swinton não ficam muito atrás. Repleto de frases emblemáticas, tiradas muito espirituosas e um contexto absurdamente envolvente (trilha sonora, fotografia), o roteiro original criado pelos irmãos Coen logo após conquistarem o Oscar por “Onde os Fracos não têm Vez” é uma verdadeira pérola. De rir do início ao fim! Não é mesmo, Osbourne Cox?
04. “Do Outro Lado” (Auf der Anderen Seite, Alemanha/Turquia/Itália)
Depois de conquistar o mundo com o poderoso “Contra a Parede”, o cineasta alemão de origem turca Fatih Akin entrega um longa ainda mais completo e envolvente. “Do Outro Lado” ilustra bem a falsa idéia de que “a felicidade está sempre em outro lugar, e nunca onde estamos”, um mal que atinge muita gente. A história começa em Berlim, mas logo passa para Istambul, para depois voltar à capital alemã para, quando menos esperamos, retornar à Turquia. E indo de um lado ao outro mostra um cenário de diferenças, paixões, arrependimentos e perdões. Maravilhoso!
03. “Era Uma Vez” (Brasil)
Breno Silveira, depois de conquistar o país inteiro com “Dois Filhos de Francisco”, levou o drama romântico de ‘Romeu e Julieta’ para a beira da praia de Copacabana, em pleno Rio de Janeiro. E o resultado é o filme mais apaixonante, triste e comovente do ano. Impossível não se envolver com a história do garoto do morro que se encanta com a menina rica do asfalto e das dificuldades que os dois terão que enfrentar para ficarem juntos. Mesmo que o final trágico seja anunciado com mais força do que se poderia esperar – ou, mesmo, evitar. Cinema brasileiro de alta qualidade, que consegue se comunicar com o público apostando na melhor das técnicas: honestidade dos sentimentos.
02. “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight, EUA)
E quem disse que filme de super-herói baseado em histórias em quadrinhos não pode ser um verdadeiro clássico? Produção de maior bilheteria do ano e um dos maiores sucessos de público de todos os tempos, ainda levou 8 indicações ao Oscar e promete fazer História! Como muito já se disse, é um impressionante thriller de ação e suspense, com a fundamental diferença de ter como protagonista um homem fantasiado de capa e máscara e como vilão um demente transtornado e completamente imprevisível. Chris Nolan elevou o gênero a uma categoria acima do que se vinha tratando até então, mostrando com sabedoria, respeito ao tema e muito cuidado como criar um trabalho inesquecível.
01. “Wall-E” (EUA)
E quem disse que ‘animação’ é um gênero inferior de se fazer cinema? Depois de anos conquistando público e crítica com obras nada menos do que geniais, a Pixar levou aos cinemas em 2008 sua obra prima: “Wall-E”! O conto do robozinho limpa-lixo que termina por salvar o planeta Terra do descaso total merece todos os aplausos possíveis, e o diretor Andrew Stanton (“Procurando Nemo”) usa todo o potencial a sua disposição para criar uma trama absurdamente cativante, que brinda a inteligência do espectador com muito respeito e emoção. Um clássico instantâneo, que nasce já como referência para gerações futuras e oferecendo um novo significado à expressão “arte cinematográfica”.
Como disse no início deste texto, 2008 foi um ano impressionante. E, aqueles que não foram muito atentos durante os 12 meses que se passaram, devem ir atrás não só destes títulos, mas também de outros trabalhos merecedores de atenção. São obras impressionantes, como o mexicano “Zona do Crime”, o brasileiro “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas, as duas performances de Penélope Cruz em “Vicky Cristina Barcelona” e “Fatal”, o arrebatador e chocante “O Nevoeiro”, baseado num conto de Stephen King, e até mesmo a nova aventura de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, de Steven Spielberg, que recriou com maestria o clima das matinês do início dos anos 80. Grandes e boas opções, que mostram que a diversidade foi o tom mais marcante de um ano repleto de boas surpresas!
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sábado, novembro 29th, 2008
A tradução literal de ‘elegy’, o título original, é ‘elegia’, ou seja, “sentimento queixoso, de dó ou de tristeza”. E esta denominação é realmente melhor apropriada a este filme que aborda muito mais a dor da perda do que a felicidade da conquista ou a plenitude do desfrutar. Mas esta interpretação é tão subjetiva e delicada que só poderia ser de uma artista como a espanhola Isabel Coixet, responsável por obras tão sensíveis, belas e sofridas como “A Vida Secreta das Palavras” (2005) e “Minha Vida Sem Mim” (2003).
O novo filme talvez seja o pior desta trilogia, o que está longe ter um significado negativo. “Fatal” não tem tantas camadas de leituras e nem é de cortar corações como os trabalhos anteriores, mas provavelmente seja por isso mesmo o longa mais maduro desta realizadora. É uma obra de aparência simples, econômica, mas que esconde um enredo complexo, que merece ser sentido, ao invés de somente compreendido. É uma trama que fala com a alma e com o coração mais do que com o cérebro, abordando com muito cuidado sentimentos, percepções e reações identificáveis em qualquer um de nós.
Apesar do alarde feito em cima da participação de Penélope Cruz (que está, realmente, maravilhosa, marcando de vez esta fase fantástica que a atriz vem passando, após “Volver” e antes do delicioso “Vicky Cristina Barcelona”), o verdadeiro protagonista de “Fatal” é sir Ben Kingsley (vencedor do Oscar em 1983 por “Gandhi”), um professor universitário e crítico de teatro que leva a vida solitariamente, dividido entre uma amante regular (Patricia Clarkson, também presente em “Vicky Cristina Barcelona”) que aparece de tempos em tempos e as alunas que volta e meia conquista, mas que nunca significam para ele mais do que uma mera diversão ocasional. Porém, um dia entra em sua classe uma mulher diferente (Penélope), pela qual se apaixonará e o fará rever todas as suas certezas.
É, então, “Fatal” uma história de amor? Sim e não. Porque é óbvio que a atração e o relacionamento que surge entre os dois ocupa grande parte do roteiro, mas isso está longe de ser tudo. Muito mais interessante aqui é discutir, questionar e raciocinar a respeito dos motivos que fazem uma pessoa se aproximar da outra e, principalmente, dos porquês que as afastam. Como podemos ser tão sozinhos num mundo tão vasto e como uma única pessoa pode nos completar com tamanha intensidade. Quais as razões que nos levam aos ciúmes, aos descontroles e à insegurança desmedida, ao mesmo tempo em que incidentes completamente alheios ao nosso controle podem alterar todos os nossos ideais e crenças.
Baseado no romance “O Animal Agonizante”, de Philip Roth, “Fatal” conserva muito do estilo deste que é um dos mais importantes escritores em língua inglesa da atualidade. Mas adiciona também um viés feminino a este olhar, combinando uma sensibilidade poucas vezes vista no habitualmente rígido discurso dele. E Coixet é a grande responsável por isso. Em cena assistimos a este mesmo embate de duas oposições – a latina Cruz ao lado do britânico Kingsley. E o melhor é que tudo acaba funcionando em perfeita harmonia. “Fatal” vai direto ao ponto, mas não sem antes ter condescendência neste entendimento de como somos todos tão tolos a ponto e deixarmos passar os melhores momentos de nossas vidas nos preocupando com o futuro, e quando este chega tudo o que nos resta é lamentar o que já passou. Será que um dia aprenderemos? Esta mensagem aqui talvez seja um bom começo de aprendizado.
Elegy, EUA, 2008
De Isabel Coixet
Com Ben Kingsley, Penélope Cruz, Patricia Clarkson, Dennis Hopper, Deborah Harry, Peter Sarsgaard
(nota 8,5)
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terça-feira, novembro 11th, 2008
Há muito tempo Woody Allen não conseguia me fazer rir de verdade como em “Vicky Cristina Barcelona”. Em primeiro lugar, porque seus últimos filmes foram dramas – “Match Point” (2005) e “O Sonho de Cassandra” (2007) – com pouquíssimos toques cômicos. Ok, ignore “Scoop – O Grande Furo” (2006), que era um besteirol divertido, mas com situações tão absurdas que o máximo que se conseguia fazer era tirar um sorriso amarelo. A última película realmente engraçada do diretor mais neurótico do cinema havia sido “Desconstruindo Harry” (1997). Ou seja, há mais de dez anos. Mas agora ele conseguiu o feito, após este hiato em jejum.
Talvez o fato do também roteirista não atuar seja um forte indício. Convenhamos que ele pode ser ótimo, mas a figura em si do baixinho neurótico que conseguia transar com todas as beldades nos filmes já havia enchido o saco há muito tempo. No novo longa, ambientado, obviamente, na Espanha, a figura neurótica é substituída por Vicky (Rebecca Hall, ótima revelação), que viaja ao lado da amiga Cristina (Scarlet Johansson, um tanto quanto eclipsada) para passar um período de férias na Espanha. As duas se envolvem com o sedutor Juan Antonio (Javier Bardem, excelente como sempre). Enquanto Vicky, de casamento marcado com um sem graça empresário norte-americano, tem uma noite com o pintor e vive uma paixão secreta por ele, Cristina se entrega totalmente e vai morar com Juan.
Eis que surge o melhor do filme. Quando a relação parece estar engrenando, a ex-mulher do pintor, Maria Elena, reaparece. Apaixonada, possessiva e louca de atar em poste, a personagem interpretada magistralmente por Penélope Cruz é o fio condutor para a mudança de linha no filme. De simples romance para uma tragicomédia, com direito ao tão falado (mas nem tão polêmico assim) beijo a três, mas especialmente, por intensos bate-bocas intercalados entre os dois idiomas.
Woody Allen parece que finalmente consegue reatar com o gênero que o lançou para o estrelato, justamente por retomar as origens, fazendo situações cotidianas e extremamente comuns na vida de qualquer pessoa se tornarem a coisa mais engraçada do mundo. É impagável ver Juan Antonio falando a todo momento “fale inglês, Maria”, num misto de admiração e desprezo pela ex.
Por outro lado, creio que já é hora do roteirista buscar outra “nova musa” para ele. Scarlet Johansson já perdeu a graça em seus filmes. Não só por culpa dela, mas também pelo próprio diretor, que parece dar a ela sempre o mesmo papel de garota confusa e apaixonada. Nesse sentido, a então desconhecida Rebecca Hall emplaca uma presença muito mais destacada na telona. Será que ela vai ser a protagonista de algum de seus próximos filmes? Não duvido.
Nota: 8.5
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sexta-feira, setembro 26th, 2008
Woody Allen acertou na mosca. Que experiência excelente foi assistir a esse seu novo longa! “Vicky Cristina Barcelona” é um trabalho inteligente, poderoso e delicado, que aborda a vida de uma perspectiva bem européia. Diferente da visão americana sempre tão presente nos filmes de Woody, particularmente um dos meus diretores favoritos. Dessa vez a presença de Woody Allen “ator” realmente não se faz necessária. Esse é um filme sob medida para seus protagonistas, os lindos e talentosíssimos Penélope Cruz, um furacão como sempre, Scarlet Johansson, que nos ataca com sua ingenuidade sensual, Javier Bardem, que como sempre dispensa comentários, e a novata e surpreendente Rebecca Hall, que interpreta a tal Vicky do título.
Ultimamente tenho percebido algumas coisas sobre o cinema americano. Uma delas é a “maquiagem” que eles dão nas cidades ao redor do mundo. Aqui no Brasil as pessoas têm o costume de reclamar do cinema brasileiro por mostrar somente as coisas “feias” do país, mas a verdade é que a nossa produção não mostra o que é ruim, pois ali está o retrato da realidade brasileira. Afinal, aquela é a maior parte da população do Brasil hoje em dia, uma vez que os habitantes da parte “bonita” são uma massiva minoria.
Assim como o cinema brasileiro, o europeu também não tem vergonha de mostrar as coisas como elas realmente são. A diferença é que a Europa tem, de fato, a maioria de sua população em condições de vida muito melhores que a do nosso país. Há uma homogeneidade que não se faz presente no nosso amado Brasil, e por isso nos filmes europeus percebemos uma beleza estética muito mais presente – sim, os lugares são realmente belíssimos. Nos filmes americanos, no entanto, há uma constante busca para melhorar o cenário, pois lá, nos Estados Unidos, eles estão cercados de lugares tão “feios” quanto o Brasil. São poucos os filmes americanos que nos mostram a cidade como ela realmente é. Hoje em dia e a cada ano que passa somos mais e mais jogados pra dentro das periferias americanas, e descobrimos que eles tem tantos problemas quanto todos nós. E é claro que isso os incomoda, assim como perturba os brasileiros. Talvez seja por isso eles se interessem pela nossa pobreza, pois o que temos aqui está muito longe, geograficamente, deles. É mais fácil ver o problema do vizinho do que admitir o seu, não é mesmo?
Filmes históricos como “Amor, Sublime Amor” e “Gangues de Nova Iorque” nos jogam pros subúrbios nova iorquinos no início do século passado. Ou mais recentemente, o elogiado “Medo da Verdade”, que nos coloca nos lugares mais sujos e feios de Boston. Estes são exceções, porém parte da realidade americana, tão díspar quanto a nossa, brasileira.
Bem, voltando ao meu objetivo, o que quero dizer é que nessa bela técnica de maquiar os lugares do mundo para que pareçam mais atrativos ao público, está mais presente do que nunca em “Vicky Cristina Barcelona”! A história gira em torno de Vicky e Cristina (personagem de Scarlett), duas jovens mulheres americanas que decidem partir pra Espanha nas férias de verão; Vicky para estudar a cultura catalã e Cristina para espairecer e quem sabe encontrar alguma satisfação sexual do “caliente” homem espanhol. Bem, nesse clima, ambas passam a desvendar Barcelona e seus arredores e cantos secretos, que aqui nesse filme são muito, muito mais bonitos do que a vida real. Não me entendam mal, Barcelona é uma cidade belíssima. Mas sob o olhar de Allen vemos só o que há de mais bonito, e em ângulos e takes que favorecem o pouco de belo que a cidade tem. Não há turistas (presença constante em todos os dias do ano) e depredações; o fato é que Barcelona é uma cidade grande como São Paulo, poluída, suja e fedida, mas que em contrapartida tem um clima maravilhoso, gente linda por todos os lados, praias maravilhosas e bairros afastados com lugares deslumbrantes. Porém a cidade, mesmo, não tem nada de extraordinário. E Woody nos joga no clima dela, como “Albergue Espanhol” também fez, colocando-nos nas exatas sensações que se tem quando se está passeando por lá. Esse é o grande mote do filme, pois passamos a sentir o mesmo que as personagens estariam supostamente sentindo. Essa é a genialidade de Woody Allen!
De volta ao filme: nossas protagonistas encontram por acaso Juan Antonio (Bardem), um maduro e extremamente sedutor pintor espanhol que as leva para Olviedo num final de semana e acaba deixando ambas desorientadas! É aqui que os problemas apenas começam. Cristina embarca em um relacionamento com Juan, se muda pra sua casa, e enquanto isso Vicky prepara pra se casar com o noivo americano que está indo até Barcelona pra encontrá-la. No meio disso tudo, surge a desequilibrada e deslumbrante Maria Elena (Cruz), ex-mulher de Juan, que é acolhida de volta por ele em sua casa após uma tentativa de suicídio e acaba invadindo o relacionamento dele com Cristina.
Pronto, a neurose característica de Woody Allen surge atingindo todo seu potencial e o filme vai ficando cada vez mais delicioso. Música, fotografia, locação, direção, roteiro e elenco, tudo aqui funciona em perfeita sintonia e prova que Woody está melhor do que nunca. Quebrando seus próprios tabus ele foi capaz de crescer ainda mais. Se antes havia uma parcela do público que não suportava sua obra, agora não há mais escapatória. Desde “Match Point” Woody arrebanhou os cinéfilos que faltavam e deu seu golpe de mestre. Assista a “Vicky Cristina Barcelona” tantas vezes quanto puder. A intensidade é bombástica!
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quarta-feira, dezembro 6th, 2006
Dirigido por Stephen Frears (“Minha Adorável Lavanderia”, “Os Imorais”), “A Rainha” se passa durante uma única semana, da morte da princesa Diana até o seu enterro, sete dias depois. O foco da ação está no comportamento da Família Real Inglesa, em como ela reagiu ao acontecimento, e como o povo inglês exigiu uma maior comoção da realeza. E há tb a atuação decisiva do recém eleito primeiro ministro Tony Blair (Michael Sheen, de “Underworld – Anjos da Noite”). O cara foi decisivo para “salvar” a monarquia nestes sete dias.
“A Rainha” nem parece ser dirigido por Frears, um cara mais acostumado com o proletariado do que com a realeza. o mais próximo seria o “Ligações Perigosas”, mas mesmo assim sem o registro documental deste novo trabalho. O filme é muito bem feito, uma realização de muita classe e resultado. Certamente será indicado ao Oscar nas principais categorias: Filme, Diretor, Atriz, Ator Coadjuvante, Roteiro, Edição, Fotografia (do brasileiro Affonso Beato, parceiro habitual de Pedro Almodóvar e Cacá Diegues), Figurino e Direção de Arte.
Mas A RAINHA não seria nada sem Helen Mirren. A atriz de “Assassinato em Gosford Park” e “As Loucuras do Rei George” dá um verdadeiro show, numa interpretação carregada de pequenos detalhes. O filme favorece a história, e não a atriz, mas mesmo assim ela dá um show. Para se ter uma idéia, um dos momentos mais comoventes, quando a rainha finalmente chora a perda da nora, a câmera está nas costas dela, e só vemos a lágrima quando ela se vir, após ter terminado o choro. Uma elegância irrepreensível. Mirren já ganhou o Festival de Veneza, com este trabalho, e será uma injustiça se perder o Oscar. Ao menos ela está melhor do que Penélope Cruz (“Volver”) e Meryl Streep (“O Diabo Veste Prada”), as duas tb deslumbrantes, e prováveis concorrentes ao prêmio máximo do cinema ao lado dela.
The Queen, ING, 2006
De Stephen Frears
Com Helen Mirren, James Cromwell, Michael Sheen
(Nota 8,5)
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