“A Lição de Pintura”
terça-feira, agosto 16th, 2011
Mais uma vez a seleção de filmes latinos da mostra competitiva foi muito superior à nacional. E outra boa surpresa foi o longa latino “A Lição de Pintura”, representante do Chile (mais…)
Cinema e cultura pop com opinião!
Mais uma vez a seleção de filmes latinos da mostra competitiva foi muito superior à nacional. E outra boa surpresa foi o longa latino “A Lição de Pintura”, representante do Chile (mais…)
Cinema e gastronomia é uma receita que vem dando certo há um bom tempo. Os exemplos são inúmeros, e a maioria consegue dosar bem seus ingredientes. E o mais recente exemplar dessa linha é “Dieta Mediterrânea”, uma comédia romântica espanhola que não tem medo de ousar (mais…)
Um agradável passeio com Caetano Veloso por várias cidades. Foi essa a sensação que “Coração Vagabundo”, documentário com duração de pouco mais de uma hora, proporcionou para mim (mais…)
Todo mundo já comentou a respeito das diversas transformações de Madonna. E onde ela mais mudou visualmente foi no cinema, o veículo que melhor registrou estes altos e baixos. É por isso, então, que organizei um Top 10 com os melhores momentos dela na tela grande durante estes vinte e cinco anos de carreira. Aproveito também para gerar um aquecimento, já que estamos nas vésperas das históricas apresentações dela, no Rio de Janeiro e em São Paulo, no final deste ano! E enquanto não a vemos ao vivo, que tal desvendar um pouco melhor esta faceta cinematográfica?
10. “Sobrou Pra Você” (The Next Best Thing, 2000)
Tinha tudo para dar certo: um diretor vencedor do Oscar (John Schlesinger, de “Perdidos na Noite”, 1969), o melhor amigo como co-protagonista (Rupert Everett, vindo do sucesso de “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, 1997) e uma temática super atual, os novos relacionamentos que surgem das aproximações entre heteros e homossexuais. Mas o resultado foi constrangedor para todos, desde os fãs mais ardorosos até os meros curiosos. Salva-se a primeira metade do filme, com momento bem divertidos e mais leves, e as duas canções que Madonna gravou para a trilha sonora: “American Pie”, de Don McLean (ele chegou a afirmar na época que “já recebi em minha carreira muitos presentes dos deuses, mas este é o primeiro que ganho de uma deusa!”) e “Time Stood Still”.
09. “Destino Insólito” (Swept Away, 2002)
A terceira parceria entre Madonna e o seu atual ex-marido, o diretor Guy Ritchie (antes eles haviam trabalhado juntos no videoclipe da canção “What it Feels Like for a Girl” e no curta para a BMW “Star”, ambos em 2001), teve os resultados mais controversos também. Tremendo fracasso de bilheteria, custou US$ 10 milhões e não ficou em cartaz nos Estados Unidos nem um mês inteiro, com uma arrecadação de pouco mais de meio milhão de dólares. Conseqüência direta é que foi lançado no resto do mundo diretamente em DVD. Outras conquistas foram as 5 Framboesas recebidas: Pior Filme, Pior Refilmagem, Pior Diretor, Pior Atriz e Pior Dupla (Madonna e Adriano Giannini). Mas, apesar de tudo isso, gosto do longa, e acho Madonna perfeita como uma ricaça mimada que acaba numa ilha perdida ao lado de um dos ajudantes do navio. Diversão despreocupada, apesar de nos remeter mais à persona dela do que a um personagem original.
08. “Olhos de Serpente” (Snake Eyes / Dangerous Game, 1993)
Típico projeto que só virou realidade porque Madonna acreditou, em algum momento, que poderia ser um desafio estimulante e que iria ajudá-la no caminho de se tornar uma atriz mais completa. E até está bem convincente como uma atriz problemática num set de filmagens bastante conturbado. O grande problema é que praticamente ninguém viu o filme. Mas a oportunidade de ser dirigida por Abel Ferrara e contracenar com Harvey Keitel deve ter tido seu significado. E apesar do resulutado ser um tanto irregular, é, sem sombra de dúvidas, uma das atuações mais esforçadas de toda a carreira dela.
07. “Corpo em Evidência” (Body of Evidence, 1993)
“Corpo em Evidência” fez parte do pacote: “vou chocar o mundo”, ao lado do disco “Erotica” e do livro de fotos “Sex”. É, no entanto, a parte mais fraca do trio. A direção do alemão Uli Edel é péssima, o argumento do enredo é risível (mulher é suspeita de ter assassinado o amante mais velho ao transar com ele) e nem nomes como Willem Dafoe e Julianne Moore escapam de maiores embaraços. Mas Madonna está ótima, com diálogos antológicos (“Mas não somos animais! Sim, nós somos!”), muita nudez e provocação. Imperdível.
06. “Quem é esta Garota?” (Who’s that Girl?, 1987)
Outro filme essencial no histórico dela. É uma comédia bobinha, cujo maior erro é ser um remake de um filme de Katherine Hepburn (“Levada da Breca”, de 1938). Como as expectativas eram muito altas, as cobranças estavam nas mesmas alturas. Mas ela está muito à vontade em cena, e o projeto rendeu ainda uma turnê de mesmo nome e quatro canções ótimas, com destaque para a agitada “Causing a Commotion” e para a que deu título ao filme, que chegou a ser indicada ao Globo de Ouro.
05. “Procura-se Susan Desesperadamente” (Desperately Seeking Susan, 1985)
O primeiro grande papel de Madonna no cinema é também até hoje uma das suas aparições mais marcantes na tela grande. Antes disso, havia feito apenas uma pequena participação no romântico “Em Busca da Vitória”, como uma cantora de bar, e no independente “Um Certo Sacrifício”, feito antes da fama. Aqui, por outro lado, ela é a estrela absoluta, roubando toda a atenção da protagonista Rosanna Arquette. Claro que colaborou muito o fato da Madonna de 1985 e da Susan deste filme serem praticamente a mesma pessoa, provocando apenas a primeira das tantas confusões entre intérprete e personagem que virou rotina no currículo da estrela. E a canção-tema “Into the Groove” é um dos maiores clássicos dos anos 80!
04. “Uma Equipe Muito Especial” (A League of Their Own, 1992)
Este é simplesmente o maior sucesso comercial de toda a carreira cinematográfica de Madonna – isso se deixarmos de fora “007 – Um Novo Dia Para Morrer” (2002), em que ela fez apenas uma participação especial. Foram mais de US$ 107 milhões de dólares arrecadados somente nas bilheterias norte-americanas! Claro que ajudou o fato dela ser somente uma coadjuvante, e dos protagonistas serem Tom Hanks e Geena Davis (em alta na época, logo após “Thelma & Louise”). E a história do time feminino de baseball é comovente e divertida na medida certa, atingindo todo tipo de espectador. De quebra, mais um sucesso na trilha sonora: a balada “This Used to be my Playground”!
03. “Dick Tracy” (Dick Tracy, 1990)
Chegamos aos três melhores momentos de Madonna na tela grande. E começamos a escalada com muito brilho: “Dick Tracy” conquistou o Oscar de Melhor Canção, por “Sooner or Later”, interpretada por Madonna e escrita por Stephen Sondheim. A história de amor entre Breathless Mahoney, uma cantora de cabaré, e o herói-título, interpretado por Warren Beatty, saiu da ficção e invadiu a vida real, pontuando mais um momento de grande popularidade da estrela. Aclamada pelo público, pela crítica e apaixonada. Que mais ela poderia querer?
02. “Na Cama Com Madonna” (Truth or Dare: In Bed With Madonna, 1991)
Sim, ela queria mais. Ela queria o mundo! E foi isso que conquistou logo em seguida, com o controverso “Na Cama com Madonna”, longa semi-autobiográfico feito durante a turnê “Blond Ambition”, que reunia os maiores sucessos dela na época. Polêmica, muito estilo, espetáculos grandiosos, convidados especiais – quem esquece como ela tratou Kevin Costner e Pedro Almodovar? – e muita música fez desse um dos mais bem sucedidos documentários musicais de toda a história. E o memorável lançamento do filme no Festival de Cannes daquele ano já anunciava: ela não estava para brincadeira!
01. “Evita” (Evita, 1996)
E Madonna finalmente chegou ao seu máximo. O sonho de viver a mítica primeira-dama argentina na ópera-rock de Andrew Lloyd Webber a acompanhava há anos, e para conseguir este papel teve que superar uma concorrência fortíssima, batendo nomes como Meryl Streep e Michelle Pfeiffer. E como valeu a pena! Madonna é Evita! Sua performance – tanto interpretando quanto cantando – é intocável, e até o crítico mais ferrenho é forçado a admitir que não havia escolha mais apropriada. Com direção de Alan Parker e aparecendo ao lado do galã Antonio Banderas, ela não poderia estar mais à vontade. Mais um Oscar na estante – pela canção “You Must Love Me” – e os maiores reconhecimentos da carreira dela enquanto intérprete: os Globos de Ouro de Melhor Atriz e de Melhor Filme, ambos na categoria Musical ou Comédia! Parabéns!
Então, aposto que você nem imaginava que o impacto de Madonna na sétima arte era tão forte assim. E isso que deixamos de fora outros títulos importantes, como “Surpresa de Sanghai” (1986), em que apareceu ao lado do então marido, o Oscarizado Sean Penn, “Neblina e Sombras” (1992), com direção de Woody Allen, “Sem Fôlego” (1995), de Wayne Wang, “Grande Hotel” (1995), trabalho coletivo que a aproximou de nomes como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, “Garota 6″ (1996), de Spike Lee, e a animação “Arthur e os Minimoys” (2006), de Luc Besson, em que dá a voz da Princesa Selenia. Grandes parcerias, desempenhos diversificados e muito empenho – assim como no mundo da música, Madonna sempre se esforçou ao máximo para obter um justo reconhecimento da tela grande. Quem sabe agora, que estreou como diretora em “Filth and Wisdom” (2008), não consiga? E se você acha que depois disso já sabe tudo sobre Madonna na tela grande, me diga: a imagem que abre este artigo é de qual filme?
“Bodas de Papel”, o segundo longa dirigido por André Sturm é quase tão ruim quanto o anterior, “Sonhos Tropicais” (2001). A diferença é que desta vez ele deixou um pouco de lado a arrogância e o despreparo – seus enganos são todos relativos à falta de competência profissional, mesmo. Ao contrário de sua primeira incursão por trás das câmeras, uma adaptação histórica do romance de Moacyr Scliar que decepcionou tanto os fãs do imortal autor gaúcho como também os curiosos por um texto que dizia respeito a um importante episódio do nosso passado, desta vez Sturm vai direto ao ponto: assim como o título já deixa entender, o foco desta vez está numa história de amor que acaba de completar um ano, como ela começou e como será o seu desfecho.
Se o diretor não desperta muito interesse, a expectativa sobre “Bodas de Papel” diz respeito unicamente ao quarteto principal de intérpretes. Como protagonistas estão o argentino Dario Grandinetti (do almodovariano “Fale com Ela”) e Helena Ranaldi, em sua estréia no cinema. E até que não se saem tão mal assim. Ele é um ator competente, obviamente, mas não está em seus melhores dias. Percebe-se claramente que faltou uma orientação mais segura. Agora, se no trabalho de um ator experiente como ele é possível perceber este deslize, imagine no dela, que nunca antes havia atuado para a tela grande? Ranaldi é uma das mais belas atrizes brasileiras, mas sua presença em cena é apagada, e todos os seus pontos fortes são desperdiçados numa atuação frouxa, sem paixão nem postura adequada. Por fim temos como coadjuvantes de luxo os veteranos Cleyde Yáconis (há anos afastada do cinema) e Walmor Chagas (que recentemente esteve à frente de “Valsa para Bruno Stein”). Os dois possuem escassas oportunidades para aprofundarem seus personagens, resultando em participações sem muito sentido. Mesmo assim, conseguem algum destaque, principalmente Walmor, no terço final da trama. O engraçado é que o único desempenho premiado do filme foi justamente o de Yáconis, vencedora do Calunga de Melhor Atriz Coadjuvante no último CinePE, o Festival de Cinema de Recife. Obviamente uma conquista que diz mais respeito ao seu carisma como intérprete do que pelo trabalho em si.
A cidade de Candeias, no interior de São Paulo, deveria ter desaparecido com a construção de uma represa. Como estes planos não se concretizam, os antigos habitantes da pequena vila decidem retornar aos seus lares. Entre eles estão Nina, que reassume o hotel do avô já falecido, e Miguel, arquiteto chamado para as reformas necessárias na região. Os dois acabam se conhecendo e, claro, se apaixonando um pelo outro. O que era atração vira amor, e quando percebem ele já está decidido a deixar a capital para ir morar no interior com ela. Mas, um ano depois, uma tragédia se impõe no destino deles, alterando um rumo que parecia já estar traçado. Este fiapo de enredo compõe a história de “Bodas de Papel”. Dito assim, não precisa ser nenhum gênio para adivinhar como tudo irá terminar.
O maior problema do filme nem é o roteiro fraco, mas a simples falta de empatia que o projeto inteiro (não) desperta sobre o espectador. Meia hora de exibição se passa e a impressão que temos é que foram horas. E isso porque simplesmente nada acontece. E conduzido de mão frouxa e com um ritmo muito fraco, a pouca atenção dedicada logo vai para o espaço. André Sturm é uma pessoa importante para o cinema brasileiro. Mas não enquanto cineasta, e sim como distribuidor (é responsável pela Pandora Filmes), programador (cuida das salas do HSBC Belas Artes, em São Paulo) e político (é presidente do SIAESP – Sindicato da Indústria Audiovisual do Estado de São Paulo, além de exercer destacada atuação na Secretaria do Estado da Cultura de SP). Ou seja, o que lhe falta mesmo é humildade. Que faça o que sabe bem fazer, e deixe de lado esta ambição cinéfila. Nós, o público, agradecemos.
Bodas de Papel, Brasil, 2008
De André Sturm
Com Dario Grandinetti, Helena Ranaldi, Cleyde Yáconis, Walmor Chagas
(nota 2,5)
O sexo, entendido como cópula, penetração, orgasmo, gozo e prazer entre pessoas adultas sempre rendeu bons enredos em todas as artes. As narrativas da literatura já descreviam com detalhes estes atos, variando desde as minúcias insinuantes que deixam ao leitor o acréscimo por conta da imaginação criativa até o “pornotexto” praticamente um apoio em linhas para uma masturbação bem sucedida. Com o advento do cinema aos poucos a telona foi produzindo boas cenas de amor e lascívia em variadas escalas. O primeiro beijo no cinema, um simples encostar de lábios entre May Irvin e John C. Rice, em 1895, rendeu escândalo. Após poucos o público foi se habituando a ver no escurinho público o que fazia no escurinho privado e o assunto foi explorado de diversos ângulos.
Mas qual a melhor cena de sexo da história do cinema?
Mae West e Marilyn Monroe se destacavam mais por provocar do que propriamente por fazer. A primeira em “Night After Night” (1932), se destacava pelo “toque sexy” que dava aos filmes. O mito de Mae West, languidamente estendida em um sofá, ou envolvida por uma pele branca de raposa com um pródigo decote e uma das mãos apoiada na cadeira, foi o marco de uma época. Já Marilyn Monroe insinuante nas telas, voltou a ter seu nome ligado ao sexo neste ano, quando uma cópia de um vídeo, dos anos 50, em que a atriz loira aparece fazendo sexo oral em um homem não-identificado, foi vendido para um empresário nova-iorquino pela quantia de US$ 1,5 milhão.
O sexo anal ganhou status de arte na clássica cena da manteiga entre Marlon Brando e Maria Schneider em “O Último Tango em Paris” (1972) A rapidinha teve momentos de glória em vários filmes, e minha preferida é entre Glenn Close e Michael Douglas, quando na cozinha de casa deram uma “coelhinho” em “Atração Fatal” (1987), o mesmo filme que cozinha o coelho, animal de estimação da filha do personagem de Douglas, em água fervente. Em “O Último Rei da Escócia” (2006), a miscigenação ganha espaço, com símbolo de encontro de mundos diferentes unidos pelos gemidos “transidiomáticos”. Ainda falando em gêneros alimentícios há a antológica cena do ovo no oriental “Império dos Sentidos” (1976), sendo este também um emblemático signo de amor e morte.
O órgão sexual masculino é em geral dissimulado, escondido ou aparece em cenas rápidas. O pênis aparece como personagem valorizado em “Boogie Nights” (1997), se tornando a grande atração nas cenas finais. E no francês “Romance X”(1999) – nunca se viu nada tão grande. Já o sexo oral, no entanto, teve vários momentos de glória. Destaque para David Bennent, que – então com onze anos – faz Oskar, o personagem principal do alemão “O Tambor” (1979) e protagoniza uma cena de pseudo-sexo oral numa mulher e, depois de ter o rosto encoberto pelo corpo da companheira, retorna para o foco da câmera limpando a face dos pubianos entre os dentes.
O sexo solitário também protagonizou boas cenas ao cinema. Destaco as masturbações juvenis na cena da piscina do mexicano “E sua mãe também” (2001), além do impactante “Pecados Inocentes” ( 2008), que ousa numa cena de onanismo entre mãe e filho. Estes são dois exemplos extremos. O sexo pode se tornar instrumento de vingança, como em “Lua de Fel” (1992), onde a amante ofendida transa em frente ao seu opressor, já frágil numa cadeira de rodas, com um deus de ébano. Ganha status de necessidade de saúde em “Adrenalina” (2006), onde Chev Chelios (Jason Stathan) é um assassino profissional que foi envenenado. Ele não pode deixar a taxa de adrenalina em seu organismo baixar, caso contrário morrerá. Ele entra, então, numa verdadeira corrida contra o tempo para se vingar e, quem sabe, achar a cura para seu problema. Em uma das cenas picantes o protagonista transa com a namorada em um local movimentadíssimo e todos olhando. Ela resiste no começo, mas depois acaba cedendo – e cede muito gostoso.
No cinema nacional são fartas cenas de gemidos e gritos usados às vezes para atrair o público, mais prometendo do que mostrando. No meio de uma história bege sempre aparecia uma prostituta na calçada, uma atendente de lanchonete na madrugada, uma mulher que antes de ir ao banheiro de um bar olha para trás. Clássica mesmo é a cena de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976) em que Sonia Braga (Dona Flor) transa comportada e formalmente com o segundo marido Teodoro (Mauro Mendonça) enquanto o fantasma do primeiro marido, Vadinho (um dos melhores papéis de Jose Wilker), assiste a cena aos risos.
E sexo gay, qual a melhor cena?
Lembro que assisti em Porto Alegre, ainda nos anos 90, o filme oriental “Banquete de Casamento” (1993). Numa cena muito bonita Wai-Tung presenteava seu namorado Simon com um telefone celular (símbolo de consumo na época). Ato contínuo ligava para o mesmo e dizia que o amava, e a cena acaba com um quente beijo entre os dois. O público se inquietava nas poltronas: uns balançavam a cabeça, outros manifestavam sua indignação soltando sons censores. Minha Porto Alegre provinciana mostrava suas origens, mas no decorrer dos anos foi se tornando mais aberta à diversidade, até mesmo porque não havia outro caminho a seguir.
De novo “E sua mãe também” têm na parte final uma cena de beijos e insinuações muito excitante, entre os dois adolescentes, mas sem mostrar a consumação. Almodóvar trouxe variações diversas do sexo entre iguais, Antonio Bandeiras na posição “franguinho assado” em “A Lei do Desejo” (1987) e Gael Garcia Bernal em “Má Educação” (2004) são clássicos. Mas o sexo entre homens mais presente no imaginário dos cinéfilos, até pelo recente de sua produção, é do oscarizado “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), onde, em terras geladas, dois vaqueiros másculos (Heath Ledger e Jake Gyllenhaal) dividem a barraca para escapar do frio e acabam atraídos por um outro calor. A “cuspidinha” de Ennis del Mar entrou para o panteão das cenas de sexo de sétima arte – ainda mais que é fator desencadeador de uma linda história de amor. Premiado com as maiores glórias do cinema mundial, o filme levantou a ira de fudamentalistas, mas levou muito da sociedade, principalmente a americana conservadora, a repensar estereótipos e modelos pré-concebidos.
E para você, qual a melhor cena de sexo da história do cinema?
O que é preciso para descobrir o verdadeiro “eu” de uma pessoa? Até que ponto nos fechamos tão dentro de nós mesmos que acabamos nos afastando não somente dos outros, mas de tudo mais, inclusive das próprias emoções? Incomunicabilidade, repressão, traumas do passado e a descoberta do amor no mais improvável dos lugares são alguns dos temas tratados no sensível e comovente A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS, segundo longa-metragem internacional dirigido pela impressionante cineasta espanhola Isabel Coixet (o anterior foi o igualmente emocionante MINHA VIDA SEM MIM).
Uma mulher solitária vive num universo tão particular que esquece até mesmo de reinvindicar suas férias. Obrigada pelo chefe a um mês de descanso, acaba indo parar numa vila afastada e pouco povoada. Lá descobre uma oportunidade de reavivar uma antiga ocupação: enfermagem. Estão precisando de alguém para cuidar de um operário numa plataforma petrolífera no meio do oceano. Ele está cego, vítima de severas queimaduras sofridas durante um acidente. Ao chegar neste lugar ainda mais inóspito, nossa protagonista irá de se deparar com pessoas tão isoladas da vida quando ela mesma. As relações entre os presentes é tão escassa quanto se faz necessária. São como zumbis, abandonados numa terra de ninguém, individualmente ocupados com suas responsabilidades e esquecidos pelo resto da humanidade. Mas o contato está prestes a ganhar um novo valor, alterando toda a ordem até então estabelecida.
Se a princípio a convivência entre paciente e atendente revela-se truncada, os códigos de comunicação aos poucos vão se estabelecendo. Ele não consegue vê-la, ela parece estar pouco interessada, mas um jogo vai surgindo e envolvendo-os. Não tardará para a relação evoluir para uma estranha história de amor que, apesar do diferencial que possui, não deixa de possuir elementos em comum a qualquer outro romance: entrega, cobrança, confiança, insegurança, dor e sinceridade. E neste ponto o filme surpreende o espectador pelos novos rumos tomados, em que gestos até então exóticos adquirem novos significados e todo o entendimento do que estava acontecendo fica não só mais claro, mas também dotado de uma intensidade até então insuspeita.
Muito do bom resultado atingido por A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS está na sua dupla central de atores, a fenomenal Sarah Polley (que já havia trabalhado com a diretora em MINHA VIDA…) e o oscarizado Tim Robbins (SOBRE MENINOS E LOBOS). Os dois fogem do registro óbvio e estereotipado, atuando com o olhar, com pequenos cuidados e tendo completo domínio dos personagens e das emoções que carregam consigo. Você esquece que por trás estão pessoas com outras vidas e histórias: fica-se diante apenas dos protagonistas da trama, como se estivéssemos literalmente dentro do enredo, naquela realidade. Outros bons destaques são alguns coadjuvantes, como o sempre ótimo Javier Cámara (FALE COM ELA, MÁ EDUCAÇÃO, DA CAMA PARA A FAMA), ciente da urgência de um alívio cômico, porém longe do clichê mais fácil, e da igualmente vencedora do Oscar Julie Christie (DARLING, A QUE AMOU DEMAIS, de 1965, vista recentemente em sucessos como EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA, TRÓIA e HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN), numa participação carinhosa e fundamental.
Isabel Coixet é uma súdita exemplar do mestre Pedro Almodóvar, produtor executivo de A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS, longa que foi o grande vencedor dos Prêmios Goya no ano passado. Sem incorrer no exagero, ela consegue falar muito dizendo pouco. As expressões, as atitudes, cada ação em todo momento são de relevâncias singulares, fazendo a maior diferença possível. Pelo que vemos nestes seus dois últimos trabalhos, estes são filmes para serem vistos com atenção e carinho, pois transmitem mais do que um única experiência possa se encarregar. É preciso reflexão, análise e uma compreensão maior do que somos e buscamos. Seja através das palavras, das ações ou mesmo do que não é feito. Pois aqui até o que não está tem importância. E esta lição é o maior mérito da obra como um todo.
La Vida Secreta de Las Palabras, Espanha, 2005
(nota 8,5)
Dirigido por Stephen Frears (“Minha Adorável Lavanderia”, “Os Imorais”), “A Rainha” se passa durante uma única semana, da morte da princesa Diana até o seu enterro, sete dias depois. O foco da ação está no comportamento da Família Real Inglesa, em como ela reagiu ao acontecimento, e como o povo inglês exigiu uma maior comoção da realeza. E há tb a atuação decisiva do recém eleito primeiro ministro Tony Blair (Michael Sheen, de “Underworld – Anjos da Noite”). O cara foi decisivo para “salvar” a monarquia nestes sete dias.
“A Rainha” nem parece ser dirigido por Frears, um cara mais acostumado com o proletariado do que com a realeza. o mais próximo seria o “Ligações Perigosas”, mas mesmo assim sem o registro documental deste novo trabalho. O filme é muito bem feito, uma realização de muita classe e resultado. Certamente será indicado ao Oscar nas principais categorias: Filme, Diretor, Atriz, Ator Coadjuvante, Roteiro, Edição, Fotografia (do brasileiro Affonso Beato, parceiro habitual de Pedro Almodóvar e Cacá Diegues), Figurino e Direção de Arte.
Mas A RAINHA não seria nada sem Helen Mirren. A atriz de “Assassinato em Gosford Park” e “As Loucuras do Rei George” dá um verdadeiro show, numa interpretação carregada de pequenos detalhes. O filme favorece a história, e não a atriz, mas mesmo assim ela dá um show. Para se ter uma idéia, um dos momentos mais comoventes, quando a rainha finalmente chora a perda da nora, a câmera está nas costas dela, e só vemos a lágrima quando ela se vir, após ter terminado o choro. Uma elegância irrepreensível. Mirren já ganhou o Festival de Veneza, com este trabalho, e será uma injustiça se perder o Oscar. Ao menos ela está melhor do que Penélope Cruz (“Volver”) e Meryl Streep (“O Diabo Veste Prada”), as duas tb deslumbrantes, e prováveis concorrentes ao prêmio máximo do cinema ao lado dela.
The Queen, ING, 2006
De Stephen Frears
Com Helen Mirren, James Cromwell, Michael Sheen
(Nota 8,5)