quarta-feira, agosto 10th, 2011
Um dos melhores filmes exibidos nesse ano no 39° Festival de Cinema de Gramado vem do Peru: “Las Malas Intenciones”, de Rosario Garcia-Montero. O cinema peruano pouco marca presença no Brasil, mas quando chega até nós vem com uma força bem impactante (mais…)
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segunda-feira, novembro 2nd, 2009
Eleito para ser o representante brasileiro na disputa por uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, “Salve Geral” só nos dá uma certeza: a de que estamos fora do páreo (mais…)
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sábado, novembro 22nd, 2008
“Última Parada 174” está longe de ser um filme ruim. O problema é que não está perto, também, de ser bom. Ou seja, é um trabalho medíocre, que fica no meio do caminho, frustrando expectativas e idealizações. Inspirado na história real do seqüestro ao ônibus 174 no Rio de Janeiro – trama que já tinha rendido um excelente documentário, “Ônibus 174”, de José Padilha, o mesmo diretor de “Tropa de Elite” – o filme ficcional ganha um verniz melodramático que, na tentativa de procurar uma identificação com o público, termina por afastá-lo ainda mais por despertar sentimentos contrários. “Última Parada 174” é um filme covarde, e esta é a pior avaliação que uma obra artística pode receber.
A família Barreto – os produtores Luiz Carlos e Lucy e os filhos deles, os diretores Fábio e Bruno – já foram considerados “reis” do Cinema Nacional. São responsáveis por obras emblemáticas da nossa cinematografia, como “Vidas Secas” (1963), “Terra em Transe” (1967), “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), “Bye Bye Brasil” (1979), “Memórias do Cárcere” (1984), “O Quatrilho” (1995) e “O Que é isso, Companheiro?” (1997), entre tantos outros. Só que eles ficaram perdidos no tempo, não souberam se adaptar. E enquanto surgiam novos talentos, como Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”, 2002), Walter Salles (“Central do Brasil”, 1998) e o próprio Padilha, os Barreto passaram a assinar longas terríveis, como “Bela Donna” (1998), “A Paixão de Jacobina” (2002) e “O Homem que Desafiou o Diabo” (2007), por exemplo. E este “Última Parada 174” é uma tentativa desesperada de atualização, porém sem se desligar de antigas manias.
Se não, vejamos. O roteirista chamado é o premiado Bráulio Mantovani, o mesmo dos já citados “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. E assim como ocorreu nestes filmes, a maioria do elenco é não-profissional, recrutado e treinado nas próprias comunidades carentes onde a ação se passa. Como produtor está Daniel Filho, que levou às telas praticamente todos os grandes lançamentos nacionais recentes (de “Era Uma Vez” a “Chega de Saudade”, de “O Ano em que meus pais saíram de Férias” a “Zuzu Angel”, de “2 Filhos de Francisco” a “Casa de Areia”, de “Cazuza – O Tempo Não Pára” a “Carandiru”… ufa!). Ou seja, tinha tudo para dar certo. Só que não deu.
Quem for ao cinema para assistir a “Última Parada 174” estará atrás de que? Do que aconteceu naquele ônibus, de quem eram as pessoas envolvidas e dos por quês por trás daquilo tudo. Bem, isso é justamente o que o filme não trás. Bruno e Bráulio preferiram se concentrar na triste história do protagonista da tragédia, o garoto Sandro do Nascimento (Michel Gomes), menino de rua órfão e de temperamento instável que é levado a um ato de loucura após repetidos abalos emocionais. A trajetória dele, aqui na ficção, é confundida com a de outro rapaz, de nome similar – Alessandro (Marcello Melo Jr.), mas conhecido como “Alê Monstro” – que é separado da figura materna ainda bebê e cresce com a pior das influências, já que foi criado pelo dono do tráfico no morro. Paralelo a tudo isso há ainda a mãe (Cris Vianna) deste, que passa a vida atrás do filho, e termina confundindo um pelo outro, e acolhendo Sandro – quando, na verdade, estava atrás era de Monstro.
Ou seja, uma história que poderia ter como cenário um contexto social muito mais forte e relevante acaba se contentando com a simples denúncia, com reviravoltas de novela e desencontros de folhetim. Os clichês transbordam, e quando finalmente chegamos ao que interessa – o ônibus, que surge após quase 2 horas de projeção – tudo passa tão rápido e anti-climático que não acreditamos que possa ter recebido um tratamento tão banal. Falta de tato do roteirista, em explorar melhor uma situação que merecia um olhar mais aprofundado, mas principalmente erro do diretor, que não soube dedicar a importância que o momento merecia dentro do seu longa.
Escolhido para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar 2009 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, “Última Parada 174” foi selecionado para o Festival de Toronto e exibido na sessão de abertura do Festival do Rio. Feitos alcançados muito mais pela ainda força que os Barreto possuem no meio do que pelos méritos da obra em si. Este episódio é um belo reflexo do caso social e urbano em que vivemos, mas resultou na tela em algo óbvio, cansativo e redundante. Melhor para todos se tivesse ficado apenas no documentário.
Última Parada 174, Brasil, 2008
De Bruno Barreto
Com Michel Gomes, Marcello Melo Jr., Gabriela Luiz, Cris Vianna, Anna Cotrim, Tay Lopes, Douglas Silva, André Ramiro
(nota 5)
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domingo, agosto 24th, 2008
Depois de ter trabalhado ao lado do pai, o consagrado cineasta grego Costa-Gavras, no drama político-religioso “Amém” (2002), Julie Gavras estréia como diretora com o belíssimo e comovente “A Culpa é do Fidel!”, outra história de forte cunho dramático e político, bem ao estilo paterno de filmar. As diferenças, porém, são evidentes: apesar de provocar fortes discussões, ela não pretende criar polêmicas, e sim estimular a reflexão de um modo mais singelo e discreto. Os resultados, no entanto, são igualmente precisos e emocionantes.
Ana de La Mesa é uma garota francesa de apenas 9 anos. Ela leva uma vida tranqüila, entre os amigos da escola e a família bem estruturada. Porém, quando o tio espanhol e comunista é preso e assassinado pela ditadura, a vida da menina vira de cabeça para baixo. A chegada da tia e da prima para morarem com eles é apenas o primeiro sinal de que fortes mudanças estão pro vir. Aos poucos os pais dela irão se interessar pelas situações de repressão ao redor do mundo, a ponto de se envolverem diretamente na conquista do poder de Salvador Allende no Chile. O ano é 1970, e o mundo é um caldeirão prestes a entrar em ebulição.
Tudo isso é acompanhado pelos pequenos olhos de Ana, que precisa aprender a lidar com esta nova realidade: a contrariedade dos avós, o novo e pequeno apartamento, o afastamento do pai, a falta de compreensão das colegas, a imaturidade do irmão menor, a constante troca de babás – o título do filme vem de uma delas, cubana, que afirma que todas estas alterações são “culpa do Fidel”! Assim, acompanhamos pouco a pouco a vida ir se transformando dentro da garota, em sensações que vão da rebeldia à contrariedade, do entendimento à colaboração, da tristeza à sabedoria. E assim como ela, somos profundamente tocados por este novo mundo que surgiu pelo esforço de alguns, saído de uma era de poucas luzes e muitos questionamentos.
A temática de “A Culpa é do Fidel!” não é nova. Afinal, exemplos de filmes que mostram a problemática da ditadura sob uma ótica infantil são vários – desde o chileno “Machuca” (2004) até o brasileiro “O Ano em que meus Pais saíram de Férias” (2006). O que esta produção francesa agrega ao gênero é uma sensibilidade ímpar e irretocáveis méritos técnicos, que vão desde a trilha sonora envolvente, uma montagem inteligente e um roteiro bem trabalhado (baseado no livro de Domitilla Calamai) até a escolha do elenco, encabeçado pela surpreendente Nina Kervel-Bey (a estreante Ana) e que conta ainda com os ótimos Stefano Accorsi (“O Último Beijo”, 2001) e Julie Depardieu (filha de Gerard Depardieu). “A Culpa é do Fidel!” foi selecionado ainda para o Festival de Sundance, nos Estados Unidos, e indicado como Melhor Filme Estrangeiro no Grande Prêmio Brasil de Cinema – mostra evidente de que sua história é universal, e o que é visto na tela tem qualidades suficientes para tocar qualquer um de nós: franceses, chilenos, espanhóis, italianos, americanos e até brasileiros, claro.
La Faute à Fidel!, França/Itália, 2006
De Julie Gavras
Com Nina Kervel-Bey, Stefano Accorsi, Julie Depardieu, Benjamin Feuillet
(nota 8,5)
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domingo, agosto 17th, 2008
Acredito que todo mundo tenha ouvido falar de ‘Zé do Caixão’. Agora, quantos assistiram a um filme com o personagem? Talvez este seja o maior prazer em conferir “Encarnação do Demônio” nos cinemas: ver em ação uma das criações mais interessantes do cinema nacional de todos os tempos. E o melhor é que nossas expectativas não são decepcionadas: Zé do Caixão está de volta em plena forma, longe da figura caricatural que acostumamos a conhecer em programas de televisão e aparições especiais, mas sim repleto de sede de sangue e barbárie.
“Encarnação do Demônio” é o capítulo final de uma trilogia que teve início há mais de 40 anos, com os filmes “À Meia-Noite Levarei Tua Alma” (1964) e “Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver” (1967). Milhares de problemas, confusões e desencontros impediram que a saga fosse concluída anteriormente, mas com o apoio dos cineastas Dennison Ramalho (que reescreveu o roteiro) e Paulo Sacramento (que além da montagem também co-produziu) e a liderança dos irmãos Gullane (“O Ano em que meus pais saíram de Férias”) na produção, esta conclusão finalmente chegou ao público, em lançamento de grande estilo assumido pela Fox Films do Brasil. Em termos de mercado “Encarnação do Demônio” é um trabalho de baixo orçamento, mas para o padrão ‘Zé do Caixão’ é um blockbuster!
Dirigido pelo próprio José Mojica Marins (o Zé do Caixão, pra quem não sabe), “Encarnação do Demônio” começa com o ameaçador protagonista sendo finalmente libertado da prisão, após décadas de encarceramento. De volta às ruas, ele promete cumprir sua missão: encontrar a fêmea ideal que irá lhe conceder um herdeiro digno, o “filho perfeito”. Em plena cidade de São Paulo ele começa a deixar um rastro de violência e crendices sobrenaturais, enfrentando as leis dos homens e outras não muito naturais, arrebatando seguidores e promovendo verdadeiras sessões de torturas e orgias.
Percebe-se, com o desenrolar da trama, que as mãos de Dennison (dos premiados curtas “Nocturnu” e “Amor só de Mãe”) e de Sacramento (do elogiado documentário “O Prisioneiro da Grade de Ferro”) foram fundamentais para a viabilização do projeto. O filme mantém o espírito original do seu criador, com um horror assumidamente trash, porém muito bem feito, com efeitos especiais inventivos e de grande impacto. Há cenas em que é difícil manter o olhar na tela. E esta justamente era a proposta original: trazer Zé do Caixão para o novo século e para as platéias atuais, porém sem perder o charme que fez sua fama.
Definitivamente, “Encarnação do Demônio” não é um filme para qualquer tipo de público. Mas não há dúvidas de que possui uma platéia fiel, e esta certamente irá receber a volta de José Mojica Marins com gozo e prazer. O seu estômago pode se revirar diante algumas seqüências, mas a qualidade técnica e a criatividade do enredo, ainda mais numa produção nacional, são inquestionáveis. Talvez por isso a consagração no I Festival de Paulínia (SP), de onde saiu com 7 prêmios: Melhor Filme, Fotografia, Direção de Arte, Montagem, Edição de Som, Trilha Sonora e Melhor Filme segundo a Crítica. Ou o grande número de participações especiais no elenco, que uniu nomes como Jece Valadão (em seu último trabalho), Luis Melo, Adriano Stuart, Rui Resende, Giulio Lopes, Cléo de Páris, Milhem Cortaz, Helena Ignez e até José Celso Martinez Corrêa! Tá bom ou quer mais? Seja bem vindo, mais uma vez, Zé do Caixão! O cinema brasileiro estava com saudades!
Encarnação do Demônio, Brasil, 2008
De José Mojica Marins
Com José Mojica Marins, Milhem Cortaz, Jece Valadão, Adriano Stuart, Cléo de Páris, Helena Ignez, Rui Resende
(nota 8)
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quarta-feira, julho 16th, 2008
Com quase um ano de atraso, chegou finalmente às telas gaúchas uma das produções latinas mais elogiadas da última temporada. E. curiosamente, “O Banheiro do Papa” teve parte de suas filmagens realizadas aqui mesmo no Rio Grande do Sul! E que orgulho ver um filme feito aqui perto ser tão bom. A estréia na direção do diretor de fotografia indicado ao Oscar César Charlone (“Cidade de Deus”), aqui em parceria com Enrique Fernández (ambos autores também do roteiro), é extremamente auspiciosa justamente por abdicar da ambição, buscando num olhar mais singelo e simples mostrar como um fato praticamente perdido no meio do nada pode falar tão alto quando atinge e repercussão exata. E, neste caso, o título escolhido não poderia ser mais propício. Não estamos falando de um banheiro qualquer, e sim de um motivado pela visita da maior autoridade cristã do planeta. Assim como o próprio longa, que parece não ter muita referência com a nossa realidade, mas, pelo contrário, atinge o feito de falar diretamente com nossas mentes e, principalmente, corações.
O premiado ator uruguaio César Trancoso intepreta Beto, um biscateiro que vive dos contrabandos que traz do Brasil para a pequena cidade de Melo, quase na fronteira do Uruguai. Com os trocados que vai juntando mal consegue ajudar em casa, cuja economia ganha ainda um reforço nas costuras da mulher (Virginia Mendez) e nos pequenos trabalhos realizados pela filha. Mas, obviamente, ele quer mudar de vida, e assim como os demais vizinhos vê na provável visita do Papa João Paulo II, em 1988, a sua cidade, uma oportunidade única. A televisão anuncia que milhares de visitantes invadirão a cidade neste determinado dia, e esta seria uma grande chance para todos rechearem os bolsos. Só que enquanto a maioria está pensando em montar barracas com comidas, Beto olha para o outro lado e decide construir um banheiro, para que possa cobrar entrada dos futuros ocupantes!
Com esta pequena parábola social, Charlone e Fernández conseguem realizar um impressionante retrato da dura condição que milhares de uruguaios enfrentam diariamente. Trata-se de um país muito pequeno, escasso de recursos naturais e com poucas empresas. Resultado? É uma nação empobrecida. E, assim, busca em qualquer eventual suspiro o milagre que tanto almejam. E o que melhor neste sentido do que a própria visita do Papa?
Elaborado de forma quase documental, “O Banheiro do Papa” é uma obra repleta de méritos, apesar de não ser totalmente desprovida de escorregões. E estes estão principalmente no ritmo e no desenrolar de sua trama, por vezes indecisa entre a crítica política e a análise de costumes. Da mesma forma, alguns personagens são poucos consistentes, como o melhor amigo do protagonista e o policial de fronteira corrupto. Alguns eventos parecem isolados demais, como se ali estivessem apenas para atrapalhar o destino do nosso herói atrapalhado. Mas são pormenores diante um cenário muito mais rico e curioso. A capacidade de comunicação que o filme possui é impressionante, e de imediato passamos a nos identificar com as agruras, os azares e os erros que conduzem esta série de acontecimentos que, mesmo não tendo como darem certo, mexem com nossos nervos de modo bastante singular. Estamos conscientes desde o início de como será o final, mas somos envolvidos de tal forma que será impossível não torcer, também, por uma intervenção divina.
Grande vencedor da disputa latina do Festival de Gramado de 2007, “O Banheiro do Papa” recebeu 5 kikitos, entre eles os de Melhor Filme segundo o Júri Popular, Ator e Atriz. Foi premiado também nos festivais espanhóis de Huelva, Lleida e San Sebástian, além da Mostra Internacional de São Paulo. E foi escolhido como representante oficial do Uruguai na disputa pela indicação ao Oscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Não conseguiu, assim como o brasileiro “O Ano em que meus Pais saíram de Férias”, mas da mesma forma que este, comove sem ser melodramático, emociona sem abusar dos clichês e consegue, a partir do drama de um indivíduo, discutir toda uma questão social. E acreditem: isso não é pouca coisa!
El Baño del Papa, Uruguai/Brasil/França, 2007
De César Charlone e Enrique Fernández
Com César Trancoso, Virginia Méndez, Mario Silva, Virginia Ruiz, Nelson Lence
(nota 8)
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