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Top 10 – Cinema 2008

domingo, fevereiro 8th, 2009

O ano de 2008 foi excelente para a sétima arte. Os próprios indicados ao Oscar já apontavam para este fato. Mas como a seleção que vimos no início do ano passado eram produções de 2007 e os que concorrem desta vez ainda não estrearam por aqui, tive que restringir minha lista a outros títulos, talvez não tão premiados, mas certamente merecedores de muitos aplausos. São produções do Brasil, França, Turquia, Japão, e, claro, Estados Unidos, que vão desde animações à musicais, de aventuras de super-heróis à comédias de humor negro. Ou seja, tem um pouco de tudo.

Preferi deixar de fora desta minha seleção escolhas um tanto que óbvias, porém que não dizem muito respeito à temporada 08. Estão entre estes títulos fantásticos, como “Sangue Negro”, “Desejo e Reparação”, “O Escafandro e a Borboleta”, “Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto”, “Longe Dela”, “A Família Savage”, “O Gângster” e “Senhores do Crime”, todos concorrentes à última festa do Oscar. Com exceção dos dois primeiros, vencedores em poucas categorias, todos os demais não foram vitoriosos – o que não diminui em nada seus méritos. Merecem ser descobertos! Assim como o meu seleto Top Ten abaixo:

10. “A Culpa é do Fidel!” (La Faute à Fidel!, França/Itália)
Um comovente drama político que tem como ponto de vista a curiosidade e a incompreensão infantil. Apesar de se passar na França, tem como cenário de fundo os movimentos revolucionários na América do Sul, em especial no Chile. Bonito, envolvente e muito bem filmado, representa também uma nova geração apta a grandes trabalhos: Julie Gavras, a diretora, é filha de Costa-Gavras, polêmico cineasta grego diretor de filmes como “Z” e “Amén”, enquanto que a protagonista, Julie Depardieu, é filha do ator francês Gerard Depardieu.

 

09. “Chega de Saudade” (Brasil)
Este drama contemporâneo nacional com toques de musical é simplesmente apaixonante. Laís Bodansky, a diretora, mostra de vez que “Bicho de Sete Cabeças” não foi um caso à parte em sua filmografia, entregando agora uma obra tão boa quanto, senão superior. E isso sem falar do elenco, que de Betty Faria à Cássia Kiss, de Tônia Carrero à Maria Flor, de Stepan Nercessian a Leonardo Villar está, no mínimo, “perfeito”.

 

 

08. “Ensaio Sobre a Cegueira” (Blindness, Canadá/Brasil/Japão)
Fernando Meirelles, depois de “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”, resolveu partir para um desafio ainda maior: adaptar o livro do escritor português premiado com o Nobel, José Saramago. Filmado em Toronto, São Paulo e Montevidéu, com elenco multinacional e financiado até por japoneses, tem esse ar cosmopolita que deixou muita gente confusa. Mas o que dizer quando o próprio Saramago, após assistir ao longa, às lágrimas, disse: “estou tão emocionado agora como estive quando terminei de escrever o livro”?

 

07. “Trovão Tropical” (Tropic Thunder, EUA)
Ben Stiller tem seu lugar garantido como ator e, principalmente, comediante. Mas ele ainda precisava mostrar algo como cineasta. Afinal, nem “O Pentelho” ou “Zoolander”, apesar de ótimos, deixavam de ter seus momentos irregulares. Mas com “Trovão Tropical” não restam mais dúvidas: o cara é um gênio. Debochando de Hollywood, dos reality shows e dos filmes de guerra, ainda conseguiu colocar astros como Tom Cruise e Matthew MacConaughey em papéis minúsculos e ridículos. E quem tem coragem de dizer que Robert Downey Jr. não merece o Oscar? Irresistível!

 

06. “Mamma Mia!” (EUA/Inglaterra/Alemanha)
Podem dizer o que quiser: que a peça teatral era muito melhor, que a diretora não sabe dominar os elementos cinematográficos, que as músicas são batidas, que é tudo um grande videoclipe. Mas, no final, como não sair cantando e com vontade de dançar após uma sessão de “Mamma Mia!”? Meryl Streep está fabulosa (e ela vem aí em “Dúvida”), o elenco todo está muito bem ajustado (sim, até Pierce Brosnan…), o cenário das Ilhas Gregas é um total deslumbre e as canções estão perfeitas, mesmo diante de um enredo aparentemente tolo, porém muito bem amarrado. O filme “evento” do ano!

 

05. “Queime Depois de Ler” (Burn After Reading, EUA/Inglaterra/França)
A melhor comédia do ano. O melhor elenco jamais reunido com uma simples missão: ser, cada um, o mais idiota possível! Como não amar? Brad Pitt e Frances McDormand estão soberbos, e George Clooney, John Malkovich e Tilda Swinton não ficam muito atrás. Repleto de frases emblemáticas, tiradas muito espirituosas e um contexto absurdamente envolvente (trilha sonora, fotografia), o roteiro original criado pelos irmãos Coen logo após conquistarem o Oscar por “Onde os Fracos não têm Vez” é uma verdadeira pérola. De rir do início ao fim! Não é mesmo, Osbourne Cox?

 

04. “Do Outro Lado” (Auf der Anderen Seite, Alemanha/Turquia/Itália)
Depois de conquistar o mundo com o poderoso “Contra a Parede”, o cineasta alemão de origem turca Fatih Akin entrega um longa ainda mais completo e envolvente. “Do Outro Lado” ilustra bem a falsa idéia de que “a felicidade está sempre em outro lugar, e nunca onde estamos”, um mal que atinge muita gente. A história começa em Berlim, mas logo passa para Istambul, para depois voltar à capital alemã para, quando menos esperamos, retornar à Turquia. E indo de um lado ao outro mostra um cenário de diferenças, paixões, arrependimentos e perdões. Maravilhoso!

 

03. “Era Uma Vez” (Brasil)
Breno Silveira, depois de conquistar o país inteiro com “Dois Filhos de Francisco”, levou o drama romântico de ‘Romeu e Julieta’ para a beira da praia de Copacabana, em pleno Rio de Janeiro. E o resultado é o filme mais apaixonante, triste e comovente do ano. Impossível não se envolver com a história do garoto do morro que se encanta com a menina rica do asfalto e das dificuldades que os dois terão que enfrentar para ficarem juntos. Mesmo que o final trágico seja anunciado com mais força do que se poderia esperar – ou, mesmo, evitar. Cinema brasileiro de alta qualidade, que consegue se comunicar com o público apostando na melhor das técnicas: honestidade dos sentimentos.

02. “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight, EUA)
E quem disse que filme de super-herói baseado em histórias em quadrinhos não pode ser um verdadeiro clássico? Produção de maior bilheteria do ano e um dos maiores sucessos de público de todos os tempos, ainda levou 8 indicações ao Oscar e promete fazer História! Como muito já se disse, é um impressionante thriller de ação e suspense, com a fundamental diferença de ter como protagonista um homem fantasiado de capa e máscara e como vilão um demente transtornado e completamente imprevisível. Chris Nolan elevou o gênero a uma categoria acima do que se vinha tratando até então, mostrando com sabedoria, respeito ao tema e muito cuidado como criar um trabalho inesquecível.

01. “Wall-E” (EUA)
 E quem disse que ‘animação’ é um gênero inferior de se fazer cinema? Depois de anos conquistando público e crítica com obras nada menos do que geniais, a Pixar levou aos cinemas em 2008 sua obra prima: “Wall-E”! O conto do robozinho limpa-lixo que termina por salvar o planeta Terra do descaso total merece todos os aplausos possíveis, e o diretor Andrew Stanton (“Procurando Nemo”) usa todo o potencial a sua disposição para criar uma trama absurdamente cativante, que brinda a inteligência do espectador com muito respeito e emoção. Um clássico instantâneo, que nasce já como referência para gerações futuras e oferecendo um novo significado à expressão “arte cinematográfica”.

Como disse no início deste texto, 2008 foi um ano impressionante. E, aqueles que não foram muito atentos durante os 12 meses que se passaram, devem ir atrás não só destes títulos, mas também de outros trabalhos merecedores de atenção. São obras impressionantes, como o mexicano “Zona do Crime”, o brasileiro “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas, as duas performances de Penélope Cruz em “Vicky Cristina Barcelona” e “Fatal”, o arrebatador e chocante “O Nevoeiro”, baseado num conto de Stephen King, e até mesmo a nova aventura de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, de Steven Spielberg, que recriou com maestria o clima das matinês do início dos anos 80. Grandes e boas opções, que mostram que a diversidade foi o tom mais marcante de um ano repleto de boas surpresas!

 

“A Duquesa”

quinta-feira, novembro 27th, 2008

Dramas históricos sempre possuem um público cativo. Agora, quando a trama é dotada de um forte viés feminista, como é o caso de “A Duquesa”, é ainda mais fácil identificar este (a) espectador (a). E elas certamente não irão se decepcionar com este filme que combina com bastante habilidade fatos verídicos com uma estrutura quase novelesca. Se há algo para se lamentar aqui é justamente aquele que deveria ser o ponto forte da produção: o desempenho da protagonista Keira Knightley, sem o vigor visto nos “Piratas do Caribe” ou a sutileza percebida em “Desejo e Reparação”, por exemplo. No papel-título da duquesa Georgiana Spencer, uma antepassada remota da Princesa Diana, ela não consegue demonstrar satisfatoriamente os percalços que sua personagem viveu, praticamente dois séculos antes da mesma história ser repetida pela própria Lady Di. E sem uma atuação realmente convincente da protagonista, toda a estrutura se movimenta com a impressão de estar prestes a desabar a qualquer momento. O que, se não acontece, também não vai muito longe na direção oposta.

Aos 16 anos Georgiana é entregue, mediante um acordo familiar, ao Duque de Devonshire, o homem mais poderoso de toda a Inglaterra naquele período do século 18. Ele tinha apenas uma ambição para com ela: obter um herdeiro. Como ela falha nas duas primeiras tentativas, gerando meninas, o descontentamento entre eles cresce vertiginosamente. E a relação marido-esposa piora de vez quando ele resolve assumir a melhor amiga dela como amante, mantendo simultaneamente as duas na mesma casa. Situação insustentável que ela só consegue lidar também arrumando para si um novo amor, Charles Grey, que viria a ser um futuro Primeiro-Ministro. Só que ao saber da traição da mulher o duque a ameaça terrivelmente, alertando-a que poderia tirar a guarda dos filhos e até acabar com a carreira política do rapaz caso insistisse naquele romance. E assim, sem saída, precisa resignar-se a uma vida de grande sucesso na sociedade, entre festas, viagens e comemorações, porém extremamente infeliz quando se tratava de assuntos mais íntimos e pessoais.

Se Knightley não consegue demonstrar uma maior maleabilidade na composição da sua personagem, alternando entre a frustrada e a esfuziante, sem meios termos, por outro lado a grande atuação do elenco é a de Ralph Finnes (“A Lista de Schindler”, “O Paciente Inglês”), como o Duque. E impressionante perceber como uma personalidade tão facilmente desprezível e detestável adquire feições humanas e até compreensíveis diante a interpretação dele. Sentimos raiva e irritação com as atitudes que toma, mas ao mesmo tempo estas são lógicas e dignas de entendimento. E alguém tão complexo, cheio de nuances e controverso merecia mesmo uma personificação à altura. Outros pontos fortes do elenco são a ótima Charlotte Rampling (mostrando que o recente “Missão Babilônia” e o assustador “Instinto Selvagem 2” foram realmente passos em falso num currículo repleto de papéis ricos e muito mais interessantes) e o jovem Dominic Cooper (“Mamma Mia”).

Dirigido pelo novato Saul Dibb (da aclamada minissérie exibida pela BBC “A Linha da Beleza”), “A Duquesa” carece de uma mão mais forte na sua condução, um tanto indecisa entre tanta ostentação – figurinos, cenários – sua relevância histórica e a própria protagonista. Não a ponto do filme ser um desperdício, mas no meio do caminho entre algo maior e não tão medíocre. No final, o que temos é algo mais curioso e que irá se comunicar apenas com sua audiência cativa. E, infelizmente, sem conseguir ir além.

The Duchess, Reino Unido/Itália/França, 2008
De Saul Dibb
Com Keira Knightley, Ralph Fiennes, Charlotte Rampling, Dominic Cooper, Hayley Atwell, Simon McBurney

(nota 6,5)

“Mulheres… O Sexo Forte”

sexta-feira, outubro 3rd, 2008

Dentre os recentes campeões de bilheteria do verão norte-americano, dois foram verdadeiras surpresas: “Sex and the City” e “Mamma Mia!”, ambos apostando com força no público feminino (e gay, claro). Então não é novidade alguma que Hollywood tenha decidido seguir investindo neste universo. E o que temos é esse “Mulheres… O Sexo Forte”, longa que ganha pelo bom elenco, mas peca pelos desperdício de oportunidades. Ele nada mais é do que um arremedo de tantas outras produções semelhantes, claramente inspirado no já citado “Sex and the City”. É divertido, provoca algumas risadas e tal, mas é tudo tão estereotipado e previsível que dificulta a identificação com o público e um envolvimento mais profundo.

Refilmagem do clássico “As Mulheres” (1939), dirigido por George Cukor (“Minha Bela Dama”) e estrelado por Joan Crawford, Joan Fontaine, Norma Shearer e Rosalind Russell, o mais surpreendente da produção, no entanto, é que assim como na versão original o elenco inteiro – das protagonistas às coadjuvantes, passando inclusive pelas crianças e até animais – é composto exclusivamente por… mulheres! Só há personagens femininas! Mas isso acaba sendo uma falsa ilusão, por que sobre o que elas falam o tempo inteiro? Homens, é claro!

Meg Ryan (mais uma vez tentando obter algum reconhecimento num papel mais dramático, distante da composição tola vista no recente “Mais do que você Imagina”) é uma feliz dona de casa e mãe de família que vê seu mundo vir abaixo quando descobre que o marido está tendo um caso com uma fogosa vendedora (Eva Mendes, de “Motoqueiro Fantasma”, investindo tudo em sua sensualidade) de uma loja de departamentos. Se a mãe (a sempre ótima Candice Bergen, porém um pouco plastificada demais) lhe aconselha a fingir que não sabe de nada, as melhores amigas (Annette Bening, Debra Messing e Jada Pinkett Smith) terminam por se intrometer um pouco além da conta, obrigando-a a tomar uma posição – que acaba, claro, na separação. Sozinha, o que acontece? Ela se “redescobre”, se afirma profissionalmente, reconecta-se com a filha e… tchã tchã tchã… reencontra o amor de sua vida!

Dirigido por Diane English (também roteirista, agora estreando como realizadora), “Mulheres… O Sexo Forte” (o subtítulo nacional é de doer…) é um amontoado de clichês de provocar constrangimento nas mais feministas, risadas no público masculino e vergonha no seu público alvo, que se verá na tela grande como dondocas riquinhas mal acostumadas e capazes de traições, mentiras e outros absurdos quando buscam metas materiais, como manter o status quo, o emprego que sempre sonharam, a casa-mansão, a segurança da família e a tranqüilidade dos empregados. Realização pessoal, boas amizades e bem estar, valores mais difíceis de serem quantificados, acabam virando conseqüências. Se atingidos, legal. Caso não dê… fazer o que? Assim é a vida. Ou não?

“Mulheres… O Sexo Forte” acaba valendo mais como curiosidade, por trazer novamente à ativa nomes que há tempos não víamos, como uma divertida Bette Midler (numa pequena, porém marcante, participação), a oscarizada Cloris Leachman (“A Última Sessão de Cinema”, 1971), Carrie Fisher (a Princesa Leia de “Star Wars”) e Debi Mazar (que ultimamente tem marcado mais presença na televisão, em séries como “Entourage” e “Ugly Betty”). E não deixa de ser engraçado, e ao mesmo tempo bizarro, só vermos mulheres em cena, o tempo inteiro. Parece um universo paralelo. E talvez seja isso mesmo que o filme queira mostrar. E se você não acredita nesta divisão tão radical, assim como eu, é bastante provável que também o considere uma grande perda de tempo, dinheiro e esforços!

The Women, EUA, 2008
De Diane English
Com Meg Ryan, Annette Bening, Eva Mendes, Debra Messing, Jada Pinkett-Smith, Candice Bergen, Bette Midler, Carrie Fisher, Debi Mazar, Cloris Leachman

(nota 4,5)

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