“Burlesque”
quinta-feira, fevereiro 10th, 2011
Christina Aguilera tem a voz. Cher tem o mito. E a trilha sonora é uma delícia à parte, com canções das duas e de outros nomes de destaque, como Madonna. Como, então, não gostar de “Burlesque”? (mais…)
Cinema e cultura pop com opinião!
Christina Aguilera tem a voz. Cher tem o mito. E a trilha sonora é uma delícia à parte, com canções das duas e de outros nomes de destaque, como Madonna. Como, então, não gostar de “Burlesque”? (mais…)
“Michael Jackson teve que morrer para provar que estava vivo”. Esta frase, repetida insistentemente pela imprensa por ocasião do lançamento do documentário musical “This Is It”, não poderia ser mais verdadeira (mais…)
No mundo vivemos cercados de milhões de pessoas que não conhecemos, não sabemos de onde vieram ou para onde vão. E, em meio a todas essas milhares de redes de seres humanos desconhecidos, existem centenas de pessoas com habilidades indescritivelmente incríveis (mais…)
No site IMDb, um leitor chamou “O Grupo Baader Meinhof” de “necessário”. Este é, mesmo, o termo mais apropriado para defini-lo. E talvez seja por isso, também, que uma produção tão protocolar tenha conseguido indicações a prêmios importantes como o Oscar, o Globo de Ouro e o Bafta (mais…)
“RocknRolla” representa mais do que uma simples história de ladrões envolvidos em grandes golpes. Seu principal significado é a volta de Guy Ritchie, um realizador que teve um ótimo início, mas que após alguns tropeços andava meio em baixa. Mas apesar de ter divido a opinião da crítica e ter tido um desempenho bastante discreto nas bilheterias, este filme mostrou que ainda há fôlego neste cineasta inglês que parecia estar ficando acostumado a ser conhecido apenas como o Sr. Madonna. Mas agora, passado o casamento com a diva pop e superado às terríveis recepções aos seus dois longas anteriores – “Destino Insólito” (2002) e “Revolver” (2005) – Ritchie reencontra seu público fiel trazendo mais do mesmo, mas de forma competente e divertida. A aposta agora é que daqui pra frente tudo tenda a melhorar ainda mais.
Gerard Butler (“300”) é um malandro que acaba se envolvendo com um poderoso chefão inglês (Tom Wilkinson, de “Conduta de Risco”), que por sua vez está endividado com um mafioso russo. No meio disso tudo há um valioso quadro desaparecido, que foi parar com um roqueiro viciado que simulou a própria morte para poder curtir melhor as drogas. Há ainda um pilantra gay, uma contadora cheia de segundas intenções (Thandie Newton, de “Crash”) e o braço-direito do bandido britânico (Mark Strong, do recente “Rede de Mentiras”), que também esconde mais do que revela. Ou seja, é um verdadeiro jogo de gato-e-rato, em que cada um tem seus motivos e intenções, e nada é exposto claramente.
O grande destaque de “RocknRolla – A Grande Roubada”, como se pode perceber, é o roteiro engenhoso, escrito por Ritchie. Ele consegue manejar com habilidade seus personagens, colocando-os em frias inimagináveis e, ao mesmo tempo, liberando-os para as mais diversas loucuras. É notório o carinho que tem pelas figuras patéticas que desenha, ao mesmo tempo em que se diverte com cada um deles. E os atores também se entregam com dedicação aos personagens, demonstrando vigor e bastante interesse. Wilkinson é um furacão, melhor em cada novo trabalho. Butler está perfeito, e a cena de dança entre ele e Newton já nasce clássica. E outras surpresas são introduzidas aos poucos, cada uma demonstrando uma nova faceta em detalhes e informações.
Se há problemas em “RocknRolla” talvez seja o impressionante número de voltas que dá para, no final, não sair muito do lugar. É um filme divertido, porém não mais do que isso. E quem for esperando algo muito inovador certamente irá se decepcionar, assim como aqueles que não entrarem no clima de non sense da trama. Mas, para os demais, o encontro será com uma história ágil e moderna, com uma trilha sonora envolvente e um elenco acima de qualquer suspeita. E, claro, com um Guy Ritchie revigorado, de volta ao prumo e pronto para novas aventuras, assim como foram seus primeiros trabalhos: “Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes” (1998) e “Snatch – Porcos e Diamantes” (2000).
RocknRolla, Reino Unido, 2008
De Guy Ritchie
Com Gerard Butler, Tom Wilkinson, Mark Strong, Thandie Newton, Ludacris, Jimi Mistry, Jeremy Piven, Toby Kebbell, Gemma Aterton
(nota 7,5)
Todo mundo já comentou a respeito das diversas transformações de Madonna. E onde ela mais mudou visualmente foi no cinema, o veículo que melhor registrou estes altos e baixos. É por isso, então, que organizei um Top 10 com os melhores momentos dela na tela grande durante estes vinte e cinco anos de carreira. Aproveito também para gerar um aquecimento, já que estamos nas vésperas das históricas apresentações dela, no Rio de Janeiro e em São Paulo, no final deste ano! E enquanto não a vemos ao vivo, que tal desvendar um pouco melhor esta faceta cinematográfica?
10. “Sobrou Pra Você” (The Next Best Thing, 2000)
Tinha tudo para dar certo: um diretor vencedor do Oscar (John Schlesinger, de “Perdidos na Noite”, 1969), o melhor amigo como co-protagonista (Rupert Everett, vindo do sucesso de “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, 1997) e uma temática super atual, os novos relacionamentos que surgem das aproximações entre heteros e homossexuais. Mas o resultado foi constrangedor para todos, desde os fãs mais ardorosos até os meros curiosos. Salva-se a primeira metade do filme, com momento bem divertidos e mais leves, e as duas canções que Madonna gravou para a trilha sonora: “American Pie”, de Don McLean (ele chegou a afirmar na época que “já recebi em minha carreira muitos presentes dos deuses, mas este é o primeiro que ganho de uma deusa!”) e “Time Stood Still”.
09. “Destino Insólito” (Swept Away, 2002)
A terceira parceria entre Madonna e o seu atual ex-marido, o diretor Guy Ritchie (antes eles haviam trabalhado juntos no videoclipe da canção “What it Feels Like for a Girl” e no curta para a BMW “Star”, ambos em 2001), teve os resultados mais controversos também. Tremendo fracasso de bilheteria, custou US$ 10 milhões e não ficou em cartaz nos Estados Unidos nem um mês inteiro, com uma arrecadação de pouco mais de meio milhão de dólares. Conseqüência direta é que foi lançado no resto do mundo diretamente em DVD. Outras conquistas foram as 5 Framboesas recebidas: Pior Filme, Pior Refilmagem, Pior Diretor, Pior Atriz e Pior Dupla (Madonna e Adriano Giannini). Mas, apesar de tudo isso, gosto do longa, e acho Madonna perfeita como uma ricaça mimada que acaba numa ilha perdida ao lado de um dos ajudantes do navio. Diversão despreocupada, apesar de nos remeter mais à persona dela do que a um personagem original.
08. “Olhos de Serpente” (Snake Eyes / Dangerous Game, 1993)
Típico projeto que só virou realidade porque Madonna acreditou, em algum momento, que poderia ser um desafio estimulante e que iria ajudá-la no caminho de se tornar uma atriz mais completa. E até está bem convincente como uma atriz problemática num set de filmagens bastante conturbado. O grande problema é que praticamente ninguém viu o filme. Mas a oportunidade de ser dirigida por Abel Ferrara e contracenar com Harvey Keitel deve ter tido seu significado. E apesar do resulutado ser um tanto irregular, é, sem sombra de dúvidas, uma das atuações mais esforçadas de toda a carreira dela.
07. “Corpo em Evidência” (Body of Evidence, 1993)
“Corpo em Evidência” fez parte do pacote: “vou chocar o mundo”, ao lado do disco “Erotica” e do livro de fotos “Sex”. É, no entanto, a parte mais fraca do trio. A direção do alemão Uli Edel é péssima, o argumento do enredo é risível (mulher é suspeita de ter assassinado o amante mais velho ao transar com ele) e nem nomes como Willem Dafoe e Julianne Moore escapam de maiores embaraços. Mas Madonna está ótima, com diálogos antológicos (“Mas não somos animais! Sim, nós somos!”), muita nudez e provocação. Imperdível.
06. “Quem é esta Garota?” (Who’s that Girl?, 1987)
Outro filme essencial no histórico dela. É uma comédia bobinha, cujo maior erro é ser um remake de um filme de Katherine Hepburn (“Levada da Breca”, de 1938). Como as expectativas eram muito altas, as cobranças estavam nas mesmas alturas. Mas ela está muito à vontade em cena, e o projeto rendeu ainda uma turnê de mesmo nome e quatro canções ótimas, com destaque para a agitada “Causing a Commotion” e para a que deu título ao filme, que chegou a ser indicada ao Globo de Ouro.
05. “Procura-se Susan Desesperadamente” (Desperately Seeking Susan, 1985)
O primeiro grande papel de Madonna no cinema é também até hoje uma das suas aparições mais marcantes na tela grande. Antes disso, havia feito apenas uma pequena participação no romântico “Em Busca da Vitória”, como uma cantora de bar, e no independente “Um Certo Sacrifício”, feito antes da fama. Aqui, por outro lado, ela é a estrela absoluta, roubando toda a atenção da protagonista Rosanna Arquette. Claro que colaborou muito o fato da Madonna de 1985 e da Susan deste filme serem praticamente a mesma pessoa, provocando apenas a primeira das tantas confusões entre intérprete e personagem que virou rotina no currículo da estrela. E a canção-tema “Into the Groove” é um dos maiores clássicos dos anos 80!
04. “Uma Equipe Muito Especial” (A League of Their Own, 1992)
Este é simplesmente o maior sucesso comercial de toda a carreira cinematográfica de Madonna – isso se deixarmos de fora “007 – Um Novo Dia Para Morrer” (2002), em que ela fez apenas uma participação especial. Foram mais de US$ 107 milhões de dólares arrecadados somente nas bilheterias norte-americanas! Claro que ajudou o fato dela ser somente uma coadjuvante, e dos protagonistas serem Tom Hanks e Geena Davis (em alta na época, logo após “Thelma & Louise”). E a história do time feminino de baseball é comovente e divertida na medida certa, atingindo todo tipo de espectador. De quebra, mais um sucesso na trilha sonora: a balada “This Used to be my Playground”!
03. “Dick Tracy” (Dick Tracy, 1990)
Chegamos aos três melhores momentos de Madonna na tela grande. E começamos a escalada com muito brilho: “Dick Tracy” conquistou o Oscar de Melhor Canção, por “Sooner or Later”, interpretada por Madonna e escrita por Stephen Sondheim. A história de amor entre Breathless Mahoney, uma cantora de cabaré, e o herói-título, interpretado por Warren Beatty, saiu da ficção e invadiu a vida real, pontuando mais um momento de grande popularidade da estrela. Aclamada pelo público, pela crítica e apaixonada. Que mais ela poderia querer?
02. “Na Cama Com Madonna” (Truth or Dare: In Bed With Madonna, 1991)
Sim, ela queria mais. Ela queria o mundo! E foi isso que conquistou logo em seguida, com o controverso “Na Cama com Madonna”, longa semi-autobiográfico feito durante a turnê “Blond Ambition”, que reunia os maiores sucessos dela na época. Polêmica, muito estilo, espetáculos grandiosos, convidados especiais – quem esquece como ela tratou Kevin Costner e Pedro Almodovar? – e muita música fez desse um dos mais bem sucedidos documentários musicais de toda a história. E o memorável lançamento do filme no Festival de Cannes daquele ano já anunciava: ela não estava para brincadeira!
01. “Evita” (Evita, 1996)
E Madonna finalmente chegou ao seu máximo. O sonho de viver a mítica primeira-dama argentina na ópera-rock de Andrew Lloyd Webber a acompanhava há anos, e para conseguir este papel teve que superar uma concorrência fortíssima, batendo nomes como Meryl Streep e Michelle Pfeiffer. E como valeu a pena! Madonna é Evita! Sua performance – tanto interpretando quanto cantando – é intocável, e até o crítico mais ferrenho é forçado a admitir que não havia escolha mais apropriada. Com direção de Alan Parker e aparecendo ao lado do galã Antonio Banderas, ela não poderia estar mais à vontade. Mais um Oscar na estante – pela canção “You Must Love Me” – e os maiores reconhecimentos da carreira dela enquanto intérprete: os Globos de Ouro de Melhor Atriz e de Melhor Filme, ambos na categoria Musical ou Comédia! Parabéns!
Então, aposto que você nem imaginava que o impacto de Madonna na sétima arte era tão forte assim. E isso que deixamos de fora outros títulos importantes, como “Surpresa de Sanghai” (1986), em que apareceu ao lado do então marido, o Oscarizado Sean Penn, “Neblina e Sombras” (1992), com direção de Woody Allen, “Sem Fôlego” (1995), de Wayne Wang, “Grande Hotel” (1995), trabalho coletivo que a aproximou de nomes como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, “Garota 6″ (1996), de Spike Lee, e a animação “Arthur e os Minimoys” (2006), de Luc Besson, em que dá a voz da Princesa Selenia. Grandes parcerias, desempenhos diversificados e muito empenho – assim como no mundo da música, Madonna sempre se esforçou ao máximo para obter um justo reconhecimento da tela grande. Quem sabe agora, que estreou como diretora em “Filth and Wisdom” (2008), não consiga? E se você acha que depois disso já sabe tudo sobre Madonna na tela grande, me diga: a imagem que abre este artigo é de qual filme?
A primeira noite do 36º Festival de Cinema de Gramado foi quase que inteiramente dominada pela presença feminina. Madonna, Naura Schneider, Leandra Leal e Clarah Averbuck (as duas últimas ao lado) marcaram presença das mais variadas formas, mostrando que a força da mulher está cada vez maior. E um dos maiores encontros do cinema nacional deixou isso bem registrado logo de início.
Começou com a abertura oficial, com concerto oferecido pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a OSPA. Ao invés de tocar temas cinematográficos, como em anos anteriores, quando as canções de “Casablanca”, “Titanic”, “Bonequinha de Luxo” e tantos outros eram apresentadas em formato instrumental, desta vez a homenageada foi a cantora norte-americana Madonna, que no próximo dia 16 completa 50 anos. Então músicas pop como “Like a Virgin”, “Vogue” e “Holiday” foram entoadas com muito vigor, promovendo um belo encontro entre o clássico e o contemporâneo. O público respondeu com entusiasmo.
Duas horas depois, às 19h, o início de fato, já dentro do Palácio dos Festivais. E antes dos filmes, o único momento masculino da noite: a entrega da Homenagem Especial Cidade de Gramado para o eterno trapalhão Renato Aragão (ao lado, com o presidente do Festival de Gramado, Alemir Colleto). Didi subiu ao palco, chorou, ganhou um kikito, uma placa dourada e até um laptop Sony Vaio, num dos atos mais descarados de merchandising já ocorridos em pleno palco de Gramado. Ele ficou visivelmente sem jeito, até porque não tinha mãos para carregar tudo aquilo, e porque obviamente ninguém o avisou que, para ganhar seu kikito, teria que posar como garoto propaganda da Sony. Mas enfim, coisas de festival.
O filme escolhido para abrir o 36º Festival de Cinema de Gramado foi a produção gaúcha “Dias e Noites”, de Beto Souza e baseado no romance “Clô Dias e Noites”, de Sergio Jockymann. Exibido como convidado e fora da competição, o longa é resultado do esforço da atriz Naura Schneider, também produtora. A história atravessa várias décadas para mostrar o destino de Clô (a própria Naura, obviamente), uma garota que decide se casar, no final dos anos 40, para assim poder sair de casa e do controle rígido do pai, para cair num relacionamento ainda mais frustrante. Vítima de violência doméstica, acaba sendo expulsa de casa sem direito à guarda dos dois filhos. Para sobreviver, termina se transformando em prostituta de luxo, trocando de homens da mesma forma de ascendia sua posição social. A obra tem vários problemas, mas possui também alguns méritos, como a atuação do sempre competente Antônio Calloni, como o primeiro marido de Clô, e a encantadora fotografia de Renato Falcão.
Outra trajetória feminina, e mais uma vez inspirada no talento de uma gaúcha, foi responsável pelo segundo filme, o primeiro da mostra competitiva. “Nome Próprio” levou o cineasta Murilo Salles pela quarta vez à Gramado, após “Nunca Fomos Tão Felizes” (1984), “Faca de Dois Gumes” (1988) e “Como Nascem os Anjos” (1996). Se considerarmos que este é somente seu quinto filme, e que os três anteriores saíram da serra gaúcha todos carregando vários kikitos (“Como Nascem os Anjos” foi eleito o Melhor Filme daquele ano), percebe-se que a expectativa em relação ao seu novo trabalho era alta. E ela não foi decepcionada. Inspirado nos dois primeiros livros escritos pela autora gaúcha Clarah Averbuck, “Nome Próprio” tem como protagonista Camila (alter-ego da autora), uma jovem em crise emocional, que não consegue refrear seus instintos ao mesmo tempo em que busca inspiração para o início de sua produção literária despejando suas emoções em blogs pela internet. A interpretação de Leandra Leal no papel principal é fenomenal, e já se pode apontar o primeiro kikito garantido deste ano.
O domingo terminou com poucos nomes de destaque na cidade. Calloni, Leandra, Naura, Murilo Salles, Beto Souza, Renato Aragão e Zé Victor Castiel eram os mais procurados pelos poucos tietes de plantão e pelos fotógrafos e jornalistas. Tudo indicado que a partir de segunda isso mude, com mais festas, mais filmes e mais “estrelas” despontando por aqui a todo instante. E pode-se afirmar que os filmes também irão melhorar, com o início da mostra competitiva dos longas latinos e dos curtas-metragens. A semana está só começando, então nada de julgamentos adiantados. O melhor é manter o espírito em alta e aguardar o que ainda vem por aí.
Em mais de 25 anos de carreira, Madonna Louise Veronica Ciccone Ritchie já deixou bem claro porque é considerada a maior estrela do universo pop atual. Cantora, atriz, diretora, produtora, dançarina, escritora, ativista social, mãe e esposa: qualquer papel lhe cai bem, visto a desenvoltura que os desempenha. E o lançamento de seu novo álbum, “Hard Candy”, o décimo segundo de estúdio só com composições inéditas, mostra que ela conseguiu se reinventar mais uma vez. E isso já é tão comum que até poderia usar a tagline da amiga Britney: “oops, I did it again!”
O mais impressionante de “Hard Candy” é que ele representa a mais completa volta às origens da persona ‘cantora’ de Madonna. Afinal, quando foi lançado o primeiro trabalho, simplesmente intitulado “Madonna” (e relançado anos depois como “The First Album”), que conquistou as pistas e as paradas com canções arrebatadoras como ‘Holiday’, ‘Everybody’ e ‘Borderline’, a grande maioria acreditava tratar-se de uma nova artista negra! A confusão era tanta que a gravadora queria lançar uma versão da capa do disco sem uma foto dela, para manter o público na dúvida. Mas desde este início ela conseguiu impor sua vontade. Tanto que lá está ela, de olhar frágil e desafiador, cabelos curtos desgrenhados e correntes ao redor do pescoço, deixando claro quem iria ditar as regras a partir daquele momento. E “Hard Candy” é, nestas duas décadas e meia, o que mais se aproxima da produção musical negra do momento desde aquele começo promissor.
Madonna já brincou com o sexo (“Like a Virgin”), com sua intimidade (“True Blue”), com a religião (“Like a Prayer”), flertou com o cinema (“I’m Breathless”), com o erotismo (“Erotica”), com a exposição pública (“Bedtime Stories”), com a fugacidade do mundo contemporâneo (“Ray of Light”), com simples prazer da música (“Music”), com seu país (“American Life”) e com a dança (“Confessions on a Dance Floor”). Chegou a vez, agora, de parar e olhar para trás, combinando duas ou três lições antigas e incrementando esta receita com uma sonoridade inédita, porém em completa sintonia com a atualidade.
“Hard Candy” não é perfeito. Mas, assim como 90% da sua obra, é imensamente superior à maioria do que é lançado normalmente pelos demais artistas. Irregular, lembra em alguns momentos “American Life” (que continha canções ótimas, como ‘Hollywood’, ‘Nothing Fails’ e ‘Mother and Father’, ao lado de outras bem questionáveis, como ‘I’m So Stupid’, ‘Nobody Knows Me’ e a própria ‘American Life’). Se começa de forma perfeita, com ‘Candy Shop’ (excelente como introdução, com uma letra que exemplifica com bastante objetividade o que está por vir), logo incendeia com ‘4 Minutes’ (ao lado de Justin Timberlake e Timbaland), ‘Give it 2 Me’ (a melhor do álbum) e ‘Heartbeat’ (canção bobinha, porém envolvente). E a partir deste ponto o rumo da conversa muda.
‘Miles Away’ é a retomada ao universo das baladas, o que é quase uma controvérsia dentro da carreira dela. Muitos a acusam de não saber compor ou interpretar canções mais lentas, apontando que o forte seriam as mais agitadas, feitas para dançar. Bem, sucessos inegáveis como ‘Crazy for You’, ‘Live to Tell’, ‘Oh Father’, ‘Rain’, ‘Take a Bow’, ‘The Power of Good-bye’ e ‘What it feels like for a girl’, além da coletânea “Something to Remember”, só com baladas, deixam bem claro o contrário. Se em “Confessions on a Dance Floor” ela meio que havia abandonado esta faceta, aqui a retoma com bastante empenho. ‘Miles Away’ é bonita, mas vale mais como curiosidade por ser bastante pessoal (fala de relacionamentos à distância, como o dela e do marido inglês Guy Ritchie). Mas boa mesmo é ‘Devil wouldn’t recognize you’, a penúltima canção, um tema de amor sofrido, com um refrão irresistível e de uma entrega absurda. Outra faixa que vai direto para um futuro ‘best of’!
Temas recorrentes na sua obra se manifestam em outras composições. ‘She’s Not Me’ nada mais é do que uma releitura da superior ‘Thief of Hearts’ (presente em “Erotica”). É divertida, funciona bem, mas superficial. ‘Dance 2Night’ convida todos a dançar, a se divertir e esquecer os problemas do cotidiano, coisa que ela vem fazendo desde ‘Everybody’ – passando, neste meio tempo, por ‘Over and Over’, ‘Where’s the Party’, ‘Keep it Together’, ‘Deeper and Deeper’, ‘Don’t Stop’, ‘Nothing Really Matters’, ‘Impressive Instant’, a coletânea “You Can Dance” e quase todo o álbum “Confessions…”. Ou seja, ela domina o assunto, e a gente já sabe disso.
O interesse de Madonna pelo mundo latino também está de volta em ‘Spanish Lesson’, uma literal aula de espanhol. Desde ‘La Isla Bonita’ vem flertando com este universo de referências, que ficaram ainda mais evidentes com o decorrer dos anos (‘Spanish Eyes’, ‘I’m Going Bananas’, ‘Verás’, ‘Lo Que Siente Una Mujer’ e ‘Don’t cry for me, Argentina’ são outros exemplos). ‘Spanish Lesson’ chega a ser irritante em alguns momentos – a própria Madonna afirmou em entrevista recente que teve dúvidas se incluía ou não esta música na versão final do álbum, tomando a decisão favorável no último momento. Mas tem bons momentos, e como resistir ao chamado dela quando diz ‘Señorita, she just wants to fall in love’?
Há pontos fracos em “Hard Candy”, claro. ‘Incredible’ chega a ser atordoante, e penso que só o Guy deve ouvi-la com prazer (afinal, quem não gostaria de ter sua mulher declarando ‘the sex with you is incredible!’?). Com uma rima fraca e tanta distorção em cima, sua voz fica quase irreconhecível em alguns momentos. Descartável. Assim como ‘Beat Goes On’, a parceria com Kanye West. Esta faixa chegou a vazar pela internet no final do ano passado, e a versão anterior era muito melhor. Esta final, tal como está no álbum, carece de personalidade, dividida entre a ritmo dele e o desconforto dela.
Por fim há ‘Voices’, outro trabalho ao lado de Justin Timberlake, em que ela mais uma vez resolve encerrar com uma lição – repetindo uma tradição de anos, afinal, o que eram ‘Why’s it so Hard’, ‘In This Life’, ‘Mer Girl’, ‘Gone’, ‘Easy Ride’ ou ‘Like it or Not’? Agora ela começa com Justin perguntando: ‘quem é o mestre e quem é o escravo?’ (será uma dica para ele?), para prosseguir indagando: ‘é você que conduz o cão, ou ele que está lhe guiando?’
Assim como tem se repetido em álbuns anteriores recentes, algumas das melhores composições ficam de fora a versão final e chegam ao público somente em edições especiais, em singles ou mesmo pela internet. “Confessions on a Dance Floor” tinha, além das 12 ótimas faixas do cd normal, mais três excelentes canções: ‘Fighting Spirit’ (presente da edição especial), ‘History’ (que veio no single de ‘Jump’) e ‘Superpop’ (a melhor de todas, que permanece inédita, tendo vazado apenas pela internet). Em “Hard Candy” o “doce extra” é ‘Ring my Bell’ (nada a ver com a canção setentista de Anita Ward), que está apenas na versão especial do cd lançada no Japão. Vale a pena procurar para download, porque além do refrão ser ótimo, é uma música que merece ser descoberta.
Madonna começa ‘Ring my Bell’ afirmando: “if you wanna talk to me, that’s exactly what you gonna have to do: talk to me!” Ou seja, mesmo que seja esta faixa um ‘segredo’ do álbum, ela está disposta a chamar seu público para o confronto, para o debate e convidando-o a ser ouvido. Somos nós, quem a escuta, que irá determinar seus próximos passos. É o que ela busca, sintonia com ouvinte, para assim entregar seu melhor. Talvez “Hard Candy” não se posicione entre o Top 5 da cantora, mas há muito nele a ser degustado e aproveitado. E, depois disso tudo, nos resta esperar com ansiedade renovada pelo próximo passo dela.