Link Worth

39° Festival de Cinema de Gramado: Quinto Dia

quinta-feira, agosto 11th, 2011

Como não poderia ser diferente, o quinto dia do 39° Festival de Cinema de Gramado foi marcado pela homenagem mais esperada desse ano: a entrega do Troféu Oscarito para Fernanda Montenegro (mais…)

Os Grandes Vencedores do 37º Festival de Gramado

segunda-feira, agosto 17th, 2009

O 37º Festival de Cinema de Gramado terminou sem grandes surpresas, reconhecendo aqueles que realmente eram melhores – mesmo que, em muitos destes casos, esse fato não se justifique pela qualidade própria, mas sim pela absoluta falta de concorrência (mais…)

Um talento gigante

segunda-feira, agosto 17th, 2009

Desde 2007 uma nova homenagem tem espaço dentro da programação oficial do Festival de Gramado – como se fossem poucas as já instituídas! É o Kikito de Cristal, que tem como justificativa reconhecer a carreira de grandes cineastas latino-americanos. E depois do brasileiro Eduardo Coutinho e do cubano Julio Garcia Espinosa, chegou a vez do moçambicano Ruy Guerra (mais…)

Gaúchos em destaque

sábado, agosto 15th, 2009

Num ano em que o Festival de Cinema de Gramado parecia dominado pelas pseudo-celebridades da Rede Record de Televisão, a TV Globo enviou apenas um dos seus mais poderosos canhões para eliminar a competição (mais…)

Cinema por todos os lados

quinta-feira, agosto 13th, 2009

O dia começa cedo para os cinéfilos presentes ao 37º Festival de Cinema de Gramado. Na terça-feira, terceiro dia de atividades, às 09h da manhã, já havia sessão no Centro Municipal de Cultura (mais…)

“Dias e Noites”

sábado, novembro 22nd, 2008

Resultado do empenho e da dedicação da atriz e produtora Naura Schneider, “Dias e Noites” representa mais um capítulo no atribulado relacionamento entre o Rio Grande do Sul e o Cinema Nacional. E o filme exemplifica bem a máxima de que no estado se há muita quantidade, porém pouca qualidade. Afinal, com exceção de um ou outro, qual dos tantos filmes gaúchos feitos nos últimos anos pode ser apontado como algo realmente bom? Certamente não “Dias e Noites”, infelizmente.

Naura resolveu levar às telas o livro de Sérgio Jockymann, “Clô Dias e Noites”, que havia lido anos atrás e se apaixonado. Decidida a fazer desta história sua estréia nas telas, foi atrás de parcerias profissionais, levantando o orçamento necessário para ver seu sonho virar realidade. E não é que conseguiu? Somente por todo este esforço é complicado ser muito cruel com a obra. O que ela fez foi algo hercúleo, digno de aplausos. Pena que estes sejam direcionados apenas a dedicação que houve por detrás da tela, e não o que vemos em cena.

Com direção de Beto Souza, o mesmo do irregular “Cerro do Jarau” e co-diretor do pouco reconhecido “Netto Perde Sua Alma”, “Dias e Noites” foi produzido pela Panda Filmes, a mesma de “Valsa para Bruno Stein”. No roteiro está Pedro Zimmerman, vencedor do kikito no Festival de Gramado pelo trabalho feito em “Diário de um Novo Mundo”. Já a trilha sonora ficou a cargo do ótimo Guto Graça Mello, o mesmo de “Cazuza – O Tempo Não Pára” e “Se Eu Fosse Você”, entre outros. Ou seja, sinal de que Naura se cercou de muitos talentos. Então, por quê o filme é ruim? Complicado dizer. Mas é notório que ele, simplesmente, não funciona, por mais esforçados que todos estejam.

“Dias e Noites” tem como protagonista Clô, uma mulher que desde jovem ousou desafiar as regras da sociedade e trilhar seu próprio caminho. Ainda adolescente, do campo gaúcho, é obrigada pelo pai a se casar com um homem mais velho (Antonio Calloni, muito bem), que a maltratava e tudo que exigia dela era um filho. Quando finalmente consegue se livrar deste casamento frustrado, vai para a cidade grande e vira amante, primeiro de um advogado (Zé Victor Castiel, sem muitas oportunidades), depois de um playboy (Dan Stulbach, visivelmente desinteressado) e, por fim, de um rico empresário (José de Abreu, surpreendentemente convincente). A luta para reaver a guarda dos filhos e se encaixar num contexto social em constante mutação marcam sua trajetória.

Filmado inteiramente no Rio Grande do Sul, com cenas em Santa Maria e em Porto Alegre, “Dias e Noites” peca em pontos específicos, como na fluência da trama, que é truncada e por vezes pouco convincente, na edição, que opta por algumas soluções fáceis e nada originais, na direção de Beto, pouco criativa, e no desempenho da protagonista, que até então nunca havia encarado um desafio deste porte. Naura Schneider foi apresentadora de televisão e tem em seu currículo pequenas participações em novelas como “Senhora do Destino” e em seriados como “A Diarista” e “Você Decide”, todos na Rede Globo. Ou seja, nada marcante e tão profundo. Talvez, a partir desta experiência, ela possa se refinar e, em ocasiões futuras, revelar um talento até então não lapidado. Mas agora o que temos como resultado é um filme cheio de percalços, que existe exclusivamente devido ao esforço de uma artista empenhada, porém carente de uma orientação mais direcionada. Por mais incrível que isso possa parecer.

Dias e Noites, Brasil, 2008
De Beto Souza
Com Naura Schneider, Antonio Calloni, Dan Stulbach, José de Abreu, Zé Victor Castiel, Marcela Muniz

(nota 4)

Latinos somos todos

quarta-feira, agosto 13th, 2008

A noite da segunda-feira foi marcada pelo início da competição dos longas-metragens “latinos”. É engraçada esta denominação, afinal, latinos somos todos: argentinos, uruguaios, chilenos, colombianos, venezuelanos… e brasileiros, não? Deveria ser “competição nacional” e “competição internacional”, e não “brasileiros” e “latinos”, mas enfim… não sou eu o dono do festival, certo?

O primeiro filme estrangeiro exibido foi uma produção argentina: “Por sus Propios Ojos”, de Liliana Paolinelli. Estrelado por Ana Carabajal e Luisa Núñez (as duas na cena acima), este filme chega a Gramado com o prêmio de Melhor Atriz (dividido entre as duas) no Festival de Biarritz (França) na bagagem. O legal é que a diretora e Ana, acompanhadas de outra atriz do elenco, Mara Santucho, estão aqui em Gramado. Mara, aliás, já pode ser considerada uma veterana por aqui: ela levou o kikito de Melhor Atriz em 2006 por “Cuatro Mujeres Descalzas”. Mara e Ana interpretam estudantes decididas a fazer um documentário como tema de conclusão de curso da faculdade. A idéia, tão interessante a princípio, se revela de grandes dificuldades devido a escolha polêmica do tema: a vida das mulheres que possuem familiares presos atrás das grandes. Como a grande maioria se recusa a dar depoimentos, elas encontram uma oportunidade quando uma mãe (Núñez) se dispõe a falar sobre as mudanças em sua vida após a prisão do filho mais novo. Combinando ficção com documentário, o filme resulta em algo irregular, indeciso entre os bons desempenhos do elenco e a fraca participação documental, como se por si só o enredo conseguisse atrair a atenção da audiência, sem um entorno dramático melhor estruturado.

Conclusão bastante similar à sentida no final da projeção do segundo longa brasileiro em competição: “Vingança”, de Paulo Pons. Primeira produção do movimento Pax de Cinema Brasileiro, que propõe a realização de vários filmes simultaneamente e todos de baixo orçamento, “Vingança” esconde bem suas carências, numa aparência bem atraente e cercado de méritos bastante interessantes. O elenco, encabeçado pelos competentes Erom Cordeiro (“Sexo com Amor?”) e Branca Messina (“Não Por Acaso”), traz ainda participações de nomes como Guta Stresser (“A Grande Família”), Márcio Kieling (“2 Filhos de Francisco”), José de Abreu (que estava também em “Dias e Noites”) e Bárbara Borges. Cordeiro está muito bem, como um jovem gaúcho atormentado que vai até o Rio de Janeiro em busca, claro, de vingança. Ele quer acabar com a vida do rapaz que teria estuprado a noiva dele. Só que ao se aproximar do cara, acaba se envolvendo com a irmã dele, provocando uma confusão de interesses. O começo é promissor, a boa trilha sonora de Dado Villa-Lobos já é favorita ao kikito, o fato de ter sido feito em vídeo digital não provoca grandes (d)efeitos estéticos e o diretor aparenta ter uma mão segura do seu discurso. O grande problema é mesmo o roteiro, que precisaria ter sido mais afinado, principalmente no centro da ação, onde termina se perdendo em discussões dispensáveis, e no final, numa solução rápida e pouco convincente. Mas como é trabalho de estreante, ainda cheio de boas intenções, não chega a ser uma decepção tão marcante. Talvez no futuro possamos opinar melhor sobre o talento, ou falta de, dos realizadores.

A segunda noite do 36º Festival de Cinema de Gramado foi marcado pela fraca presença do público – metade do Palácio dos Festivais ficou praticamente vazia – e pela aparição de várias “celebridades”. Além dos argentinos já citados, praticamente toda a equipe de “Vingança” se fez presente, isso sem comentar outros nomes, como Daniela Escobar, Antônio e Rocco Pitanga, Samara Felippo, Silvia Bandeira, Werner Schunemann, Nelson Xavier, Eduardo Galvão e outros. Renata Boldrini, ex-apresentadora do Canal Telecine, ganhou a companhia do ator Paulo Betti na apresentação oficial do Festival, formando uma dupla completamente desequilibrada. Enquanto ela esbanjava classe e simpatia, ele parecia estar narrando uma partida de futebol, de tanta empolgação que demonstrava na nova função. Menos, Paulo, menos. E esse sinal de contenção pode servir também para nós, espectadores. Afinal, a semana está só começando, e há muito ainda pela frente!

Uma abertura feminina

terça-feira, agosto 12th, 2008

A primeira noite do 36º Festival de Cinema de Gramado foi quase que inteiramente dominada pela presença feminina. Madonna, Naura Schneider, Leandra Leal e Clarah Averbuck (as duas últimas ao lado) marcaram presença das mais variadas formas, mostrando que a força da mulher está cada vez maior. E um dos maiores encontros do cinema nacional deixou isso bem registrado logo de início.

Começou com a abertura oficial, com concerto oferecido pela Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a OSPA. Ao invés de tocar temas cinematográficos, como em anos anteriores, quando as canções de “Casablanca”, “Titanic”, “Bonequinha de Luxo” e tantos outros eram apresentadas em formato instrumental, desta vez a homenageada foi a cantora norte-americana Madonna, que no próximo dia 16 completa 50 anos. Então músicas pop como “Like a Virgin”, “Vogue” e “Holiday” foram entoadas com muito vigor, promovendo um belo encontro entre o clássico e o contemporâneo. O público respondeu com entusiasmo.

Duas horas depois, às 19h, o início de fato, já dentro do Palácio dos Festivais. E antes dos filmes, o único momento masculino da noite: a entrega da Homenagem Especial Cidade de Gramado para o eterno trapalhão Renato Aragão (ao lado, com o presidente do Festival de Gramado, Alemir Colleto). Didi subiu ao palco, chorou, ganhou um kikito, uma placa dourada e até um laptop Sony Vaio, num dos atos mais descarados de merchandising já ocorridos em pleno palco de Gramado. Ele ficou visivelmente sem jeito, até porque não tinha mãos para carregar tudo aquilo, e porque obviamente ninguém o avisou que, para ganhar seu kikito, teria que posar como garoto propaganda da Sony. Mas enfim, coisas de festival.

O filme escolhido para abrir o 36º Festival de Cinema de Gramado foi a produção gaúcha “Dias e Noites”, de Beto Souza e baseado no romance “Clô Dias e Noites”, de Sergio Jockymann. Exibido como convidado e fora da competição, o longa é resultado do esforço da atriz Naura Schneider, também produtora. A história atravessa várias décadas para mostrar o destino de Clô (a própria Naura, obviamente), uma garota que decide se casar, no final dos anos 40, para assim poder sair de casa e do controle rígido do pai, para cair num relacionamento ainda mais frustrante. Vítima de violência doméstica, acaba sendo expulsa de casa sem direito à guarda dos dois filhos. Para sobreviver, termina se transformando em prostituta de luxo, trocando de homens da mesma forma de ascendia sua posição social. A obra tem vários problemas, mas possui também alguns méritos, como a atuação do sempre competente Antônio Calloni, como o primeiro marido de Clô, e a encantadora fotografia de Renato Falcão.

Outra trajetória feminina, e mais uma vez inspirada no talento de uma gaúcha, foi responsável pelo segundo filme, o primeiro da mostra competitiva. “Nome Próprio” levou o cineasta Murilo Salles pela quarta vez à Gramado, após “Nunca Fomos Tão Felizes” (1984), “Faca de Dois Gumes” (1988) e “Como Nascem os Anjos” (1996). Se considerarmos que este é somente seu quinto filme, e que os três anteriores saíram da serra gaúcha todos carregando vários kikitos (“Como Nascem os Anjos” foi eleito o Melhor Filme daquele ano), percebe-se que a expectativa em relação ao seu novo trabalho era alta. E ela não foi decepcionada. Inspirado nos dois primeiros livros escritos pela autora gaúcha Clarah Averbuck, “Nome Próprio” tem como protagonista Camila (alter-ego da autora), uma jovem em crise emocional, que não consegue refrear seus instintos ao mesmo tempo em que busca inspiração para o início de sua produção literária despejando suas emoções em blogs pela internet. A interpretação de Leandra Leal no papel principal é fenomenal, e já se pode apontar o primeiro kikito garantido deste ano.

O domingo terminou com poucos nomes de destaque na cidade. Calloni, Leandra, Naura, Murilo Salles, Beto Souza, Renato Aragão e Zé Victor Castiel eram os mais procurados pelos poucos tietes de plantão e pelos fotógrafos e jornalistas. Tudo indicado que a partir de segunda isso mude, com mais festas, mais filmes e mais “estrelas” despontando por aqui a todo instante. E pode-se afirmar que os filmes também irão melhorar, com o início da mostra competitiva dos longas latinos e dos curtas-metragens. A semana está só começando, então nada de julgamentos adiantados. O melhor é manter o espírito em alta e aguardar o que ainda vem por aí.

Começa a festa do cinema brasileiro na Serra Gaúcha

domingo, agosto 10th, 2008

E lá se vão onze anos. Quando lembro que a primeira vez em que estive num Festival de Cinema de Gramado foi em 1997, chego a me surpreender. Naquele ano vim com amigos para passar apenas uma noite. Presenciamos Betty Faria chegar num carro conversível, de pé dentro do veículo e aplaudindo para o público ensandecido ao redor. Foi a exibição de “For All – O Trampolim para a Vitória”, de Luiz Carlos “Bigode” Lacerda, longa que acabou levando o kikito de Melhor Filme naquele ano. Já cheguei com sorte!

Nos anos seguintes, de 1998 a 2000, continuava marcando presença ao lado dos amigos, porém a cada edição o período de permanência na cidade era maior. Isso até 2001, quando fiquei pela primeira vez durante todo um festival! Foi também meu primeiro festival enquanto imprensa, cobrindo para o site Argumento.net. Foi quando comecei a descobrir os bastidores, acompanhar a discussão da crítica e enxergar as ‘estrelas’ mais de perto. Em 2002, a mesma coisa. Mas tudo mudou no ano seguinte, quando a responsabilidade aumentou: agora eu era diretor do Programa de Cinema, exibido pela TVCOM. E na mesma proporção a quantidade de trabalho cresceu assustadoramente!

Foram cinco anos de trabalho intenso com a cobertura do Festival de Cinema de Gramado para a televisão. E agora, em 2008, tudo mudou mais uma vez. Não estou mais na TV, e meu foco agora é contar tudo o que irei presenciando durante a semana para vocês, leitores do CineRonda, mas também para estar atento a um olhar mais crítico e distanciado, buscando interpretações econômicas, comerciais e sociais deste grande evento.

Cheguei a Gramado na sexta-feira, para a sexta edição do Cine Gourmet deste ano. O filme-tema deste mês foi o oscarizado “Memórias de uma Gueixa”, de Rob Marshall, que foi interpretado gastronomicamente pela chef Conceição Neroni, do Restaurante Margutta, do Rio de Janeiro. Ou seja, o meu festival de cinema começou dois dias antes! Depois do sucesso de mais esta edição do Cine Gourmet, que novamente teve lotação esgotada, hoje, domingo, meu foco está sendo redirecionado para o Festival em si. No restaurante onde almocei me deparei com Antônio Calloni, vencedor do kikito de Melhor Ator em 2006 e protagonista de “Dias e Noites”, filme de Beto Souza que irá abrir o festival hoje, como convidado e fora de competição. Logo depois cruzei com o querido Renato Aragão, o eterno trapalhão Didi, que será o homenageado especial da noite de hoje, com o prêmio Cidade de Gramado.

Muitas emoções, e isso que a abertura oficial do evento é somente às 17h. Ainda hoje teremos a exibição do primeiro filme em competição, “Nome Próprio”, de Murilo Salles (premiado em Gramado em 1984, com “Nunca Fomos tão Felizes”, em 1988, com “Faca de Dois Gumes”, e em 1996, com “Como Nascem os Anjos”). Um veterano mostrando que sempre é possível se reinventar. E durante a semana teremos longas gaúchos, cariocas e paulistas, mexicanos, portugueses, colombianos, argentinos e até de Cabo Verde! Homenagens para Walmor Chagas (Troféu Oscarito) e Julio Bressane (Troféu Eduardo Abelin), além de curtas, médias, filmes digitais e muito mais. Uma semana intensa de muito cinema e, acima de tudo, muita paixão.

 

“O Banheiro do Papa”

quarta-feira, julho 16th, 2008

Com quase um ano de atraso, chegou finalmente às telas gaúchas uma das produções latinas mais elogiadas da última temporada. E. curiosamente, “O Banheiro do Papa” teve parte de suas filmagens realizadas aqui mesmo no Rio Grande do Sul! E que orgulho ver um filme feito aqui perto ser tão bom. A estréia na direção do diretor de fotografia indicado ao Oscar César Charlone (“Cidade de Deus”), aqui em parceria com Enrique Fernández (ambos autores também do roteiro), é extremamente auspiciosa justamente por abdicar da ambição, buscando num olhar mais singelo e simples mostrar como um fato praticamente perdido no meio do nada pode falar tão alto quando atinge e repercussão exata. E, neste caso, o título escolhido não poderia ser mais propício. Não estamos falando de um banheiro qualquer, e sim de um motivado pela visita da maior autoridade cristã do planeta. Assim como o próprio longa, que parece não ter muita referência com a nossa realidade, mas, pelo contrário, atinge o feito de falar diretamente com nossas mentes e, principalmente, corações.

O premiado ator uruguaio César Trancoso intepreta Beto, um biscateiro que vive dos contrabandos que traz do Brasil para a pequena cidade de Melo, quase na fronteira do Uruguai. Com os trocados que vai juntando mal consegue ajudar em casa, cuja economia ganha ainda um reforço nas costuras da mulher (Virginia Mendez) e nos pequenos trabalhos realizados pela filha. Mas, obviamente, ele quer mudar de vida, e assim como os demais vizinhos vê na provável visita do Papa João Paulo II, em 1988, a sua cidade, uma oportunidade única. A televisão anuncia que milhares de visitantes invadirão a cidade neste determinado dia, e esta seria uma grande chance para todos rechearem os bolsos. Só que enquanto a maioria está pensando em montar barracas com comidas, Beto olha para o outro lado e decide construir um banheiro, para que possa cobrar entrada dos futuros ocupantes!

Com esta pequena parábola social, Charlone e Fernández conseguem realizar um impressionante retrato da dura condição que milhares de uruguaios enfrentam diariamente. Trata-se de um país muito pequeno, escasso de recursos naturais e com poucas empresas. Resultado? É uma nação empobrecida. E, assim, busca em qualquer eventual suspiro o milagre que tanto almejam. E o que melhor neste sentido do que a própria visita do Papa?

Elaborado de forma quase documental, “O Banheiro do Papa” é uma obra repleta de méritos, apesar de não ser totalmente desprovida de escorregões. E estes estão principalmente no ritmo e no desenrolar de sua trama, por vezes indecisa entre a crítica política e a análise de costumes. Da mesma forma, alguns personagens são poucos consistentes, como o melhor amigo do protagonista e o policial de fronteira corrupto. Alguns eventos parecem isolados demais, como se ali estivessem apenas para atrapalhar o destino do nosso herói atrapalhado. Mas são pormenores diante um cenário muito mais rico e curioso. A capacidade de comunicação que o filme possui é impressionante, e de imediato passamos a nos identificar com as agruras, os azares e os erros que conduzem esta série de acontecimentos que, mesmo não tendo como darem certo, mexem com nossos nervos de modo bastante singular. Estamos conscientes desde o início de como será o final, mas somos envolvidos de tal forma que será impossível não torcer, também, por uma intervenção divina.

Grande vencedor da disputa latina do Festival de Gramado de 2007, “O Banheiro do Papa” recebeu 5 kikitos, entre eles os de Melhor Filme segundo o Júri Popular, Ator e Atriz. Foi premiado também nos festivais espanhóis de Huelva, Lleida e San Sebástian, além da Mostra Internacional de São Paulo. E foi escolhido como representante oficial do Uruguai na disputa pela indicação ao Oscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Não conseguiu, assim como o brasileiro “O Ano em que meus Pais saíram de Férias”, mas da mesma forma que este, comove sem ser melodramático, emociona sem abusar dos clichês e consegue, a partir do drama de um indivíduo, discutir toda uma questão social. E acreditem: isso não é pouca coisa!

El Baño del Papa, Uruguai/Brasil/França, 2007
De César Charlone e Enrique Fernández
Com César Trancoso, Virginia Méndez, Mario Silva, Virginia Ruiz, Nelson Lence

(nota 8)

About Me

Here I'll share my knowledge, discovery and experience related to my hobby and work. Most articles on this site are related to blog design, short reviews, tips and make money online. More

Want to subscribe?

 Subscribe in a reader Or, subscribe via email:
Enter your email address:  
Find entries :