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“De Repente, Califórnia”

terça-feira, junho 23rd, 2009

Comédia romântica é tudo igual. É só prestar atenção no esquema básico: os dois atores que aparecem no cartaz se encontram no começo do filme, decidem ficar juntos, mas logo um obstáculo surge separando-os, para em seguida ser superado e dar lugar ao aguardado final feliz. Mas de vez em quando essa equação é alterada em algum ou outro fator. E em “De Repente, Califórnia”, a diferença é anunciada de imediato: o casal protagonista é formado por dois homens (mais…)

“As Testemunhas”

quinta-feira, maio 28th, 2009

testemunhas071O drama do surgimento da AIDS, já visto sob tantas e diferentes óticas pela sétima arte, ganha agora uma nova visão em “As Testemunhas”, do francês André Techiné. E o resultado é um trabalho tão comovente quanto objetivo (mais…)

“Baby Love”

sexta-feira, janeiro 2nd, 2009

O mais curioso do comovente“Baby Love” é tentar entender o porquê deste título nacional! Afinal, trata-se de uma produção francesa, cuja denominação original é “Commes Les Autres”, ou seja, “Como os Outros”! E é justamente sobre isso que aborda o filme, de uma situação que poderia acontecer com qualquer um, mas que ganha um olhar todo diferenciado por estarmos tratando de personagens homossexuais. E o tema em questão não poderia ser mais universal: a vontade de formar família através da procriação. A diferença, claro, está na forma não convencional como a equação matemática ‘homem + mulher = bebê’ irá ser processada. Claro que um nome em inglês contribui nesta ‘universalidade’, mas será que se fosse em português a comunicação aqui no Brasil não seria mais eficiente?

Veterano da televisão francesa, o diretor e roteirista Vincent Garenq inspirou-se num fato verídico, acontecido com um amigo dele, para estrear no cinema com “Baby Love”. E a estrutura do filme, bastante tradicional, denuncia esta falta de prática com o meio. Nada, no entanto, que chegue a prejudicar o resultado final. Apenas fica uma sensação de que o importante aqui era somente contar uma história, porém sem grandes lances de originalidade ou invenção. Garenq sabe o que quer dizer, mas sem ter muita certeza de como. E se o longa já tem um público certo – homossexuais não conseguirão resistir, assim como qualquer espectador mais sensível – ele peca em não conseguir ampliar seu alcance de interesse, o que poderia ser perfeitamente alcançável. Estamos falando de um desejo humano, o da geração de descendentes, e esta vontade é completamente universal.

Manu e Philippe formam um casal há anos, exemplo para a família e amigos. Eles são muito parecidos – ambos são profissionais liberais (um é médico, o outro advogado), estão em torno dos 40 anos, apreciam artes, são apegados aos parentes e levam vidas tranqüilas – não fosse por um pequeno detalhe: Manu quer ter um filho, enquanto que Philippe é contrário à ideia. Como o primeiro está decidido e pretende levar adiante o plano de adotar uma criança, os dois acabam se separando. Mesmo sozinho, Manu segue firme em seu propósito, que sofre logo em seguida outro baque: ele tem seu pedido recusado ao revelar que é gay. Desanimado, encontra uma nova chance ao conhecer uma jovem argentina, Fina, que aceita a proposta de ser ‘barriga de aluguel’ para ele. Mas nada será tão simples: enquanto ele passa a sentir cada vez mais a falta do antigo amante, ela não conseguirá evitar a atração que começa a sentir pelo novo amigo.

Um dos principais méritos de “Baby Love” é o seu trio de protagonistas, todos muito seguros em seus papéis. Lambert Wilson, nome importante do cinema francês e com desempenhos de destaque em filmes como “Medos Privados em Lugares Públicos” (2006), além de ser presença constante no cinema americano, como visto em “Matrix Reloaded” (2003), “Mulher-Gato” (2004), “Sahara” (2005), “Um Plano Perfeito” (2007) e “Missão Babilônia” (2008), dá vida a um Manu delicado, porém másculo, escapando dos trejeitos mais óbvios. Outro que foge fácil do clichê é Pascal Elbé, como Philippe. Os dois formam um casal plenamente convincente, distante do riso fácil e da piada constrangedora. São dois homens, que amam um ao outro, e que estão enfrentando um momento bastante decisivo no relacionamento que construíram. A espanhola Pilar López de Ayala (“Alatriste”, 2006) completa o trio, como uma Fina repleta de nuances, capaz de alternar momentos de grande entrega com outros de surpresa, ilusão e até comovente tristeza.

“Baby Love” não é o melhor filme gay já feito, principalmente porque seu enredo é sábio o suficiente para ir além do gueto. É uma produção familiar, que fala de assuntos comuns a todos e perfeitamente identificável. Em tempos em que muito se fala sobre casamento gay, é importante lembrar da necessidade de conquista de outros direitos, como o da formação de família. E num mundo tão carente de auxílio e carinho, é quase incompreensível como leis e diretrizes ultrapassadas ainda possam impedir que o afeto e o amor chegue a quem mais necessita. Respeito é fundamental, e ele vai muito além de questões como sexo, religiosidade ou classe social. E neste ponto este belo filme deixa bem clara a sua mensagem.

Commes Les Autres, França, 2008
De Vincent Garenq
Com Lambert Wilson, Pascal Elbé, Pilar López de Ayala

(nota 8)

 

Qual a melhor cena de sexo da história do cinema?

quinta-feira, maio 29th, 2008

O sexo, entendido como cópula, penetração, orgasmo, gozo e prazer entre pessoas adultas sempre rendeu bons enredos em todas as artes. As narrativas da literatura já descreviam com detalhes estes atos, variando desde as minúcias insinuantes que deixam ao leitor o acréscimo por conta da imaginação criativa até o “pornotexto” praticamente um apoio em linhas para uma masturbação bem sucedida. Com o advento do cinema aos poucos a telona foi produzindo boas cenas de amor e lascívia em variadas escalas. O primeiro beijo no cinema, um simples encostar de lábios entre May Irvin e John C. Rice, em 1895, rendeu escândalo. Após poucos o público foi se habituando a ver no escurinho público o que fazia no escurinho privado e o assunto foi explorado de diversos ângulos.

Mas qual a melhor cena de sexo da história do cinema?

Mae West e Marilyn Monroe se destacavam mais por provocar do que propriamente por fazer. A primeira em “Night After Night” (1932), se destacava pelo “toque sexy” que dava aos filmes. O mito de Mae West, languidamente estendida em um sofá, ou envolvida por uma pele branca de raposa com um pródigo decote e uma das mãos apoiada na cadeira, foi o marco de uma época. Já Marilyn Monroe insinuante nas telas, voltou a ter seu nome ligado ao sexo neste ano, quando uma cópia de um vídeo, dos anos 50, em que a atriz loira aparece fazendo sexo oral em um homem não-identificado, foi vendido para um empresário nova-iorquino pela quantia de US$ 1,5 milhão.

O sexo anal ganhou status de arte na clássica cena da manteiga entre Marlon Brando e Maria Schneider em “O Último Tango em Paris” (1972) A rapidinha teve momentos de glória em vários filmes, e minha preferida é entre Glenn Close e Michael Douglas, quando na cozinha de casa deram uma “coelhinho” em “Atração Fatal” (1987), o mesmo filme que cozinha o coelho, animal de estimação da filha do personagem de Douglas, em água fervente. Em “O Último Rei da Escócia” (2006), a miscigenação ganha espaço, com símbolo de encontro de mundos diferentes unidos pelos gemidos “transidiomáticos”. Ainda falando em gêneros alimentícios há a antológica cena do ovo no oriental “Império dos Sentidos” (1976), sendo este também um emblemático signo de amor e morte.

O órgão sexual masculino é em geral dissimulado, escondido ou aparece em cenas rápidas. O pênis aparece como personagem valorizado em “Boogie Nights” (1997), se tornando a grande atração nas cenas finais. E no francês “Romance X”(1999) – nunca se viu nada tão grande. Já o sexo oral, no entanto, teve vários momentos de glória. Destaque para David Bennent, que – então com onze anos – faz Oskar, o personagem principal do alemão “O Tambor” (1979) e protagoniza uma cena de pseudo-sexo oral numa mulher e, depois de ter o rosto encoberto pelo corpo da companheira, retorna para o foco da câmera limpando a face dos pubianos entre os dentes.

O sexo solitário também protagonizou boas cenas ao cinema. Destaco as masturbações juvenis na cena da piscina do mexicano “E sua mãe também” (2001), além do impactante “Pecados Inocentes” ( 2008), que ousa numa cena de onanismo entre mãe e filho. Estes são dois exemplos extremos. O sexo pode se tornar instrumento de vingança, como em “Lua de Fel” (1992), onde a amante ofendida transa em frente ao seu opressor, já frágil numa cadeira de rodas, com um deus de ébano. Ganha status de necessidade de saúde em “Adrenalina” (2006), onde Chev Chelios (Jason Stathan) é um assassino profissional que foi envenenado. Ele não pode deixar a taxa de adrenalina em seu organismo baixar, caso contrário morrerá. Ele entra, então, numa verdadeira corrida contra o tempo para se vingar e, quem sabe, achar a cura para seu problema. Em uma das cenas picantes o protagonista transa com a namorada em um local movimentadíssimo e todos olhando. Ela resiste no começo, mas depois acaba cedendo – e cede muito gostoso.

No cinema nacional são fartas cenas de gemidos e gritos usados às vezes para atrair o público, mais prometendo do que mostrando. No meio de uma história bege sempre aparecia uma prostituta na calçada, uma atendente de lanchonete na madrugada, uma mulher que antes de ir ao banheiro de um bar olha para trás. Clássica mesmo é a cena de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976) em que Sonia Braga (Dona Flor) transa comportada e formalmente com o segundo marido Teodoro (Mauro Mendonça) enquanto o fantasma do primeiro marido, Vadinho (um dos melhores papéis de Jose Wilker), assiste a cena aos risos.

E sexo gay, qual a melhor cena?

Lembro que assisti em Porto Alegre, ainda nos anos 90, o filme oriental “Banquete de Casamento” (1993). Numa cena muito bonita Wai-Tung presenteava seu namorado Simon com um telefone celular (símbolo de consumo na época). Ato contínuo ligava para o mesmo e dizia que o amava, e a cena acaba com um quente beijo entre os dois. O público se inquietava nas poltronas: uns balançavam a cabeça, outros manifestavam sua indignação soltando sons censores. Minha Porto Alegre provinciana mostrava suas origens, mas no decorrer dos anos foi se tornando mais aberta à diversidade, até mesmo porque não havia outro caminho a seguir.

De novo “E sua mãe também” têm na parte final uma cena de beijos e insinuações muito excitante, entre os dois adolescentes, mas sem mostrar a consumação. Almodóvar trouxe variações diversas do sexo entre iguais, Antonio Bandeiras na posição “franguinho assado” em “A Lei do Desejo” (1987) e Gael Garcia Bernal em “Má Educação” (2004) são clássicos. Mas o sexo entre homens mais presente no imaginário dos cinéfilos, até pelo recente de sua produção, é do oscarizado “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), onde, em terras geladas, dois vaqueiros másculos (Heath Ledger e Jake Gyllenhaal) dividem a barraca para escapar do frio e acabam atraídos por um outro calor. A “cuspidinha” de Ennis del Mar entrou para o panteão das cenas de sexo de sétima arte – ainda mais que é fator desencadeador de uma linda história de amor. Premiado com as maiores glórias do cinema mundial, o filme levantou a ira de fudamentalistas, mas levou muito da sociedade, principalmente a americana conservadora, a repensar estereótipos e modelos pré-concebidos.

E para você, qual a melhor cena de sexo da história do cinema?

C.R.A.Z.Y. – Loucos de Amor

quinta-feira, fevereiro 7th, 2008

Como simplesmente não amar C.R.A.Z.Y.? Este, além de ser uma das produções mais premiadas da história do cinema canadense, é também uma emocionante mensagem de amor incondicional entre pais e filhos, irmãos e, acima de tudo, seres humanos. O amor em família, a descoberta de nossas identidades e a luta contra o preconceito, seja ele sexual, social ou religioso. Um libelo contra a intolerância e a ignorância, levada às telas numa obra comovente e muito bem realizada. Sem sombra de dúvidas, um dos melhores filmes dos últimos tempos (a se lamentar, apenas, a demora do filme em ser lançado no Brasil, em 2007, apesar de ter sido produzido dois anos antes!).
O diretor e roteirista Jean-Marc Vallée fez do propósito de levar C.R.A.Z.Y. às telas um objetivo pessoal, que lhe custou cerca de dez anos de investimentos, pesquisas, releituras do roteiro, filmagens e produção. E o resultado não poderia ser melhor, justificando todo o esforço envolvido. A trama nos apresenta uma família com cinco filhos homens, cada um batizado com um nome cuja inicial nos leva ao título do filme e também de uma das mais famosas canções de Patsy Cline, cantora endeusada pelo pai dos rapazes. Christian, Raymond, Antoine e Yvan são, na verdade, coadjuvantes, enquanto que acompanhamos esta vida atráves dos olhos e sentimentos de Zac, o quarto filho. Enquanto os demais se encaixam mais facilmente em estereótipos – o vagabundo, o esportivo, o nerd e o preguiçoso – Zac é o rebelde, o inovador, o contestador, o inquieto, o que entrará em conflito com o resto da família, e para evitar a separação irá sufocar seus próprios questionamentos de sexualidade, religiosidade e humanidade, até não mais suportar.

O mundo que enxergamos através de Zac é repleto de contradições, e justamente por isso é tão verdadeiro. Em plenos anos 70, em meio à liberação dos costumes e de repressões ideológicas, ele luta bravamente para tentar se encaixar num modelo pré-estabelecido, e assim garantir seu lugar naquele universo familiar. Isso, claro, até perceber que no final o sangue sempre acaba falando mais alto. E esta é a idéia que C.R.A.Z.Y. tenta levar ao seu espectador: quando o amor é verdadeiro e real, deve ser maior do que tudo, não importando quão limitadas sejam nossas referências e suposições.

Vencedor de mais de 35 prêmios internacionais, C.R.A.Z.Y. foi o representante oficial para concorrer ao Oscar de Filme Estrangeiro (é todo falado em francês) em 2005. Acabou não conseguindo a vaga, o que não faz a menor diferença. Tocante e mágico, místico e sensível, sexy e engraçado, singelo e abrangente, este é um filme que ultrapassa questões como homossexualidade, tradição, fraternidade e discriminação. É, sim, um longa que fala do sentimento mais nobre de todos, o puro amor, e somente por isso merece ser conhecido por todos. Por mais loucos que sejamos. Afinal, como já diz o ditado, ninguém de perto é muito normal!

C.R.A.Z.Y., Canadá, 2005
(nota 9)

 

 

Morte no Funeral

segunda-feira, janeiro 7th, 2008

Frank Oz já tem garantido seu espaço na memória de todo bom cinéfilo pelo seu desempenho como um dos personagens mais marcantes do cinema hollywoodiano: é dele a voz de Yoda, o sábio mestre jedi de frases invertidas da saga STAR WARS. Mas além de dublador (nos seus créditos aparecem participações em filmes como ZATHURA e MONSTROS S.A. e em séries como VILA SÉSAMO e OS MUPPETS), Oz é um cineasta de extenso currículo, responsável por sucessos como NOSSO QUERIDO BOB e OS PICARETAS e fracassos como A CARTADA FINAL e MULHERES PERFEITAS. E depois desse último desastre, que quase acabou com a carreira de Nicole Kidman, decidiu se refugiar na Inglaterra para dirigir MORTE NO FUNERAL, uma legítima comédia britânica de baixo orçamento, sem grandes astros, porém com um humor muito mais corrosivo e sarcástico, mas, ainda, contando com um previsível final feliz, mesmo que às avessas. E ele até que se sai bem!

Após a morte do pai, Daniel (Matthew MacFadyen, de ORGULHO & PRECONCEITO) tem como principal preocupação realizar um serviço fúnebre à altura. Mas ele não tem somente isso em mente: há o que fazer com a mãe, os anseios da esposa que quer se mudar e o irmão (Rupert Graves, de V DE VINGANÇA), famoso romancista, que está vindo dos Estados Unidos para a ocasião. E, claro, em receber bem todos os parentes que também devem marcar presença para um último adeus.

Entre estes está a prima decidida em se casar com o namorado, mesmo contra a vontade do pai. E, para acabar com o nervosismo do rapaz, que irá enfrentar o futuro sogro, ela lhe dá uns tranquilizantes pegos ao acaso na casa do irmão, que estuda farmácia. O que ela não sabe é que aqueles comprimidos não são calmantes, e sim ecstasy. Com isso dá pra se ter uma idéia do que o coitado irá aprontar durante a cerimônia, de alucinações sobre sons vindos de dentro do caixão até terminar completamente nu desfilando pelo telhado da casa!

Mas a maior confusão estará representada por um ilustre desconhecido – um anão (Peter Dinklage, de O AGENTE DA ESTAÇÃO). E ele está ali por um motivo que provocará choque e surpresa: ele era amante do falecido! Portado de fotos que comprovam a relação homossexual paterna que ninguém desconfiava, ele exige fazer parte daquela união familiar – caso contrário seu silêncio até poderia ser providenciado, mas a um alto preço!

Confusões, desentendimentos, trapalhadas, enganos e outros previsíveis clichês do gênero “reencontro de família” estão presentes. O que fará o diferencial é a forma impiedosa como eles se apresentam: praticamente ninguém chegará ao fim desta reunião ileso, sem que sua honra – ou mesmo crença – seja abalada. Com um elenco bastante coeso e com um bom timing para este tipo de comédia, um roteiro bem estruturado e sem vergonha de usar suas próprias obviedades a seu favor, Frank Oz consegue voltar a um gênero que domina com precisão (é dele também o ótimo – e superior – SERÁ QUE ELE É?), confrontando preconceitos e verdades absolutas com graça e ironia. E o resultado, apesar de pouco memorável, acaba sendo melhor do que se poderia esperar.

Death at a Funeral, EUA/Reino Unido/Alemanha/Holanda, 2007
(nota 6,5)

Eu os declaro Marido e… Larry!

sexta-feira, setembro 21st, 2007

EU OS DECLARO MARIDO E… LARRY! tinha tudo para ser o filme mais homofóbico e preconceituoso do ano. Afinal, a trama não é das mais “iluminadas”. Senão, veja bem: dois bombeiros – uma das profissões que mais “povoam” o imaginário gay – decidem se casar, apesar de serem heterossexuais, apenas para que um deles consiga benefícios do governo. Como são vítimas de suspeita, precisam fingir que são homossexuais apaixonados, abusando de todos os clichês e estereótipos do gênero. Sim, está tudo lá, por mais previsível e bizarro que possa parecer. Mas, mesmo assim, o resultado não é dos piores, e no final o que acaba prevalecendo é a mensagem de tolerância e respeito, uma discussão sempre saudável de ser levantada.

O maior medo nem era o tema em si, mas nas mãos de quem ele estava depositado. Afinal Adam Sandler – assim como Jim Carrey ou Will Farrell, por exemplo – pode até ser um bom ator em projetos “sérios” (como no surpreendente EMBRIAGADO DE AMOR), mas o humor que emprega nas comédias é, via de regra, escrachado, pastelão e ofensivo. Este mesmo tom também se faz presente aqui, mas de modo muito mais leve, e ainda assim dentro de um propósito, visando a transformação dos protagonistas.

Sandler faz o machão conquistador que teve sua vida salva em trabalho pelo colega e por isso acaba aceitando o pedido maluco. Kevin James (HITCH – CONSELHEIRO AMOROSO) é viúvo e com duas crianças para criar. Como não está conseguindo incluir os filhos no plano de saúde, descobre que a maneira mais fácil para que isso aconteça é se casando novamente – e daí a idéia de chamar o amigo. Já a estonteante Jessica Biel (O ILUSIONISTA) é a advogada chamada para ajudá-los na defesa, ao mesmo tempo que, mesmo sem saber, estará atrapalhando os planos dos dois, já que vira objeto de desejo do mais assanhado. Aos poucos o falso casal gay vai se envolvendo no mundo gls, e neste processo se vê – e juntamente o espectador – superando as falsas idéias pré-concebidas, descobrindo uma nova realidade e adquirindo uma sensibilidade até então insuspeita.

Se Dennis Dugan provavelmente nunca será um diretor de renome (é responsável por filmes como O PAIZÃO e OS ESQUENTA-BANCOS) e os dois protagonistas não inspiram muito respeito, há três outros nomes que nos fazem repensar qualquer opinião apressada sobre EU OS DECLARO MARIDO E… LARRY!. Primeiro é o do roteirista Alexander Payne, vencedor do Oscar por SIDEWAYS – ENTRE UMAS E OUTRAS e diretor de obras elogiadas como AS CONFISSÕES DE SCHMIDT e ELEIÇÃO. Ele é o principal crédito por trás do enredo do filme, tendo escrito a maioria dos diálogos e o argumento inicial. Isso indica a natureza da trama, que mesmo coberta por piadas rápidas e visuais, é dotada de uma profundidade razoável. E por fim tem-se a dupla Richard Chamberlain (ator de PÁSSAROS FERIDOS) e Lance Bass (cantor do grupo N’Sync), duas celebridades que há pouco se assumiram como homossexuais e atualmente são ativistas gls. Suas participações são pequenas, mas elas certamente não teriam se envolvido neste projeto caso considerassem ofensivo e contrário a uma causa que tanto defendem.

E, acima de tudo, é importante ter algo em mente: EU OS DECLARO MARIDO E… LARRY! é uma comédia feita para grandes públicos. Assim sendo, é até louvável perceber como consegue escapar da superficialidade que impera neste gênero, mesmo que atingindo suas intenções originais. Tanto que somou mais de US$ 117 milhões somente nas bilheterias norte-americanas. E se o sucesso popular estiver acompanhado de uma lampejo de mensagem contra a discriminação e a favor das diferenças, já é ótimo. Mesmo que seja com a cara do Adam Sandler à frente do elenco!

I Now Pronounce You Chuck and Larry, EUA, 2007
(nota 6)

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