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“Anticristo”

terça-feira, janeiro 5th, 2010

O diretor dinamarquês é tão bom cineasta quanto marqueteiro. A cada novo trabalho dele é possível perceber tanto uma impressionante criatividade como uma incontrolável vontade de polemizar e chamar a atenção. Objetivos plenamente atingidos em “Anticristo”, seu filme mais recente (mais…)

“3 Macacos”

domingo, julho 26th, 2009

Premiado no Festival de Cannes de 2008 como Melhor Direção, o longa turco “3 Macacos” chegou aos cinemas brasileiros com mais de um ano de atraso. Mesmo assim a espera compensa, principalmente pelo aspecto pitoresco do longa, que parte de uma trama familiar bastante trágica para discutir assuntos universais (mais…)

“Entre os Muros da Escola”

quinta-feira, março 12th, 2009

entre-os-muros-da-escola01Filmes em ambiente escolar, com professores iluminados que mudam para sempre a vida dos seus alunos rebeldes, são mais do que um subgênero, e sim um clichê à parte! Mas é claro que volta e meia aparecem alguns que se destacam da multidão, como “Sociedade dos Poetas Mortos”, “Escola do Rock” e este “Entre os Muros da Escola”, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes (mais…)

“Gomorra”

terça-feira, janeiro 6th, 2009

Um dos filmes mais polêmicos, conturbados e elogiados da última temporada, “Gomorra” é uma bela amostra de um novo caminho para o cinema italiano contemporâneo, que deixa de lado as comédias românticas e as crônicas familiares e de costumes para centrar seu foco em problemas muito mais urgentes e necessários. E o que temos aqui não é um longa para todos os públicos, mas sim indicado somente para àqueles que não temem a verdade e suas conseqüências, por mais duras e sofridas que elas sejam. E esta posição deve se refletir nos dois lados da tela.

Baseado no livro-reportagem homônimo de Roberto Saviano, “Gomorra” tem como mote as atividades da organização criminosa que mais assassinou pessoas nos últimos trinta anos em todo o mundo, a Camorra. E a máfia vista aqui é completamente diferente daquela eternizada pela sétima arte no clássico “O Poderoso Chefão”, por exemplo. Aqui a morte é crua e sem sentimento, num lugar onde não há espaço para a honra, lealdade ou esperança. O mais interessante, no entanto, é o ponto de vista adotado no discurso: não acompanhamos os mandantes, aqueles que controlam os destinos dos demais. Não, muito pelo contrário. Ficamos, sim, ao lado da outra extremidade, dos mais fracos, dos tolos e ingênuos que são levados pelas circunstâncias a considerar inimigos mortais aqueles que nasceram na casa vizinha e que até um dia antes dividiam sonhos e refeições. Vemos os pobres, os desencaminhados, os que não tem para onde ir nem como seguir respirando. O único caminho para eles é a luta, é a violência, é o próprio fim.

“Gomorra” incomodou muita gente. Saviano, por exemplo, após a publicação do livro foi condenado à morte pelos mafiosos que denunciou, e hoje em dia vive sob proteção policial. Por outro lado, colocou em evidência uma realidade há muito relegada ao hemisfério sul, aos países de terceiro mundo, como se o progresso atingisse a todos na Europa, por exemplo, de forma uniforme e unânime. A Itália é um país de contradições, que guarda um passado incrível, ao mesmo tempo em que aparenta não ter um futuro seguro. E o diretor Matteo Garrone, que estava há quatro anos sem filmar, retorna com um vigor surpreendente, compondo um painel preciso e equilibrado do quão triste e aterrorizante é a situação enfrentada naquela região hoje em dia.

É difícil se deixar envolver por “Gomorra”. O roteiro, escrito em conjunto por seis profissionais distintos, desde Garrone e Saviano, até veteranos como Ugo Chiti (“Manual do Amor”) ou novatos como Maurizio Braucci, se utiliza de cinco personagens distintos para compor uma visão ampla do quão abrangente pode ser a influência das atividades criminosas no sul da Itália. Ou seja, é tudo muito fragmentado, disperso, sem uma linha única a ser seguida. Há o alfaiate explorado que não deve ceder aos interesses estrangeiros, os dois garotos sem perspectivas que se imaginam ‘donos do pedaço’, o menino indeciso entre o marasmo de uma vida correta e o dinamismo do perigo e da delinqüência, o negociador que ganha a vida escondendo grandes quantidades de lixo tóxico e o velho ‘don’ que precisa se acostumar às novas regras à força. São, na verdade, cinco tipos genéricos, que servem mais para dar cor a um grito que é muito mais urgente. O que está sendo dito é que o estrago é feito todos os dias, e que agora não há mais como evitar – talvez, no máximo, tentar consertá-lo.

Indicado ao Globo de Ouro e representante italiano na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “Gomorra” foi o grande vencedor European Film Awards (batendo outros favoritos, como o francês “Entre Os Muros da Escola”, Palma de Ouro no Festival de Cannes, o inglês “Simplesmente Feliz”, de Mike Leigh, o espanhol “O Orfanato” e o israelense Valsa com Bashir), tendo sido premiado como Melhor Filme, Direção, Ator (Toni Servillo), Fotografia e Roteiro. Ganhou ainda o Festival de Munique, o Grande Prêmio do Júri em Cannes e Melhor Roteiro no Festival de Chicago, além de ter sido indicado a Melhor Filme Estrangeiro também no Independent Spirit Award, ao British Independent Film Award e ao Satellite. Ou seja, reconhecimento crítico é o que não lhe falta. Felizmente, teve também um ótimo impacto junto ao público, ao menos no seu país de origem, onde arrecadou quase US$ 30 milhões. Ou seja, resta apenas que o resto do mundo acorde para esta contundente denúncia. Com certeza ela merece ser ouvida com atenção.

Gomorra, Itália, 2008
De Matteo Garrone
Com Toni Servillo, Salvatore Abruzzese, Simone Sacchettino, Vincenzo Fabricino, Carmine Paternoster, Gianfelice Imparato, Salvatore Cantalupo, Salvatore Ruocco, Vincenzo Altamura

(nota 8)

As mil e uma faces de uma diva pop

sábado, novembro 15th, 2008

Todo mundo já comentou a respeito das diversas transformações de Madonna. E onde ela mais mudou visualmente foi no cinema, o veículo que melhor registrou estes altos e baixos. É por isso, então, que organizei um Top 10 com os melhores momentos dela na tela grande durante estes vinte e cinco anos de carreira. Aproveito também para gerar um aquecimento, já que estamos nas vésperas das históricas apresentações dela, no Rio de Janeiro e em São Paulo, no final deste ano! E enquanto não a vemos ao vivo, que tal desvendar um pouco melhor esta faceta cinematográfica?

10. “Sobrou Pra Você” (The Next Best Thing, 2000)
Tinha tudo para dar certo: um diretor vencedor do Oscar (John Schlesinger, de “Perdidos na Noite”, 1969), o melhor amigo como co-protagonista (Rupert Everett, vindo do sucesso de “O Casamento do Meu Melhor Amigo”, 1997) e uma temática super atual, os novos relacionamentos que surgem das aproximações entre heteros e homossexuais. Mas o resultado foi constrangedor para todos, desde os fãs mais ardorosos até os meros curiosos. Salva-se a primeira metade do filme, com momento bem divertidos e mais leves, e as duas canções que Madonna gravou para a trilha sonora: “American Pie”, de Don McLean (ele chegou a afirmar na época que “já recebi em minha carreira muitos presentes dos deuses, mas este é o primeiro que ganho de uma deusa!”) e “Time Stood Still”.

09. “Destino Insólito” (Swept Away, 2002)
A terceira parceria entre Madonna e o seu atual ex-marido, o diretor Guy Ritchie (antes eles haviam trabalhado juntos no videoclipe da canção “What it Feels Like for a Girl” e no curta para a BMW “Star”, ambos em 2001), teve os resultados mais controversos também. Tremendo fracasso de bilheteria, custou US$ 10 milhões e não ficou em cartaz nos Estados Unidos nem um mês inteiro, com uma arrecadação de pouco mais de meio milhão de dólares. Conseqüência direta é que foi lançado no resto do mundo diretamente em DVD. Outras conquistas foram as 5 Framboesas recebidas: Pior Filme, Pior Refilmagem, Pior Diretor, Pior Atriz e Pior Dupla (Madonna e Adriano Giannini). Mas, apesar de tudo isso, gosto do longa, e acho Madonna perfeita como uma ricaça mimada que acaba numa ilha perdida ao lado de um dos ajudantes do navio. Diversão despreocupada, apesar de nos remeter mais à persona dela do que a um personagem original.

08. “Olhos de Serpente” (Snake Eyes / Dangerous Game, 1993)
Típico projeto que só virou realidade porque Madonna acreditou, em algum momento, que poderia ser um desafio estimulante e que iria ajudá-la no caminho de se tornar uma atriz mais completa. E até está bem convincente como uma atriz problemática num set de filmagens bastante conturbado. O grande problema é que praticamente ninguém viu o filme. Mas a oportunidade de ser dirigida por Abel Ferrara e contracenar com Harvey Keitel deve ter tido seu significado. E apesar do resulutado ser um tanto irregular, é, sem sombra de dúvidas, uma das atuações mais esforçadas de toda a carreira dela.

 

07. “Corpo em Evidência” (Body of Evidence, 1993)
“Corpo em Evidência” fez parte do pacote: “vou chocar o mundo”, ao lado do disco “Erotica” e do livro de fotos “Sex”. É, no entanto, a parte mais fraca do trio. A direção do alemão Uli Edel é péssima, o argumento do enredo é risível (mulher é suspeita de ter assassinado o amante mais velho ao transar com ele) e nem nomes como Willem Dafoe e Julianne Moore escapam de maiores embaraços. Mas Madonna está ótima, com diálogos antológicos (“Mas não somos animais! Sim, nós somos!”), muita nudez e provocação. Imperdível.

 

06. “Quem é esta Garota?” (Who’s that Girl?, 1987)
Outro filme essencial no histórico dela. É uma comédia bobinha, cujo maior erro é ser um remake de um filme de Katherine Hepburn (“Levada da Breca”, de 1938). Como as expectativas eram muito altas, as cobranças estavam nas mesmas alturas. Mas ela está muito à vontade em cena, e o projeto rendeu ainda uma turnê de mesmo nome e quatro canções ótimas, com destaque para a agitada “Causing a Commotion” e para a que deu título ao filme, que chegou a ser indicada ao Globo de Ouro.

 

05. “Procura-se Susan Desesperadamente” (Desperately Seeking Susan, 1985)
O primeiro grande papel de Madonna no cinema é também até hoje uma das suas aparições mais marcantes na tela grande. Antes disso, havia feito apenas uma pequena participação no romântico “Em Busca da Vitória”, como uma cantora de bar, e no independente “Um Certo Sacrifício”, feito antes da fama. Aqui, por outro lado, ela é a estrela absoluta, roubando toda a atenção da protagonista Rosanna Arquette. Claro que colaborou muito o fato da Madonna de 1985 e da Susan deste filme serem praticamente a mesma pessoa, provocando apenas a primeira das tantas confusões entre intérprete e personagem que virou rotina no currículo da estrela. E a canção-tema “Into the Groove” é um dos maiores clássicos dos anos 80!

04. “Uma Equipe Muito Especial” (A League of Their Own, 1992)
Este é simplesmente o maior sucesso comercial de toda a carreira cinematográfica de Madonna – isso se deixarmos de fora “007 – Um Novo Dia Para Morrer” (2002), em que ela fez apenas uma participação especial. Foram mais de US$ 107 milhões de dólares arrecadados somente nas bilheterias norte-americanas! Claro que ajudou o fato dela ser somente uma coadjuvante, e dos protagonistas serem Tom Hanks e Geena Davis (em alta na época, logo após “Thelma & Louise”). E a história do time feminino de baseball é comovente e divertida na medida certa, atingindo todo tipo de espectador. De quebra, mais um sucesso na trilha sonora: a balada “This Used to be my Playground”!

03. “Dick Tracy” (Dick Tracy, 1990)
Chegamos aos três melhores momentos de Madonna na tela grande. E começamos a escalada com muito brilho: “Dick Tracy” conquistou o Oscar de Melhor Canção, por “Sooner or Later”, interpretada por Madonna e escrita por Stephen Sondheim. A história de amor entre Breathless Mahoney, uma cantora de cabaré, e o herói-título, interpretado por Warren Beatty, saiu da ficção e invadiu a vida real, pontuando mais um momento de grande popularidade da estrela. Aclamada pelo público, pela crítica e apaixonada. Que mais ela poderia querer?

 

02. “Na Cama Com Madonna” (Truth or Dare: In Bed With Madonna, 1991)
Sim, ela queria mais. Ela queria o mundo! E foi isso que conquistou logo em seguida, com o controverso “Na Cama com Madonna”, longa semi-autobiográfico feito durante a turnê “Blond Ambition”, que reunia os maiores sucessos dela na época. Polêmica, muito estilo, espetáculos grandiosos, convidados especiais – quem esquece como ela tratou Kevin Costner e Pedro Almodovar? – e muita música fez desse um dos mais bem sucedidos documentários musicais de toda a história. E o memorável lançamento do filme no Festival de Cannes daquele ano já anunciava: ela não estava para brincadeira!

 

01. “Evita” (Evita, 1996)
E Madonna finalmente chegou ao seu máximo. O sonho de viver a mítica primeira-dama argentina na ópera-rock de Andrew Lloyd Webber a acompanhava há anos, e para conseguir este papel teve que superar uma concorrência fortíssima, batendo nomes como Meryl Streep e Michelle Pfeiffer. E como valeu a pena! Madonna é Evita! Sua performance – tanto interpretando quanto cantando – é intocável, e até o crítico mais ferrenho é forçado a admitir que não havia escolha mais apropriada. Com direção de Alan Parker e aparecendo ao lado do galã Antonio Banderas, ela não poderia estar mais à vontade. Mais um Oscar na estante – pela canção “You Must Love Me” – e os maiores reconhecimentos da carreira dela enquanto intérprete: os Globos de Ouro de Melhor Atriz e de Melhor Filme, ambos na categoria Musical ou Comédia! Parabéns!

Então, aposto que você nem imaginava que o impacto de Madonna na sétima arte era tão forte assim. E isso que deixamos de fora outros títulos importantes, como “Surpresa de Sanghai” (1986), em que apareceu ao lado do então marido, o Oscarizado Sean Penn, “Neblina e Sombras” (1992), com direção de Woody Allen, “Sem Fôlego” (1995), de Wayne Wang, “Grande Hotel” (1995), trabalho coletivo que a aproximou de nomes como Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, “Garota 6″ (1996), de Spike Lee, e a animação “Arthur e os Minimoys” (2006), de Luc Besson, em que dá a voz da Princesa Selenia. Grandes parcerias, desempenhos diversificados e muito empenho – assim como no mundo da música, Madonna sempre se esforçou ao máximo para obter um justo reconhecimento da tela grande. Quem sabe agora, que estreou como diretora em “Filth and Wisdom” (2008), não consiga? E se você acha que depois disso já sabe tudo sobre Madonna na tela grande, me diga: a imagem que abre este artigo é de qual filme?

Finalmente, os melhores!

sábado, agosto 16th, 2008

Foi preciso esperar até a última noite competitiva do 36º Festival de Cinema de Gramado, mas valeu à pena: na sexta-feira tivemos a oportunidade de conferir os dois melhores filmes exibidos nesta semana! E o momento mais comentado foi a exibição da produção nacional “A Festa da Menina Morta”, longa que marca a estréia de Matheus Nachtergaele como realizador. Reconhecido como um dos melhores atores da sua geração, Matheus mostra um vigor e uma personalidade bastante singular neste primeiro trabalho por trás das câmeras, trazendo à tona a pergunta: será que o seu maior talento só agora começa a ser revelado?

“A Festa da Menina Morta” definitivamente não é um filme fácil. Muitos o consideraram perturbador e intenso demais. Mas todos concordam: não é uma obra que possa passar despercebida. Apesar de ser uma produção carioca, foi todo filmado no interior do Amazonas, e conta a história de Santinho, um rapaz alçado à condição de líder espiritual de uma pequena comunidade ribeirinha após um “milagre” realizado por ele após o suicídio da própria mãe. A ação se passa no desenrolar de dois dias, a partir das vésperas do dia em que se comemora a ‘Festa da Menina Morta’, quando ele encontrou o vestido rasgado de uma menina que teria sido morta por urubus, 20 anos atrás. As relações familiares – Santinho tem uma relação incestuosa com o pai – os preparativos para a festa e como todo aquele momento está afetando os principais envolvidos compõem o centro dos acontecimentos do filme, que procura ser mais uma experiência sensorial do que uma narrativa linear.

Exibido no último Festival de Cannes sob fortes aplausos, “A Festa da Menina Morta” teve sua primeira exibição no Brasil aqui em Gramado. Isso explicava o nervosismo do diretor e da equipe presente, como o ator Paulo José e a atriz Cássia Kiss. As belas imagens, o tema provocador e o impressionante desempenho do elenco são os pontos fortes do filme. Daniel de Oliveira, como protagonista, nos oferece uma performance arrebatadora, somente comparável à visto em sua estréia na tela grande, em “Cazuza – O Tempo Não Pára”. Juliano Cazarré (visto também em “Nome Próprio”) e Cássia Kiss (numa pequena participação, como uma visão da mãe) também estão excelentes, captando a atenção do público a cada instante em cena. Se este filme não ganhar os principais kikitos, será uma das maiores injustiças da história deste festival!

Antes disso, uma decepção:o cineasta cubano Julio Garcia Espinosa, que iria receber o Kikito de Cristal, homenagem instituída no ano passado e oferecida em sua primeira edição à Eduardo Coutinho, e que visa reconhecer a carreira de grandes realizadores latino-americanos, enviou uma carta à organização do festival anunciando sua ausência. Por compromissos profissionais ele não pode vir à Gramado, mas agradeceu bastante a homenagem, numa redação singela, simples e bastante objetiva.

Mas estou quase esquecendo do início da noite, quando foi exibida a co-produção Portugal/Brasil “O Mistério da Estrada de Sintra”, de Jorge Paixão da Costa. Bonito filme português, porém de difícil compreensão para os brasileiros (não havia legendas, a não ser quando os personagens falavam em espanhol ou em inglês). Ele combina elementos das tramas de Eça de Queirós e Ramalho Ortigão. Os dois escritores, aliás, são os protagonistas desta história que, aos moldes do francês “As Aventuras de Molière” e do inglês “Shakespeare Apaixonado”, procura descobrir quais foram as inspirações destes grandes autores para algumas de suas obras mais conhecidas. Uma curiosidade é a presença de dois atores brasileiros, Fábio Galvão (presente aqui em Gramado, ao lado do protagonista, Ivo Canelas, que interpreta Eça) e Giselle Itiê, como uma cubana bastante estereotipada. O filme é um notório folhetim, um pouco extenso demais (cerca de 130 minutos) e com muitos rodeios no roteiro, mas mesmo assim é competente em sua missão de entreter e divertir, sem ignorar a inteligência do espectador. Uma boa surpresa!

“O Escafandro e a Borboleta”

quinta-feira, julho 17th, 2008

Um dos melhores filmes do ano! Vencedor de 37 prêmios internacionais e dono de outras quase 30 indicações. Finalista em quatro categorias no Oscar, além de premiado no Globo de Ouro, no Festival de Cannes, no National Board of Review, no Bafta e no César. Elogiado pela crítica nos dois lados do Atlântico. São tantos os adjetivos quando se fala de “O Escafandro e a Borboleta” que chega a ser difícil saber por onde começar. Mas a verdade é única: trata-se de uma visão muito acima da média, um olhar exaustivo e detalhado sobre o processo de criação diante das condições mais adversas, de como o espírito artístico consegue sobreviver mesmo quando tudo ao seu redor está indo contra a corrente e, principalmente, um libelo à liberdade e ao amor. Por mais incongruente que esta possa se manifestar, é sim uma lição de vida, com todas as qualidades e defeitos que consegue comportar durante uma existência.

Assim como nos seus filmes anteriores – “Basquiat”, de 1996, que levava o nome do pintor biografado, e “Antes do Anoitecer”, de 2000, sobre o escritor cubano e homossexual Reinaldo Arenas – o diretor norte-americano Julian Schnabel centra sua atenção neste novo trabalho na história de um homem, um artista acima de tudo, e em como a arte será fundamental na sua luta pela sobrevivência. Depois de passear por Nova York e por Cuba, desta vez ele vai para o interior da França acompanhar o triste e verídico destino de Jean-Dominique Bauby (Mathieu Almaric, que estará no futuro “007 – Quantum of Solace”), editor da Revista Elle que, aos 43 anos, sofre um derrame cerebral e perde absolutamente todos os movimentos do corpo, com exceção do olho esquerdo. E, mesmo neste estado, consegue ditar um livro inteiro, contando não só sua vida, repleta de excessos e emoções, como também discorrendo sobre esta nova condição, aprofundando-se nesta visão de mundo até então inédita. Um trabalho que supreendeu a todos, não só pelo simples fato de ter sido realizado, como também pela qualidade superlativa que possuía. Fato este que, por si só, já justifica a realização do filme.

Mas Schnabel não é um acomodado. E ele vai além da mera reinterpretação pictórica do que foi narrado pelo protagonista. Ele assume a posição do afetado, e nos faz passar pela mesma condição. Vemos o que ele enxerga, impassíveis e revoltados, tão indefesos e desorientados quanto o próprio. Por outro lado, o processo de identificação de intensifica absurdamente. Em instantes estamos pensando em como reagiríamos se estivéssemos no lugar dele – e, neste momento, a audiência já está conquistada e o filme, por assim dizer, ganho. Somos todos, em ambos os lados da tela, seres perdidos no fundo do mar e aprisionados em escafandros abafados, esperando pelo momento em que iremos nos revirar neste casulo até então impenetrável e nos revelar borboletas prontas para o vôo mais alucinado possível. Nem que este aconteça apenas no nível da imaginação.

“O Escafandro e a Borboleta”, apesar de ser uma co-produção com os Estados Unidos, é inteiramente falado em francês, o que indica porque recebeu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, quando merecia, na verdade, o troféu principal. Levou também o prêmio de Melhor Direção, categoria em que foi indicado também no Oscar, além de Roteiro Adaptado (escrito por Ronald Harwood, premiado por “O Pianista”), Fotografia (de Janusz Kaminski, oscarizado por “A Lista de Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan”) e Edição. Apesar do tema um tanto mórbido – um moribundo redescobrindo os verdadeiros valores da vida – o longa tem também o mérito de ser surpreendentemente leve, envolvendo o espectador aos poucos, sem grandes sobressaltos ou reviravoltas. De imediato somos confrontados com aquela realidade, e lentamente convidados a tomar conhecimento de como tudo aquilo aconteceu e, principalmente, como era a vida daquele homem antes desta tragédia. Outros destaques que merecem ser mencionados, além da interpretação soberba do protagonista, são as participações de três nomes de destaque no elenco: Emmanuelle Seigner (“Piaf”), como a ex-esposa, Marie-Josée Croze (“As Invasões Bárbaras”) e o veterano Max von Sydow. Cada um deles, a sua forma, é responsável por momentos de grande emoção e tensão, contribuindo definitivamente para o bom resultado final.

Mais do que uma aula de como superar dificuldades e sem ter como foco principal transmitir mensagens, “O Escafandro e a Borboleta” se explica por si só, atingindo a posição de uma verdadeira lição de cinema. Original, criativo e inovador, é um longa que merece ser descoberto tanto pelos apaixonados pela sétima arte como por todos aqueles atrás de boas histórias e que apreciem qualquer demonstração de novidade nas telas. Merecidamente reconhecido pela crítica e pela indústria, falta-lhe apenas encontrar-se com o público, completando assim um ciclo que, sob todo e qualquer aspecto, tem todos os quesitos para fazer parte.

Le Scaphandre et le Papillon, França/EUA, 2007
De Julian Schnabell
Com Mathieu Almaric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Max von Sydow

(nota 9)

A Via Láctea

quarta-feira, março 12th, 2008

Segundo longa da diretora paulista Lina Chamie, A VIA LÁCTEA estreou sob fortes aplausos numa mostra não-competitiva do Festival de Cannes de 2007. Agora, quase um ano depois, finalmente chega às telas do Sul do país. E a conclusão é de que valeu à pena esperar! Este é um belo exemplo de um cinema mais autoral, mas que mesmo assim consegue se comunicar com o público – a inventividade e ousadia demonstrada na forma não esconde a objetividade e simplicidade do conteúdo. Estamos diante de uma história de amor, e não há dúvida alguma quanto a isso.

Marco Ricca, um dos mais interessantes atores do cinema brasileiro atual, é um professor quarentão em crise com a namorada mais jovem. Após uma discussão telefônica aparentemente banal que termina atingindo extremos, decide largar tudo o que estava fazendo para ir ao encontro da amada, do outro lado de São Paulo, e tentar uma reconciliação. O trânsito caótico da grande cidade interfere de forma decisiva neste processo, provocando atrasos, encontros inesperados, situações conflituosas e gerando inestimáveis oportunidades de reflexão. Nestes momentos temos a oportunidade de descobrir como eles se conheceram, como se comportavam, como estas duas vidas aos poucos se transformaram em uma… até onde estão agora, prontas – ou não – para seguirem caminhos opostos.

No outro lado da linha está a bela e talentosa Alice Braga, que depois de despontar em sucessos como CIDADE DE DEUS e CIDADE BAIXA – e antes de partir para o estrelato internacional de EU SOU A LENDA – aceitou marcar presença nesta obra tão singela e singular. Alice é um frescor de juventude, uma personalidade maleável, sexy e inocente, madura e ansiosa por novidades. Ela compõe um ótimo contraponto ao modo sisudo e recluso vivido por Ricca. E, da mesma forma que achamos natural o envolvimento dos dois, concluímos que não serão poucas as forças que tentarão separá-los – externas e, acima de tudo, internas.

O primeiro filme de Lina Chamie, TÔNICA DOMINANTE, de 2000, era ainda mais radical nesta proposta de se guiar mais por sensações, impressões e sonhos do que por uma lógica fechada e organizada. A VIA LÁCTEA, por outro lado, é dotado de mais elementos para agradar tanto os que buscam expressões mais únicas quanto àqueles atrás apenas de uma forma de entretenimento adulta e inteligente (como se fosse pedir pouco!). Se em determinadas passagens a diretora e roteirista parece exagerar na dose, criando um hermetismo desnecessário, no final somos presenteados com uma conclusão surpreendente e inesperada, mas que combina perfeitamente com tudo dito anterioremente. Mais um sinal de respeito – com a história, com os envolvidos e, claro, com o espectador. E isso sim é grande coisa!

A Via Láctea, Brasil, 2007
(nota 8)

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