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Vidas entre as sombras e a luz

quarta-feira, outubro 21st, 2009

77182249LA001_valentinoDocumentário é um tipo de filme ainda muito pouco popular no Brasil. São poucos os lugares onde você consegue apreciar um bom longa do gênero sem que ele tenha sido vastamente premiado ou patrocinado antes. Por isso, preciso admitir que essa é uma das coisas boas aqui nos Estados Unidos, os documentários estão por todos os lados (mais…)

Homem Urso na Natureza Selvagem

sábado, agosto 29th, 2009

Uma coincidência tremenda originou essa coluna, meus caros leitores. Após rever em casa o ótimo “Na Natureza Selvagem”, de Sean Penn, fiquei a fim de mais e fui conferir o que tinha na coleção. Lá estava “O Homem Urso”. Um documentário que havia adquirido há muito tempo e que ainda não tinha assistido (mais…)

Gosto de ‘Quero Mais’

quarta-feira, julho 8th, 2009

Gosto de ‘quero mais’ deve ser o sentimento que “Cantoras do Rádio”, documentário que resgata passagens da Era de Ouro do Rádio no Brasil, durante as décadas de 30 a 50, deixará, ao final da sessão, a quem aprecia a rica e bela música brasileira (mais…)

Qual é a música de 2009?

quinta-feira, janeiro 29th, 2009

O ano ainda está começando e já sabemos a tendência de mercado dos documentários brasileiros para 2009: serão os Musicais que irão dominar as telas. Afinal, vários estão em produção. E outros já estão sendo lançados. Uma lista foi publicada em edição recente do Jornal O Globo (16.01). Vou aproveitar para incluir produções gaúchas que também serão lançadas no “ano musical” dos documentários.

“Titãs – A Vida Até Parece Uma Festa” (acima), que inclusive teve pré-estréia em Porto Alegre. Ainda não vi e confesso que algo não cheira bem. Primeiro pela cara comercial do projeto. Nada contra planejar um filme comercialmente. Isso é necessário. Não é possível imaginar ou pensar o contrário nos dias atuais. Mas, quando se trata de documentar a carreira de uma das maiores bandas de rock do país, sei lá… Parece diminuir a potencialidade artística. Segundo pelo fato de ser um dos integrantes da banda que dirige o filme. No caso, Branco Mello. Quer algo mais suspeito? O “olhar interno” que ele prega como fundamental é na verdade o que ele viveu e sentiu a respeito da história. Acho que sua visão pode prevalecer sobre a visão dos demais integrantes. E isso pode levar a distorções. Acho que preferia o Lobão dirigindo seu próprio documentário. Seria mais autêntico. Bem, opiniões à parte, verei o filme. E depois prometo voltar o assunto.

A lista dos homenageados, opa, dos artistas em questão é grande, com gente fina, distinta e interessante. Outros nem tanto. “Um Morcego na Porta Principal” é o título que apresenta um inenarrável Jardes Macalé. Já mais conhecido, e não menos importante, “Loki” é a aguardada cinebiografia de Arnaldo Batista. “O Homem Iluminado” é uma visão de Tom Jobim, feita exclusivamente por mulheres. Quem dirige: Nelson Pereira dos Santos. Olha só, ele não é o cineasta mais experiente em atividade? Acho que sim. A fila anda, ou melhor, a lista segue. Tem Bezerra da Silva com “Onde a Coruja Dorme”, Wilson Simonal e seu ”Simonal: Ninguém sabe o duro que dei”, “Herbert de perto”, sobre Herbert Vianna, vocalista dos Paralamas do Sucesso, “A Noite”, abordando o III Festival de MPB da Record, em 1967. E, claro, toca Raul aí, cara! Um documentário sobre o homem que nasceu há 10 mil anos atrás: “Raul – O início, o fim e o meio”, resgata a vida e obra do baiano Raul Seixas.

E a cena local? Sim, estamos nessa também. “Fandango” narra o processo de criação das músicas que compõem o CD e DVD homônimo de Renato Borghetti. A equipe de filmagem acompanhou as etapas e o resultado foi o primeiro documentário longa-metragem captado em alta definição no RS. São cerca de 80 minutos mostrando o músico na sua fazenda. Renato e os integrantes do Quarteto compõem, ensaiam e gravam. E você vai entendo o processo. Destaque para belas e desconhecidas praias na Barra do Ribeiro, campos, estradas e imagens para se contemplar. Está programada uma sessão de “Fandango” no próximo Festival de Verão, que acontece em março na capital gaúcha. O diretor Rene Goya Filho é um dos profissionais mais atuantes e respeitados no meio musical aqui do estado. Foi o idealizador do belo curta “Um risco no Céu”, episódio vencedor da série Histórias Curtas 2008, abordando a carreira de Carlinhos Hartlieb, músico gaúcho que deixou um legado importante para nossa cultura.

Ainda em fase de projeto, mas já intenso e abrangente como tudo que faz, “Bebeto Alves, O Homem Invisível” documenta as experiências musicais, culturais e pessoais vividas pelo cantor uruguaianense e uma geração de músicos locais entre os anos setenta, oitenta, noventa e por ai afora. Neste caso, sou eu mesmo que divido a direção deste filme com o parceiro Rene Goya.

Considero natural e super importante o cinema registrar a música, cantores e compositores. É fundamental a valorização da memória e das obras. E também pelo fato do público estar demonstrando muito interesse nestas produções. Os números das bilheterias comprovam isso. Afinal, eu mesmo não disse que vou assistir “Titãs”? Bons filmes a todos.

 

Latinos somos todos

quarta-feira, agosto 13th, 2008

A noite da segunda-feira foi marcada pelo início da competição dos longas-metragens “latinos”. É engraçada esta denominação, afinal, latinos somos todos: argentinos, uruguaios, chilenos, colombianos, venezuelanos… e brasileiros, não? Deveria ser “competição nacional” e “competição internacional”, e não “brasileiros” e “latinos”, mas enfim… não sou eu o dono do festival, certo?

O primeiro filme estrangeiro exibido foi uma produção argentina: “Por sus Propios Ojos”, de Liliana Paolinelli. Estrelado por Ana Carabajal e Luisa Núñez (as duas na cena acima), este filme chega a Gramado com o prêmio de Melhor Atriz (dividido entre as duas) no Festival de Biarritz (França) na bagagem. O legal é que a diretora e Ana, acompanhadas de outra atriz do elenco, Mara Santucho, estão aqui em Gramado. Mara, aliás, já pode ser considerada uma veterana por aqui: ela levou o kikito de Melhor Atriz em 2006 por “Cuatro Mujeres Descalzas”. Mara e Ana interpretam estudantes decididas a fazer um documentário como tema de conclusão de curso da faculdade. A idéia, tão interessante a princípio, se revela de grandes dificuldades devido a escolha polêmica do tema: a vida das mulheres que possuem familiares presos atrás das grandes. Como a grande maioria se recusa a dar depoimentos, elas encontram uma oportunidade quando uma mãe (Núñez) se dispõe a falar sobre as mudanças em sua vida após a prisão do filho mais novo. Combinando ficção com documentário, o filme resulta em algo irregular, indeciso entre os bons desempenhos do elenco e a fraca participação documental, como se por si só o enredo conseguisse atrair a atenção da audiência, sem um entorno dramático melhor estruturado.

Conclusão bastante similar à sentida no final da projeção do segundo longa brasileiro em competição: “Vingança”, de Paulo Pons. Primeira produção do movimento Pax de Cinema Brasileiro, que propõe a realização de vários filmes simultaneamente e todos de baixo orçamento, “Vingança” esconde bem suas carências, numa aparência bem atraente e cercado de méritos bastante interessantes. O elenco, encabeçado pelos competentes Erom Cordeiro (“Sexo com Amor?”) e Branca Messina (“Não Por Acaso”), traz ainda participações de nomes como Guta Stresser (“A Grande Família”), Márcio Kieling (“2 Filhos de Francisco”), José de Abreu (que estava também em “Dias e Noites”) e Bárbara Borges. Cordeiro está muito bem, como um jovem gaúcho atormentado que vai até o Rio de Janeiro em busca, claro, de vingança. Ele quer acabar com a vida do rapaz que teria estuprado a noiva dele. Só que ao se aproximar do cara, acaba se envolvendo com a irmã dele, provocando uma confusão de interesses. O começo é promissor, a boa trilha sonora de Dado Villa-Lobos já é favorita ao kikito, o fato de ter sido feito em vídeo digital não provoca grandes (d)efeitos estéticos e o diretor aparenta ter uma mão segura do seu discurso. O grande problema é mesmo o roteiro, que precisaria ter sido mais afinado, principalmente no centro da ação, onde termina se perdendo em discussões dispensáveis, e no final, numa solução rápida e pouco convincente. Mas como é trabalho de estreante, ainda cheio de boas intenções, não chega a ser uma decepção tão marcante. Talvez no futuro possamos opinar melhor sobre o talento, ou falta de, dos realizadores.

A segunda noite do 36º Festival de Cinema de Gramado foi marcado pela fraca presença do público – metade do Palácio dos Festivais ficou praticamente vazia – e pela aparição de várias “celebridades”. Além dos argentinos já citados, praticamente toda a equipe de “Vingança” se fez presente, isso sem comentar outros nomes, como Daniela Escobar, Antônio e Rocco Pitanga, Samara Felippo, Silvia Bandeira, Werner Schunemann, Nelson Xavier, Eduardo Galvão e outros. Renata Boldrini, ex-apresentadora do Canal Telecine, ganhou a companhia do ator Paulo Betti na apresentação oficial do Festival, formando uma dupla completamente desequilibrada. Enquanto ela esbanjava classe e simpatia, ele parecia estar narrando uma partida de futebol, de tanta empolgação que demonstrava na nova função. Menos, Paulo, menos. E esse sinal de contenção pode servir também para nós, espectadores. Afinal, a semana está só começando, e há muito ainda pela frente!

Oscar Niemeyer – A Vida é um Sopro

sábado, janeiro 5th, 2008

“É possível contar a história de um povo através da sua arquitetura?” Com essa premissa bastante ambiciosa começa o material de divulgação do filme A VIDA É UM SOPRO, trabalho de estréia na direção do gaúcho Fabiano Maciel, há anos radicado no centro do país. E tendo essa intenção em mente, o realizador não poderia ter sido mais feliz na escolha do personagem enfocado: Oscar Niemeyer, um dos maiores arquitetos da História e um dos grandes gênios já nascidos no Brasil, reconhecido internacionalmente pela contribuição que sua obra gerou à arte e ao desenvolvimento arquitetônico mundial.

O melhor, como não poderia ser diferente, foi a sábia decisão de Maciel em deixar o próprio Niemeyer como protagonista. Ou seja, apesar de um belo trabalho de pesquisa, o longa não se apóia em imagens antigas, depoimentos de outros e descobertas garimpadas a muito custo. Esse tipo de material e recurso até existe, mas está presente apenas como ilustração, e não como alicerce. Quem oferece esta base é, claro, Niemeyer, que está vivo e bastante lúcido aos 99 anos de idade (ele completa um século de vida no dia 15 de dezembro de 2007). O diretor afirma ter feito várias entrevistas, durante alguns encontros em pouco menos de uma semana, com um total de aproximadamente 400 perguntas. Niemeyer respondeu apenas as que lhe interessava. E, com estas respostas, estava recolhida a matéria-prima para um dos mais interessantes e curiosos documentários nacionais recentes.

Nestes 99 anos, Niemeyer calcula ter feito algo em torno de 1000 projetos, sendo que 600 destes chegaram a ser executados. Todos os mais importantes, que fizeram do seu nome referência mundial, estão presentes: Pampulha, em Minas Gerais, Brasília, a sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, a sede do Partido Comunista, em Paris, a Universidade de Argel, na Argélia, o Museu de Arte Moderna de Niterói, no Rio de Janeiro. Ainda assim, poucos exemplos de uma carreira que quebrou barreiras e gerou novos conceitos, dentro e fora do seu campo de atuação. O espectador interessado neste ponto de vista sairá mais do que satisfeito, pois o filme oferece um amplo painel de quem foi e o que representou o arquiteto. Mas o discurso empregado não se contenta só com isso; há mais, muito mais. E assim temos a chance de nos depararmos com um Niemeyer falível, crítico, por vezes desiludido, desbocado, audacioso, consciente de sua importância e dos feitos que protagonizou.

A VIDA É UM SOPRO é uma aula de história, de cultura, de sociedade e desenvolvimento, mas, acima de tudo, de vida. E além do clichê mais comum do gênero. Não porque iremos nos inspirar nos caminhos percorridos pelo mestre retratado. Afinal, alguém como ele não nasce todos os dias. Mas, sim, por nos mostrar que mesmo os mais sábios são passiveis de erros e de pequenas falhas, como desprezo e orgulho. E, tornando-o humano, Fabiano Maciel conseguiu fazer do Oscar Niemeyer que escolheu ainda mais universal. Uma decisão no mínimo inteligente. E, quem ganha, além dos realizadores e do público, é o filme em si, que adquire uma dimensão ainda mais imprescindível.

Oscar Niemeyer – A Vida é um Sopro, Brasil, 2007

(nota 8)

 

Hércules 56

sábado, janeiro 5th, 2008

Silvio Da-Rin é um profissional bastante reconhecido no meio cinematográfico nacional. Apesar de ter dirigido o documentário em média-metragem A IGREJA DA LIBERTAÇÃO, sobre o trabalho do Frei Leonardo Boff, em 1985, é muito mais conhecido pelo trabalho que desenvolve no departamento de som, tendo aparecido nos créditos de importantes produções, como MAUÁ – O IMPERADOR E O REI (1999), AMORES POSSÍVEIS (2001), SEPARAÇÕES (2002) e QUASE DOIS IRMÃOS (2004), entre tantos outros. Estava, portanto, mais do que na hora de colocar, novamente, o seu próprio ponto de vista em uma narrativa. Por isso, foi com entusiasmo que os cinéfilos brasileiros receberam a estréia de Da-Rin em longas com HÉRCULES 56, que também segue a veia documental explorada anteriormente em suas manifestações mais autorais.

O episódio aqui enfocado não é estranho àqueles acostumados a apreciar o cinema feito no Brasil. Quem lembra de O QUE É ISSO, COMPANHEIRO? (1997) deve estar familiarizado com a história do seqüestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, no Rio de Janeiro, em 1969, por um grupo de manifestantes contrários à ditadura militar. HÉRCULES 56 é a versão em documentário deste mesmo episódio. Sem suspense ou fantasias históricas, temos de um lado os organizadores deste ato de terrorismo e manifestação social e, do outro, os diretamente beneficiados pela ação. Ou seja: os ex-presos políticos que foram soltos em troca da libertação do embaixador. E entre estes dois momentos isolados, uma impressionante pesquisa de imagens e arquivos da época.
Da-Rin constrói seu filme de um modo absurdamente simples: reuniu numa mesma mesa todos os sequestradores e os colocou a discutir o assunto. Sem interferências, deixaram o verbo correr e assim revelam fatos surpreendentes, assim como curiosidades ou pequenos detalhes que até tornam pitoresco um fato de dimensão muito mais séria do que a tranquilidade dos envolvidos poderia sugerir. Esta é a metade mais forte, digamos assim. Da outra destaca-se o árduo trabalho de campo executado em busca dos sobreviventes e na reconstituição dos passos destes após terem sido postos em liberdade: embarcaram no avião da Força Aérea Brasileira Hércules 56 e foram extraditados para o México. Dali, seguiram caminhos diferentes, entre os que permaneceram na militância e os que seguiram trilhas mais pessoais. Aqui o foco fica um pouco distorcido, mais preocupado com a veracidade dos fatos do que com a reflexão que poderiam oferecer.

HÉRCULES 56 é uma obra de grande importância no cenário cultural e político nacional. Com depoimentos de Franklin Martins, Flávio Tavares, Vladimir Palmeira e até do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, traça um painel bastante completo de uma jogada relativamente inocente, mas que obteve proporções muito maiores à medida em que se desenvolvia, adquirindo um relevância até hoje marcante. A se lamentar apenas a falta de uma maior profundidade teórica nos discursos. Nada, no entanto, que vá afugentar o espectador verdadeiramente interessado. Tanto que o filme foi premiado pelo júri popular no Festival de Cinema de Campo Grande e, notoriamente, foi escolhido para ser exibido, fora de competição e sob fortes aplausos, no encerramento do último Festival de Brasília.

Hércules 56, Brasil, 2006
(nota 7)

 

Santiago

sábado, setembro 22nd, 2007

Um filme feito a partir da idéia de se fazer um filme. Assim é SANTIAGO, documentário de João Moreira Salles, o mesmo diretor de NOTÍCIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR, NELSON FREIRE e ENTREATOS. Agora, ao invés de tratar do caos social do país, de um dos maiores exponentes da cultura nacional ou de realizar uma crônica política, ele faz uso de uma iniciativa inacabado para tentar iluminar uma discussão filosófica a respeito do ofício que desempenha, de sua arte e da própria existência. E o resultado é arrebatador.

O projeto “Santiago – O Filme” começou em 1992, quando o diretor tinha apenas 30 anos. A idéia era retratar a vida e as idéias do mordomo da família Salles, um tipo de homem que não mais existe nos dias de hoje – dedicado ao trabalho, à honra, aos detalhes, à etica e às belas artes. Joãozinho – como o cineasta era chamado por Santiago – entrevistou seu personagem durante cinco dias e depois, já diante deste material, chegou à conclusão de que não tinha ali um filme como imaginara. Tudo que fora captado acabou deixado de lado, para ser redescoberto 13 anos depois, em 2005. João Moreira, mais experiente e com uma carreira consolidada, conseguiu exercer um novo olhar sobre aqueles depoimentos, editando uma obra que transcende a proposta inicial. SANTIAGO não fala de um homem em extinção, e sim de uma reflexão sobre nostalgia e a arte de contar histórias.

Com este novo foco, o diretor consegue perceber fatos imprescindíveis que até então estavam escondidos. Como a natureza daquele que dá título ao filme: quem havia conversado com ele anos atrás não fora o “homem” Santiago, e sim o Santiago “mordomo”. Era uma relação patrão-empregado que estava em cena, o que comprometera o resultado daquela época. Hoje, mais crítico, ele consegue driblar estas limitações, fazendo uso delas para uma análise das próprias estruturas de poder. Assim, aproveita-se do fazer cinematográfico para discutir servilismo, cultura, sociedade e até mesmo política, mas sempre através de um viés contemplativo, mais no campo das idéias do que da prática. E esta se faz presente no filme apresentado, que por si só fala alto o suficiente.

Com uma bela fotografia em preto e branco de Walter Carvalho (de CENTRAL DO BRASIL e co-diretor de CAZUZA – O TEMPO NÃO PÁRA) e montagem discreta de Eduardo Escorel (de CABRA MARCADO PARA MORRER e DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA), SANTIAGO é o ponto mais alto da carreira de João Moreira Salles enquanto realizador cinematográfico. Moço bem educado de família rica, ele consegue se distanciar de suas origens para se transmutar num espectador da decadência social e artística, oferecendo um infinitude de opções para serem discutidas durante este processo de descoberta. Há aqui uma lição de vida a ser aprendida e estudada, mas mais do que isso está em questão um assunto de extrema relevância: a nossa própria revelação enquanto espectadores do mundo, e como tudo que está a nossa volta pode adquirir múltiplos significados, bastando para isso a definição da sintonia que estes fatos, pessoas e objetos estabelecem com nosso acervo pessoal e histórico. SANTIAGO é vida, e como tal está em constante mudança. E por isso mesmo que seus méritos são tão evidentes.

Santiago, Brasil, 2007
(nota 9)

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