Link Worth

O novo tango: Bajofondo ao vivo

domingo, maio 25th, 2008

No último dia 16 de maio a capital gaúcha recebeu pela primeira vez uma das maiores revelações do ‘tango eletrônico’: Bajofondo, grupo mezzo argentino, mezzo uruguaio, que é um dos principais responsáveis pela reinvenção que o gênero portenho tem enfrentado nos últimos anos. E ao vivo eles não poderiam ser mais enfáticos: os caras simplesmente dominam! (mais…)

O abandono enquanto resposta

domingo, maio 25th, 2008

Anthony Hopkins em \Fui ao cinema assistir ao terceiro filme dirigido por Anthony Hopkins, “Um Sonho Dentro de Um Sonho” (Slipstream). Mais conhecido como ator – vencedor de um Oscar pela personificação do canibal Hannibal Lecter em “O Silêncio dos Inocentes” – este Sir inglês revela uma faceta inusitada enquanto realizador. Além da direção, ele assumiu também o roteiro, a trilha sonora, a produção e o papel principal, de um roteirista em crise com sua obra, e que acaba se confrontando com os próprios personagens por ele imaginados. Os desavisados poderiam afirmar se tratar de um longa de David Lynch, pela quantidade de estranhezas e bizarrices propostas pelo enredo. Mas Hopkins fica no meio do caminho, desapontando tanto quem esperava algo mais radical quanto a maioria, atraída por esta obra basicamente pelo nome dele no início dos créditos. (mais…)

Speed Racer

sexta-feira, maio 16th, 2008

O mundo é muito mais colorido no universo de \Depois do estrondoso sucesso de “Matrix” (principalmente do primeiro filme, de 1999), os irmãos Andy e Larry Wachowski precisavam, definitivamente, se reinventar. Afinal, não iriam passar o resto da vida contando e recontando a saga de Neo (nem George Lucas se preocupa apenas com Luke Skywalker, basta ver o retorno de Indiana Jones às telas). E a opção deles recaiu num clássico da animação oriental, mas também de muito sucesso no Ocidente: “Speed Racer”, criado por Tatsuo Yoshida e exibido pela primeira vez na televisão japonesa em 1967. O objetivo, afirma o produtor Joel Silver, era fazer um filme “para toda a família”. O resultado, entretanto, está longe disso.

Speed Racer”, o filme, conta a história do jovem Speed, filho do meio do clã Racer, todos aficionados por corridas de automóveis. O irmão mais velho, Rex, era também corredor, mas sumiu após um acidente misterioso. O mais novo, Gorducho, só cria confusão ao lado do macaco de estimação, Zequinha. Os pais – Pops e Mãe Racer – tentam organizar a bagunça, sem muito sucesso. Speed é o novo astro da família, e após vencer uma corrida disputada passa a ser assediado pelas companhias mais importantes. Mas o que descobre é que estas, na verdade, armam os resultados, buscando os melhores resultados para seus produtos. Assim, decide se unir ao – até então rival – Corredor X para, juntos, acabarem com esta armação desonesta.

Num papel que foi disputado por atores como Johnny Depp e Nicolas Cage, o novato Emile Hirsch (que mostrou ser um ótimo ator no visceral “Na Natureza Selvagem”) assume o papel título. Agora por que ele decidiu encarar este projeto, ao lado de nomes mais tarimbados como John Goodman (Pops), Susan Sarandon (Mãe), Christina Ricci (Trixie, a namorada) e Matthew Fox (X), é bastante simples: todos precisavam, urgentemente, de um estrondoso sucesso comercial. Fox é conhecido na televisão (é o doutor Jack, da série “Lost”), mas pouco fez no cinema. Sarandon tem até um Oscar na estante, mas isso já conta mais de dez anos, e desde então pouco tem se destacado. Goodman foi… Fred Flintstone? E Ricci… a Vandinha, da “Família Addams”? Já Hirsch, conhecido dos cinéfilos mais dedicados, precisava se tornar popular, e assim, viável comercialmente. Só que não foi desta vez.

Prensado num mês que começou com o lançamento de “Homem de Ferro” (mais de US$ 200 milhões arrecadados em todo o mundo só nos 3 primeiros dias de exibição) e que terá ainda pela frente “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal” e “As Crônicas de Nárnia – Prínicipe Caspian”, “Speed Racer” acabou comendo poeira. Apesar de ter custado mais de US$ 100 milhões, somou nas bilheterias norte-americanas no final de semana de estréia menos de US$ 20 milhões, amargando uma terceira posição entre os mais vistos. Isto praticamente enterrou as possibilidades de uma continuação e, assim, o início de uma nova franquia. Mas por que as pessoas não foram assistir a “Speed Racer”?

São vários os motivos que podem explicar o fracasso desta empreitada. Mas talvez o mais simples seja, também, o mais verdadeiro: excesso. É muito colorido, muito frenético, muito agitado, muito editado, muito fantasioso, muito psicodélico, muito demais! Em contrapartida, tem história de menos, sem falar nos personagens, tão rasos quanto um pires. E sem motivação, com o que o espectador irá se identificar? Com o Mach 5 (o carro pilotado por Speed)?

Vertiginoso (creio que desde “Moulin Rouge” não tinha tanta gente saindo tonta das salas de cinema), frenético, intenso, porém tão vazio quanto um pastel de vento, esta aventura nunca consegue deixar claro seus objetivos. O visual inovador e o conceito inédito de cenários digitais logo deixam de ser novidade, e após meia hora de projeção você já estará se perguntando quanto falta para acabar. E sem empatia, a experiência toda se revela atordoante. “Speed Racer”, o filme, talvez tenha melhor chance na telinha, universo mais próprio do personagem. Do jeito que está, entretanto, parece brincadeira de moleque – ainda mais numa temporada em que, capitaneada por nomes como Homem de Ferro, Indiana Jones, Incrível Hulk, Príncipe Caspian e Batman, já deixa claro que a batalha será coisa de gente grande!

Speed Racer, EUA, 2008

De Andy e Larry Wachowsky, com Emile Hirsh, John Goodman, Susan Sarandon, Matthew Fox, Christina Ricci

(nota 6)

Um Sonho Roubado – a música de My Blueberry Nights

segunda-feira, maio 5th, 2008

A trilha da estréia de Wong Kar Wai nos Estados Unidos é marcada pela melancolia

A trilha sonora original do novo filme do cineasta chinês Wong Kar Wai é para ser ouvida várias vezes seguidas, sem interrupções. É uma obra à parte, independente do longa em questão, “Um Beijo Roubado” (My Blueberry Nights). Falo isso porque ouvi o cd antes de assistir ao filme, e já na audição fiquei encantado com aquele clima melancólico e perverso, calmo e despudorado, intenso e sereno que as quatorze faixas propõem. Uma seleção inteligente, que funciona perfeitamente como um conjunto isolado, mas que também possui qualidades suficientes para serem agregadas a um outro trabalho.

Como “Um Beijo Roubado” marca também a estréia da cantora Norah Jones como atriz, era de se esperar novidades dela já na trilha. E ela não desaponta, apesar de estar presente apenas na canção de abertura, a falsamente discreta “The Story”. Esta faixa lembra muito outras composições da cantora, e quem já está acostumado não irá se surpreender– apesar da manifestação daquele clima reconfortante que ela provoca. De início canta “Eu não sei como tudo isso começou…”, o que certamente tem muito a ver com o próprio desempenho dela como atriz.

Mas a trilha de “Um Beijo Roubado” pertence mesmo a dois artistas: Chan Marshall, a voz do Cat Power, e o instrumentista Ry Cooder. O Cat Power é responsável por duas faixas: “Living Proof” e “The Greatest”, ambas originais do álbum “The Greatest”. Este era o disco que o próprio Kar Wai ouviu enquanto buscava inspiração para “Um Beijo Roubado”, e nada mais justo, portanto, que estivesse na trilha. Já para os temas instrumentais o primeiro compositor que ele pensou foi Gustavo Santaolalla (duas vezes vencedor do Oscar, pelas trilhas de “O Segredo de Brokeback Mountain” e “Babel”). Como já estava comprometido com outros trabalhos, acabou cedendo espaço para Ry (cujo som pode ser conferido em filmes como “Segredos do Poder” e “O Fim da Violência”). Ele entrega três faixas: “Ely Nevada”, “Long Ride” e “Busride”, todas com personalidade suficiente para serem mais do que mero cenário. Já Santaolalla, apesar da falta de tempo, ainda conseguiu se fazer presente com “Pajaros”, bela e triste composição que adiciona um tempero latino a esta mistura.

Outro destaque é Cassandra Wilson, que comove tanto na interpretação de “Harvest Moon” (composição original de Neil Young) que levou o diretor a convidá-la a participar do filme também como atriz, num pequeno papel. Kar Wai afirma que foi ao som desta música que Norah finalmente conseguiu ir às lágrimas num dos momentos mais emocionantes do filme.

Outro presente para os fãs foi a inclusão, agora reinventada, de “Yumeji’s Theme”, comovente tema do casal apaixonado de “Amor à Flor da Pele”, até hoje o longa mais elogiado de Wong Kar Wai. Chikara Tsuzuki entrega agora uma versão harmônica da melodia, completando um ciclo iniciado em 1990, quando esta composição foi escrita por Shigeru Umebayashi para o filme “Yumeji”. Uma homenagem não só às origens do diretor como também ao próprio cinema oriental.

Se há um deslize, é a inclusão da batida “Try a Little Tenderness”, mesmo que sob o comando de Otis Redding. Apesar de ser fiel ao espírito romântico presente nas demais canções, é por demais clichê, e acaba soando como um desrespeito. Uma bobagem, que não chega a manchar a boa impressão causada por “My Blueberry Nights – Music From the Motion Picture”, um álbum que merece ser conhecido e apreciado, goste-se ou não do filme.

Por Robledo Milani

Jim Sturgess conquista a América em “Quebrando a Banca”

segunda-feira, maio 5th, 2008

Jim Sturgess nunca esquecerá da primeira vez que viu Las Vegas. O jovem ator inglês estava voando desde o deserto de Los Angeles quando lhe chamou atenção a capital dos cassinos, que de certa forma seria sua nova casa pelas próximas seis semanas, durante as filmagens de “Quebrando a Banca” (21), novo longa do diretor Robert Luketic (“Legalmente Loira”).

Robert me chamou e disse: ‘quero estar ao seu lado quando você chegar em Las Vegas pela primeira vez para ver como será sua reação’, então nós voamos juntos”, explica. “Não sabia o que esperar. Estávamos voando sobre aquele vasto e belo deserto e, de repente, eis que surge Vegas, aquele extraordinário oásis no meio do nada, e é simplesmente maravilhoso. Foi alucinante!”

E tem um momento no filme em que o meu personagem está olhando pela janela do avião quando vê Vegas pela primeira vez, e foi exatamente desta experiência que veio a minha interpretação. Rob usou a mesma reação. Meu rosto diz tudo – é fantástico!”

O londrino de 27 anos mergulhou no universo de Ben Campbell, o líder de um grupo de estudantes altamente inteligentes do M.I.T. (Massachusetts Institute of Technology, ou Institulo Tecnológico de Massachusetts, uma das universidades mais disputadas e reconhecidas dos Estados Unidos). Eles usam um método complexo de ‘contar cartas’ para ganhar fortunas no ‘blackjack’ em seus passeios pelos cassinos de Las Vegas.

Basicamente, é um sistema onde um jogador senta na mesa do ‘blackjack’ (também conhecido como ‘21’, título original do filme) e começa a decorar mentalmente as cartas que já foram usadas. Quando uma mesa se torna “quente” – com poucas cartas sobrando, e a maioria de altos valores – ele alerta os demais amigos com sinais pré-combinados. O segundo jogador então se une à mesa e aposta alto, já sabendo que as probabilidades dele ganhar da casa são imensamente altas. E isso soa muito mais fácil do que realmente é.

“Eu tipo que entendi como isso funciona, mas simplesmente não consigo jogar!”, declara Sturgess sob fortes risadas. “Todos nós já tivemos esse problema da nossa matemática ser horrível e termos que usá-la rapidamente ao trabalhar com números. Tudo depende da velocidade da reação”.

Quebrando a Banca” é baseado numa história real e Sturgess encontrou os estudantes verdadeiros, que atuaram como conselheiros no filme, incluindo Jeff Ma, que serviu de base para o seu próprio personagem.

Jeff foi o único do time que foi barrado de jogar ‘blackjack’ em qualquer lugar de Las Vegas. Se ele fizer, a tecnologia de reconhecimento facial dos cassinos irá identificá-lo em menos de 20 minutos, e ele será imediatamente cercado pelos seguranças, e será algo como: ‘Jeff, você sabe que não tem permissão para jogar aqui…’.”

Ele é como uma lenda por lá e todos o conhecem. Certamente minha experiência ao lado dele foi extraordinária, ele recebe sempre um tratamento VIP, com todas as mordomias, e todos o adoram”.

Quando não estavam filmando, Sturgess e seus colegas de elenco iam às mesas de jogos em Vegas e, quando saíram da cidade, ele já era um vencedor! “Eu apostei e ganhei. É surpreendente, mas foi isso que aconteceu!”

Alguns não foram tão bem, outros foram melhores, e fui um destes últimos. Estive muito pra baixo enquanto estávamos filmando. Era engraçado, porque todos os dias as pessoas entravam no set e me perguntavam ‘você está pra cima ou para baixo?’ E para alguns dizia ‘estou muito pra baixo…’”

E então a nossa sorte simplesmente mudava. Quando saímos de Las Vegas eu realmente era uma das pessoas mais pra cima, o que nos faz sentir muito bem. Foi um bom momento para sair. Eu diria que estava ganhando trezentos ou quatrocentos dólares, o que já é muito bom. Teve momentos que estive perdendo milhares!

Ele admite que teve situações em que os limites entre seu personagem em “Quebrando a Banca” e sua própria vida social em Las Vegas se tornaram um pouco confusos. “Você está em Vegas ao lado de uma grande equipe e um elenco ótimo e todos nós aproveitamos o máximo!”, relembra.

E me lembro de pensar ‘Deus, os limites entre trabalho e diversão estão cada vez mais confusos. Eu não consigo mais controlar’. Então numa hora nós estávamos fingindo ter uma noite alucinante enquanto nós realmente tivemos uma noite anterior muito louca – e estávamos com as dores de cabeça para provar! Era como ‘Deus, eu preciso sair daqui’!

Sturgess está se confirmando como um dos mais quentes jovens atores do momento. Um talentoso músico que teve seu primeiro estouro interpretando ‘Jude’ em “Across the Universe”, inovador musical passado nos anos 60 dirigido por Julie Taymor, que usava as músicas dos Beatles para contar uma emocionante história de amor.

“Eu realmente me senti, quando consegui o papel, que tudo o que havia feito antes na minha vida havia me levado até aquela conquista”, diz. “E realmente foi fantástico ter participado de tudo aquilo”.

Em breve poderá ser visto ao lado de Eric Bana, Natalie Portman e Scarlett Johansson no drama de época “A Outra” (The Other Boleyn Girl), e há pouco terminou de filmar o thriller policial “50 Dead Men Walking”, ao lado do Sir Ben Kingsley.

Filho do meio de três irmãos, Sturgess nasceu em Farnham, Surrey, nos arredores de Londres, e estudou na Universidade de Salford jornalismo e interpretação. Em “Quebrando a Banca”, aparece ao lado de Kate Bosworth, que interpreta uma colega estudante, e Kevin Spacey, como Mickey Rosa, o professor de matemática que recruta os estudantes mais geniais e os treina para o time de contar cartas. Spacey é também produtor do filme.

Sturgess relembra da primeira reunião de leitura – quando o elenco inteiro se reúne para ler o roteiro pela primeira vez – e como estava nervoso na ocasião, e como a colega Kate Bosworth o ajudou a se concentrar.

Isso foi uma coisa muito intimidante para mim porque foi o meu primeiro grande filme feito na América”, diz. “E ter que fazer o sotaque americano pela primeira vez na frente de um grupo de pessoas , sentado ao lado de Kevin Spacey e de Laurence Fishburne, foi muito tenso”. “E quando terminou Kate foi a primeira pessoa a vir na minha direção. Ela me encheu de confiança e foi muito atenciosa, do mesmo modo como foi durante todo o filme. Então nós dois instantaneamente nos entendemos e ficamos amigos”.

Luketic e Spacey também ajudaram o jovem ator a se ajustar em Vegas ao papel de Ben Campbell. “Eles dois foram muito prestativos”, diz. “E não poderiam ter sido melhores, Robert tinha uma visão fantástica para o filme e eu acho que ele fez um trabalho incrível”. Este espírito de atenção e compreensão ultrapassou os limites da tela e pode ser percebido nas performances, ele acredita.

Havia um sentimento muito jovem durante todas as filmagens, e Kevin era parte essencial disso. Ele é muito engraçado, sacana e divertido”, relembra entre risos. “Ele é perversamente engraçado. E todos os produtores eram hilários, eram tão malucos quanto todos os demais”.

Ali estava aquela sensação inovadora nos bastidores e acho que isso se reflete no filme. Era como um grupo de amigos fazendo juntos um filme muito louco. E tinha caos, claro, nós estávamos tentando contar uma história nestes cassinos com toda aquela loucura ao nosso redor”.

“Você tem estado ocupado. Como ‘Quebrando a Banca’ se encaixa dentre os teus outros trabalhos?”

Eu terminei “Across the Universe” e permaneci em Nova York por um tempo. “Across the Universe” foi um grande projeto para se estar envolvido, como nada que havia feito antes. Nunca havia estado em Nova York, então essa foi uma experiência fantástica, também. Era quase como se não quisesse mais voltar para casa! Mas acabei voltando, para filmar “A Outra”. Enquanto estava nestas filmagens Robert Luketic entrou em contato para dizer que tinha um papel para mim em “Quebrando a Banca”. Ele tinha visto algumas das minhas cenas em “Across the Universe”.

“E o que aconteceu em seguida?”

Eu me lembro dele ter ido a Londres, me contado tudo a respeito, de ter lido o roteiro e de termos trocado algumas idéias. Ele é um cara muito legal, com idéias fascinantes sobre como contar uma história com um visual realmente interessante, e tudo começou a partir disso.

“O seu personagem é baseado numa pessoa real?”

Existe um rapaz, Jeff Ma, cuja história é usada no livro, e obviamente o filme é inspirado neste mesmo livro. Mas há tanto de novo no filme que lhe oferece uma nova narrativa, porque na vida real isso se prolongou por um período muito maior, e muito aconteceu com este cara. Então criamos algo mais do que apenas os fatos específicos que aconteceram com ele. Então muito do que o filme mostra realmente aconteceu com este cara. Ele era um estudante do M.I.T. assim como todos os outros.

“O seu personagem tinha um motivo nobre quando ele se envolve no esquema, que era conseguir dinheiro para pagar os estudos. Isto foi real?”

Isso é algo mais do filme do que da vida real. Isto lhe dava um propósito para ganhar tanto dinheiro. Mas acho que, primeiro, todos estavam adorando o fato de estarem ganhando tanta grana, assim como você também estaria, e isto era, afinal, apenas mais um motivo para ir até Vegas e aproveitar ótimos momentos. Segundo, era legal sentir toda aquela emoção. E terceiro, ganhar muito mais dinheiro do que qualquer um dos seus colegas de faculdade e amigos conseguiriam juntar trabalhando em livrarias ou restaurantes ou qualquer outra coisa que estivessem fazendo enquanto eram estudantes.

“Você chegou a conhecer estes rapazes?”

Sim. Todos eles. Ótimos rapazes. Estão todos ao redor dos 30 anos, atualmente. Creio que esta história aconteceu por volta de 1991, se não me engano. Nós modernizamos durante as filmagens. E você sabe, os times de contadores de cartas do M.I.T. ainda existem. É quase uma instituição por lá – isto começou antes dos nossos rapazes e continua até hoje.

“Então esta é a sua primeira vez em Vegas e você está lá para participar de um filme. Deve ter sido uma experiência e tanto, não?”

Foi alucinante. Eu me lembro como se todo o tempo em que estive em Vegas fosse como um fim de semana prolongado, e na verdade foram quase dois meses!

“Vegas é um mundo muito estranho para se viver por um longo período de tempo?”

Sim, com certeza. Teve um momento em que me dei conta de que não saía para tomar um ar fresco na rua já fazia quatro ou cinco dias! Lá é tudo tão grande, e há aqueles shopping centers conectados uns aos outros, com seus próprios climas, com nuvens e tudo mais, que você acaba acreditando que está na rua, mesmo quando você não está!

“Você gostou de lá?”

Sim, porque foi tudo tão extremo e diferente de tudo que conhecia. Mas claro que chegou um momento que estava rezando para sair de lá. Lembro de Kate (Bosworth) e eu nos olhando próximo ao término das filmagens e dizendo um ao outro ‘estamos ficando loucos!’. E o som, o barulho das máquinas nunca pára! Aquilo vai te deixando maluco! E tinha máquinas de jogos por todos os lados – até nos banheiros! A gente tentava se afastar daquilo – eu rezava por uma cerveja num pub! Venho de Londres, e tudo o que queria era me sentar num pub com uma cerveja e longe de toda aquela loucura. Até que achamos um bar irlandês em um dos cassinos, que era o mais próximo de um pub que se poderia conseguir por lá, e eles até tinham tortas de carneiro e tudo mais! Mas até lá estavam as máquinas de jogos. Não havia como escapar delas!

“Qual jogo você mais se interessou?”

Nós jogávamos apenas ‘blackjack’. Fizemos um pacto, e só jogávamos ‘blackjack’ o máximo que podíamos, porque isso serviria para o filme. Teve uma noite em que saímos juntos, bebemos alguns drinks e, você sabe, foi divertido. Começamos a jogar, e eu estava sentado ao lado de Aaron Yoo, que interpreta Choi no filme. Começamos a brincar e fingir que estávamos fazendo sinais com as mãos um para o outro, o que na realidade não fizemos, mas era na verdade mais um treino sobre como ser um time e tudo o mais. No primeiro dia após a leitura do roteiro em conjunto – nós havíamos recém nos conhecido – saímos para jantar e acabamos indo jogar até o amanhecer. Foi uma ótima experiência que nos uniu ainda mais.

“Você já havia jogado antes?”

Nunca. E nunca tinha sequer estado em um cassino. Eu me lembro de quando cheguei em Vegas pela primeira vez, antes de todo mundo. Ficava caminhando por lá, espantado e maravilhado com aqueles cassinos grandiosos, onde você tem que se sentar numa mesa junto a um monte de gente que desconhece. Eu me lembro de chegar e dizer: ‘me desculpem, sou inglês, tenham paciência comigo…’ e todos foram muito simpáticos, me ajudaram, e uma vez que você entende o que está acontecendo, tudo fica mais fácil e divertido.

“Como foi a reação dos cassinos?”

Foi algo confuso. Mas creio que eles são espertos o suficiente para saberem que contar cartas é algo quase impossível e que a atenção que o filme irá despertar irá levar várias pessoas até lá para tentar e falhar miseravelmente (risos)! Então acho que eles só viram tudo como mais uma oportunidade de ganhar mais dinheiro, como sempre fazem. Qualquer filme que mostre esta atividade como algo agradável e atraente só será bom para Vegas. E especialmente do jeito que Rob filmou – ele fez o contar cartas parecer tão excitante e tão divertido! Com certeza terão grupos de pessoas que apenas querem jogar cartas e buscar aquele estilo de vida. É engraçado, mas você vê todos aqueles aviões saindo de Vegas, e todas aquelas pessoas que trabalharam conosco no filme, como consultores e experts em ‘blackjack’ e em cassinos, diziam: ‘lá se vão mais alguns milhares de dólares’!

“O que desengatilhou todos estes incríveis filmes que você tem participado?”

Julie Taymor, que me descobriu para “Across the Universe”. Houve audições abertas para o filme em todos os lugares: Nova York, Los Angeles, Londres, Liverpool, Manchester, Irlanda… ela percorreu um longo caminho. Não sabia muito quando fui até uma destas audições. Eu era apenas um ator em Londres e também um músico, então costumava estar em uma banda. Fui até lá com a mente completamente aberta e limpa. Tudo o que sabia é que seria um musical sobre os Beatles, o que considerava uma péssima idéia, mas fui até lá só para ver o que aconteceria. Sou um grande fã dos Beatles, e por isso não gostei nada da idéia de um musical sobre eles. Não sabia como isso seria tratado, e vi que era algo que precisava ser muito bem cuidado – e que mesmo assim iria despertar as mais diversas reações.

“É engraçado como estes dois talentos, a música e a atuação, acabaram convergindo…”

Sim, impressionante. Parecia que tudo que havia feito até então havia me conduzido até aquele momento. E eu precisava estar dentro. Então saí da audição com a ingênua certeza de que tudo havia dado certo, mesmo não sabendo ao certo do que havia acontecido. Ignorância foi uma bênção naquela situação. Julie não estava lá, era apenas um cara com uma câmera filmando aquelas centenas de pessoas que haviam aparecido – era algo como um teste para o Big Brother ou para o American Idol, algo do gênero.

“O que você interpretou? Ou cantou?”

Eu havia levado minha guitarra, o que mais ninguém ali tinha, e toquei “Something” e “Revolution”. Saí dali acreditando que nunca mais ouviria nada a respeito daquele encontro, mais ou menos como acontece toda vez que você sai de uma audição. Mas Julie deve ter visto algo naquela fita que lhe interessou. Então fui chamado novamente, e desta vez para interpretar algumas falas, com o sotaque de Liverpool. Fiz mais algumas cenas. Até que recebi um telefonema que dizia ‘eles querem que você vá até Nova York se encontrar com a diretora Julie Taymor’. Eu fui até lá, fiz alguns workshops com Julie, voltei para casa e duas semanas depois ela me ligou e disse: ‘quero que você seja Jude’. Foi maravilhoso!

“E você soube que aquilo mudaria sua vida para sempre…”

Sim, 100 por cento. E era algo que queria tanto naquele momento. Havia passado por alguns momentos bem difíceis nos anos anteriores, que aquilo foi quase como ‘por favor, me dê este papel, por favor, eu sou perfeito…’. Eu realmente achava que estava dando muito duro, sem nenhum reconhecimento até aquele momento. Doei todo o meu sangue, mente e corpo para a banda, e aquilo foi um grande fracasso. Então ser escolhido foi uma grande oportunidade, e serei eternamente grato à Julie por ter acreditado em mim!

(tradução e adaptação de Robledo Milani)

Um Amor de Tesouro

domingo, março 23rd, 2008

Mais uma comédia romântica chegando aos cinemas. E o que UM AMOR DE TESOURO tem de especial em relação às anteriores? Absolutamente NADA! É mais do mesmo, sem sombra de dúvidas. Então, por que assisti-la? Bem, talvez você não tenha nada melhor para fazer. Talvez já tenha visto todos os outros filmes em cartaz. Ou talvez queira somente ver Matthew McConaughey sem camisa. Em qualquer um destes casos, apesar de todos os elementos contrários, uma coisa é certa: você irá se divertir!

A trama não poderia ser mais básica: tesouro secular perdido no Caribe é perseguido por casal em crise. Na cola deles há um milionário entediado, uma pseudo celebridade em busca de ação, um rapper fora-da-lei e o antigo mentor do mocinho. Muita gente pra pouca coisa a ser feita. O que acontece, então? Muitos têm pouco tempo em cena – como o ótimo Ray Winstone (OS INFILTRADOS), aliás, o que ele faz aqui? – enquanto outros ficam andando de um lado para o outro como se estivessem literalmente perdidos – caso de Donald Sutherland, o pai de Kiefer Jack Bauer Sutherland, que deveria se concentar mais nos ótimos papéis que tem recebido na televisão (Commander in Chief, Dirty Sexy Money) e esquecer de vez o cinema. Para nós, espectadores, resta se divertir com o casal de cozinheiros gays (dá-lhe estereótipo, mas enfim…) ou com os protagonistas, McConaughey e Kate Hudson, que já haviam provado terem química de sobra juntos no inferior COMO PERDER UM HOMEM EM DEZ DIAS, e que demonstram claramente estarem aproveitando cada momento de sol, mar e alegria do set de filmagens!

UM AMOR DE TESOURO recicla vários outros sucessos recentes, a começar, claro, pela trilogia PIRATAS DO CARIBE (algumas seqüencias são idênticas a outras vistas em O BAÚ DA MORTE, o segundo filme da série). O diretor Andy Tennant mostra que tem algum domínio do assunto (no currículo do cara estão HITCH – CONSELHEIRO AMOROSO, DOCE LAR e ANNA E O REI), apenas se preocupando em criar espaço para seu elenco brilhar. E já que não chega a atrapalhar, já saímos ganhando. É assumidamente cinema-pipoca, e talvez justamente por isso, pela baixa expectativa que gera, é que pode acabar ganhando alguns pontos dos desavisados – como foi meu caso. Entrei no cinema não esperando nada, e ainda levei de lucro algumas risadas e duas horas leves e descompromissadas. Não vai mudar a vida de ninguém, mas cumpre à contento o que promete. E honestidade em Hollywood é algo que deve ser levado em conta, sempre. E, claro, não esqueça: McConaughey está sem camisa!

Fool’s Gold, EUA, 2008
(nota 6)

10.000 A.C.

quarta-feira, março 12th, 2008

Assisti pela manhã, junto com a imprensa especializada, a principal estréia da semana – ao menos a mais esperada pelo público, com grandes expectativas: 10.000 A.C. é o novo blockbuster do diretor alemão Roland Emmerich, o mesmo de INDEPENDENCE DAY e O DIA DEPOIS DE AMANHÃ. Assim como em todos os seus filmes anteriores (e podemos incluir GODZILLA e STARGATE nesta equação), Emmerich volta a dar mais atenção ao visual de suas tramas do que no enredo propriamente dito. Não é exigido absolutamente nada do espectador ao acompanhar o desenrolar dos acontecimentos – que, muitas vezes, são lentos e aborrecidos, provocando mais tédio do que envolvimento. Por outro lado, quando a máquina de efeitos especiais hollywoodiana entra em ação, o resultado é mais uma vez impressionante. Pena que não haja um bom equilíbrio entre estes dois lados.

Em 10.000 A.C., somos levados até a pré-história e colocados diante da saga de um homem destinado a se tornar o herói do seu povo. O filme começa bem, com bons efeitos – a manada de mamutes é muito bem feita, tecnicamente e contextualmente. Mas logo tudo descamba para ser “mais do mesmo”. As referências são as mais óbvias possíveis: JURASSIC PARK, APOCALYPTO, KING KONG e todas as demais produções do gênero são recicladas aqui, sem muita originalidade ou ousadia. O esquema videogame é seguido à risca, e o fato de estarmos numa outra era é apenas um pretexto de marketing – e não um aliado na missão de conquistar a audiência. Assim, logo estamos nos perguntando o porquê do título, para em seguida voltarmos a nos questionar até quando o cinema norte-americano seguirá fazendo sempre os mesmos filmes, com as mesmas histórias.

O ritmo da narrativa é lento, o roteiro é simplista e pouco elaborado, a direção de arte é das mais artificiais possíveis, a maquiagem chega a ser constrangedora, e os atores estão no nível mais baixo da mediocridade. Nada que é mostrado chega a ser minimamente convincente. Em poucas palavras, o filme mostra um garoto tendo que liderar alguns poucos guerreiros numa jornada em busca de outros membros de sua tribo que foram seqüestrados por invasores. No caminho, enfrentam ameaças pré-históricas, como um tigre dente-de-sabre (extremamente falso, a ponto de ser risível, conseguindo ser pior até do que o leão de AS CRÔNICAS DE NÁRNIA) e aves monstruosas (numa seqüência idêntica ao ataque dos velociraptores em O PARQUE DOS DINOSSAUROS). No final o perigo que eles estão enfrentando passa a ser representado por seres que se assumem como divindades, e precisam de mais escravos para a construção das pirâmides. Deu pra sentir o tom de salada geral?

Os protagonistas são Steven Strait (O PACTO), um rapaz esforçado e com físico de super-herói, porém sem o menor carisma ou empatia, Camilla Belle (O MUNDO DE JACK E ROSE), filha de uma modelo brasileira, uma garota tão linda quanto inexpressiva, e Cliff Curtis (ENCANTADORA DE BALEIAS), o mais conhecido do elenco, porém com poucas chances debaixo de uma caracterização horrorosa. Emmerich, que além da direção assina também o roteiro e a produção, não foge do que já está acostumado a fazer. E se a batalha final chega a emocionar por alguns rápidos momentos, a conclusão não poderia ser mais clichê. Se você já assistiu a todos os concorrentes ao Oscar em cartaz e quer passar duas horas no cinema com muita pipoca e refrigerante, sem pensar em mais nada, não desista: tenho certeza que irá encontrar melhores opções do que este 10.000 A.C.!

10.000 b.C., EUA/Nova Zelândia, 2008
(nota 4)

Império dos Sonhos

domingo, janeiro 6th, 2008

Um amigo me disse ter se sentido ofendido após as três horas de duração de IMPÉRIO DOS SONHOS, nova loucura assinada por David Lynch. Já outro afirmou ter baixado o filme pela internet logo que o encontrou disponível, e que já o tinha assistido no mínimo umas cinco vezes antes da estréia nos cinemas brasileiros (onde foi conferir novamente, apenas pelo “prazer da tela grande”). Eu, por outro lado, não sei muito o que dizer. Afinal, como criticar – para o bem ou para o mal – algo que você simplesmente não entendeu?

E acredito também que a idéia seja exatamente esta: provocar muito mais dúvidas do que esclarecimentos. Para se ter uma idéia, durante uma entrevista a um programa de televisão, Lynch e Laura Dern, a protagonista, não conseguiram chegar a um acordo a respeito de quantos papéis ela própria interpreta no filme, se três ou quatro. Bem, se nem eles, que idealizaram o longa, conseguem se entender, o que sobra para nós, meros espectadores?

IMPÉRIO DOS SONHOS começa com uma garota assistindo a um programa na televisão. Parece ser um sitcom – um único cenário, claquetes com risadas da platéia – em que os personagens são seres humanos com cabeças de coelhos. Logo em seguida estamos na majestosa residência de uma atriz aparentemente famosa, que está em vias de voltar ao estrelato por conseguir um papel bastante disputado. É o remake de um filme que não chegou a ficar pronto, sobre uma família polonesa assassinada. Os protagonistas do filme original morreram durante a produção, e tem-se este temor que o mesmo aconteça durante as novas filmagens. Um grupo de prostitutas também pontua algumas situações, assim como uma mulher que está contratando um detetive particular. Ah, e há também uma família que recebe uma trupe de viajantes da Europa oriental para um churrasco no jardim (!).

Qual a relação entre todas estas histórias? Aparentemente, nenhuma. Por outro lado, talvez todas estas tramas revelem facetas de uma mesma mulher. A atriz decadente que revive o papel de uma estrela de outrora que está trazendo à vida uma sofrida dona de casa polonesa que suspeitava que o marido a estava traindo e que por isso ansiava por ter uma vida familiar tranquila e perfeita e que, pela ausência dessa realidade, imagina-se prostituindo-se em troca de um pouco de atenção e, pela inevitabilidade disto, termina de forma trágica. Ou então seria a vizinha que aparece no começo do filme a verdadeira protagonista, a imigrante da Polônia responsável por todas aquelas tragédias e que manifesta-se naquele momento para alertá-la dos perigos que estaria prestes a correr? Muitas interpretações mais certamente são possiveis, e quem se dedicar a procurar não terá dificuldades em encontrar argumentos e elementos que colaborem nestas outras posições. IMPÉRIO DOS SONHOS é uma obra literalmente aberta, e caberá ao espectador e ao seu universo de referências montar – ou não – este quebra-cabeças.

Premiado no National Board of Review como “Melhor Filme Experimental” do ano (prêmio até então inédito) e merecedor de um prêmio especial no Festival de Veneza “pela inovação digital proposta em sua concepção”, IMPÉRIO DOS SONHOS, ao contrário de outros filmes de David Lynch, praticamente não possui dentro de si chaves que possibilitem um melhor entendimento. Hermético e bizarro, se comporta como os sonhos mais confusos e problemáticos que temos, indo do pesadelo ao descanso total em questão de instantes, para depois retomar condições até então esquecidas. Dern, a grande estrela da obra, se entrega de corpo e alma à visão aparentemente desconexa do diretor, aceitando todas as propostas de forma integral. Cada mudança dela é tão intensa quanto discreta, mostrando que é no interior de cada um onde se escondem os verdadeiros medos e desejos. E quem quiser embarcar nesta viagem não deve temer os bocejos, a frustração e a incompreensão, assim como deve estar pronto para os pequenos prazeres dispostos aleatoriamente durante o desenrolar da ação. Ganha quem aceitar mais – e procurar entender menos!

Inland Empire, EUA, 2006
(nota 5)

P.S. Eu Te Amo

quinta-feira, janeiro 3rd, 2008

Existem atrizes e atrizes, boas e más. Entre as boas, há aquelas melhores, que sabem fazer praticamente tudo (como Meryl Streep, para fazer uma escolha óbvia) e outras nem tanto, que são boas somente num tipo de personagem. Neste caso está Hilary Swank. Duas vezes vencedora do Oscar de Melhor Atriz, em ambos trabalhos premiados ela interpretava personagens duros, masculinizados (a garota que queria ser rapaz em MENINOS NÃO CHORAM e a lutadora de boxe de MENINA DE OURO). Portanto, quem a conhece minimamente sabe que, com este perfil, ela, definitivamente, nada tem a ver com o universo das comédias românticas. Portanto, partindo deste consenso, não é difícil imaginar o tamanho do desastre que é este P.S. EU TE AMO.

Swank está numa posição bastante desconfortável em Hollywood. Ela foi tão rapidamente – em menos de 10 anos – da posição de total desconhecida para a condição de uma das atrizes mais premiadas da América. Assim, ela simplesmente não pode se deixar envolver em qualquer projeto, da mesma forma que não conseguiu construir para si uma “persona” no mundo do cinema, uma carreira de “tipos” com os quais ela, assim como o público e a indústria, se identificasse além dos dois mais notórios. Pequenas participações de luxo em semifracassos como O DOM DA PREMONIÇÃO (2000) e DÁLIA NEGRA (2006) pouco contribuíram, mas ainda assim causaram menos prejuízo do que as bombas que contavam com ela em personagens heróicos (O NÚCLEO, 2003) ou misteriosos (A COLHEITA DO MAL, 2007). De destaque, mesmo, somente a coadjuvante de INSÔNIA (2002), ao lado de Al Pacino e Robin Williams, e um pequeno filme inspirado numa história real e lançado diretamente em dvd no Brasil: ESCRITORES DA LIBERDADE (2007).

Ao observarmos esta trajetória, talvez se entenda um pouco melhor o porquê de P.S. EU TE AMO. É a primeira vez que interpreta uma heroína romântica (terreno que fez a popularidade e a fortuna de estrelas como Julia Roberts, Sandra Bullock e Meg Ryan, por exemplo). E, por outro lado, está retribuindo um favor ao diretor Richard LaGravenese, responsável por este e pelo mais bem sucedido ESCRITORES. Se esse filme ele fez para ela – era um projeto pessoal dela – este mais recente atende a uma vontade de dele (e dela também, vamos combinar) de se tornar viável comercialmente. O problema é que, mesmo tendo por trás uma estratégia tão planejada, o resultado é frustrante, impossibilitando qualquer maior ambição.

P.S. EU TE AMO já começa errado: com o casal de protagonistas, Swank e Gerard Butler (300), discutindo. Percebe-se que os dois estão juntos há mais de uma década, e estes últimos anos não foram tão bons com eles – onde foram parar os sonhos da juventude? Após corte brusco, estamos no enterro dele, e ela acredita não ter mais razão para viver. Mas um plano desenvolvido antes da morte irá ajudá-la: no dia seguinte passam a chegar pelo correio cartas dele, enviadas não sabe-se por quem, mas que lhe repassam recados de como ele via a vida, e mais importante, de como ela deve reaprender a viver. Todas estas mensagens, obviamente, assinadas com um “p.s.: eu te amo”.

Se Swank e Butler não possuem a menor química juntos, os coadjuvantes se saem ainda pior. Lisa Kudrow (FRIENDS) e Gina Gershon (A OUTRA FACE) não convencem em nenhum instante como “melhores amigas”: cada uma quer aparecer mais do que a outra com tiradas cômicas superficiais, dificultando a identificação com o espectador. Harry Connick Jr. (WILL AND GRACE) e Jeffrey Morgan (GREY’S ANATOMY), ambos como prováveis candidatos ao coração da protagonista, estão desajeitados e pouco interessantes em suas intenções. Já a também oscarizada Kathy Bates parece deixar claro no mal humor de sua personagem sua insatisfação com estes papéis medíocres de “mãe de alguém” (como foi de Matthew MacConaughey em ARMAÇÕES DO AMOR). E se não há diversão do lado de lá da tela, imagina entre quem está estático sentado diante de todo este constrangimento!

P.S. I Love You, EUA, 2007
(nota 4,5)

O Amor nos Tempos do Cólera

quarta-feira, janeiro 2nd, 2008

Mike Newell, diretor de O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA, afirmou, numa das entrevistas de lançamento do filme, que estaria com mais medo da reação dos fãs do romance de Gabriel García Márquez do que dos adoradores de Harry Potter. Pois esse receio tem fundamento, uma vez que a versão cinematográfica de O AMOR… é infinitamente inferior ao longa anterior dele, HARRY POTTER E O CÁLICE DE FOGO (quarta aventura do menino bruxo criado por J.K.Rowling). Não só a direção é canhestra neste novo trabalho, como toda a composição envolvida nesta adaptação tem percalços, a despeito dos inúmeros talentos envolvidos no processo.

A história é bastante conhecida: rapaz pobre se apaixona por menina rica e decide esperar por ela o quanto for preciso. O pai dela, ao saber do romance, a manda para o interior, para a casa de familiares. Anos depois, quando volta, afirma não sentir mais nada por ele, e acaba casando com um médico famoso. Ele não se conforma com a recusa, e em cada mulher que se envolve procura um pouco dela. Mais de 50 anos depois, quando ela fica viúva, ele reaparece, pedindo-a em casamento. Apesar da proposta ser recusada com veêmencia, aos poucos ela vai cedendo, até que o “amor eterno” dele finalmente se concretize.

O inglês Mike Newell sabe contar histórias de amor – vide o imenso sucesso de seu filme mais elogiado, QUATRO CASAMENTOS E UM FUNERAL. O problema aqui é a vontade de se intrometer num mundo que lhe é completamente estranho – e o fato do roteiro ter sido escrito pelo sul-africano Ronald Harwood (vencedor do Oscar por O PIANISTA) não colabora muito. O que para os latinos soa ardente e sexy, na visão européia pode se transformar em caricaturesco e irônico. E é o que muitas vezes acontece, desde pequenos detalhes até mesmo na composições de personagens fundamentais. E, assim como visto em filmes como A CASA DOS ESPÍRITOS, esse “olhar estrangeiro” não será competente o suficiente para captar todas as nuances propostas pela obra original.

O elenco internacional é um caso à parte. O espanhol Javier Bardem (MAR ABERTO) é uma escolha mais do que acertada como o protagonista Juvenal, e ele por si só já faz valer o ingresso. Cada gesto, cada manifestação de desejo, amor ou frustração ganha uma magnitude inesperada quando envolta pelo olhar deste ator fenomenal. Por outro lado, a italiana Giovanna Mezzogiorno não consegue ficar à altura dos bons trabalhos feito em seu país natal, como os memoráveis O ÚLTIMO BEIJO ou A JANELA DA FRENTE. Submissa, acaba sucumbindo tal qual sua Fermina, passando pela tela sem se fazer notar. A colombiana indicada ao Oscar Catalina Sandino Moreno (MARIA CHEIA DE GRAÇA) pouco faz com o tempo escasso que tem em cena, assim como os americanos Liev Schreiber (SOB O DOMÍNIO DO MAL) ou Benjamin Bratt (MISS SIMPATIA). Já o também colombiano John Leguizamo (MOULIN ROUGE) é um desastre: tudo bem que o pai da moça precisa deixar claro sua contrariedade quanto à atração da filha pelo pobre rapaz, mas seus exageros o fazem se assemelhar mais a um sanguinário assassino do que a um homem de posses tentando defender sua honra. Por fim, felizmente, uma boa notícia: a estréia da nossa Fernanda Montenegro num projeto hollywoodiano está acima de qualquer deslize da produção. Mesmo num papel secundário, ela injeta uma vitalidade singular e fundamental na história. Os momentos de preocupação com o filho devoto a um amor improvável até a loucura final se alternam com suavidade e total controle, mostrando que não é o tamanho do personagem que faz diferença quando há experiência e sabedoria em jogo.

Fernandona, aliás, não é a única brasileira na equipe de O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA: o diretor de fotografia, responsável por cenas belíssimas, é Affonso Beato (que já trabalhou com Cacá Diegues e Pedro Almodóvar), enquanto que a trilha sonora ficou à cargo de Antonio Pinto (de CIDADE DE DEUS, COLATERAL e O SENHOR DA GUERRA, entre tantos outros). O trabalho deste, em conjunto com a pop star Shakira, aliás, responde pela única indicação do filme ao Globo de Ouro: Melhor Canção, para “Despedida”. Um reconhecimento justo, porém muito aquém da expectativa levantada quando sua realização teve início. Estivesse passado pelas mãos de cineastas mais familiarizados com este universo, como Walter Salles ou Alfonso Cuarón, certamente o resultado teria sido muito diferente. E o fato de ser todo falado em inglês não colabora em absolutamente em nada: nem no faturamento internacional, uma vez que arrecadou menos de US$ 5 milhões nos Estados Unidos, apesar de ter custado quase 10 vezes este valor! Por fim é mais um produto multicolorido feito para turista se entreter por alguns trocados e por poucos minutos – e, dessa forma, esquecer logo em seguida, assim como todos os envolvidos em ambos os lados da tela!

Love in the Time of Cholera, EUA, 2007
(nota 6)

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