segunda-feira, novembro 2nd, 2009
Eleito para ser o representante brasileiro na disputa por uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, “Salve Geral” só nos dá uma certeza: a de que estamos fora do páreo (mais…)
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quinta-feira, agosto 13th, 2009
O dia começa cedo para os cinéfilos presentes ao 37º Festival de Cinema de Gramado. Na terça-feira, terceiro dia de atividades, às 09h da manhã, já havia sessão no Centro Municipal de Cultura (mais…)
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domingo, fevereiro 22nd, 2009
O prêmio de Melhor Montagem é um dos mais importantes indicativos de quem irá vencer a principal estatueta do ano, a de Melhor Filme. Isso acontece porque, analisando o histórico da Academia, há uma relação mais forte entre estes dois resultados do que o de Filme e Direção, por exemplo! São raros os casos em que o vencedor aqui não sai premiado lá também – e mais ocasionais ainda são quando os premiados não são sequer indicados nas duas categorias. Mas isso pode acontecer – como no ano passado, quando “O Ultimato Bourne” ganhou aqui, sem mesmo concorrer à Melhor Filme.
Vai ganhar: “Quem Quer Ser um Milionário?”
Merece ganhar: “Quem Quer Ser um Milionário?”
And the Oscar goes to… “QUEM QUER SER UM MILIONÁRIO?”
“Batman – O Cavaleiro das Trevas”
Qualquer produção que ultrapasse as duas horas de duração já perde pontos neste quesito – e esta aqui possui 152 minutos! Mesmo assim, dispõe a história de forma inteligente e bastante envolvente, e isso se deve principalmente ao trabalho realizado na sala de edição. Com tantas tramas importantes acontecendo simultaneamente e pelo belo resultado apresentado, o reconhecimento é mais do que justo. Foi indicado ao prêmio do Sindicato dos Editores, ao Bafta e ao Satellite. Esta é a segunda indicação ao Oscar do editor Lee Smith – ele concorreu antes por “Mestre dos Mares”, em 2003.
“O Curioso Caso de Benjamin Button”
Este talvez seja o filme que apresenta a edição mais problemática dos cinco indicados – e, portanto, é o mais fraco dos concorrentes. É o mais longo de todos – são quase três horas! E tudo isso para contar a história da vida de um homem excepcional, que nasceu velho e foi rejuvenescendo com o passar dos anos. São muitos detalhes – como as idades dos personagens em cada momento da trama – que precisam ser cuidados, e nem sempre eles se apresentam satisfatoriamente. Foi indicado ao Bafta e ao prêmio do Sindicato dos Editores. Esta é a primeira indicação ao Oscar dos editores Kirk Baxter e Angus Wall.
“Frost/Nixon”
Dono de um trabalho muitíssimo interessante, entre os tantos méritos deste filme está sua edição, responsável por capturar a atenção do espectador mesmo diante de um resultado já conhecido – afinal, trata-se de um fato verídico! Foi indicado ao Bafta, ao Satellite e ao prêmio do Sindicato dos Editores, e ganhou o prêmio dos Críticos de Las Vegas. Esta é a quarta indicação ao Oscar dos editores Mike Hill e Dan Hanley – os dois ganharam por “Apollo 13″, em 1995, e foram indicados também por “Uma Mente Brilhante” (2001) e por “A Luta da Esperança” (2005) – curiosamente, todos filmes dirigidos pelo mesmo Ron Howard!
“Milk – A Voz da Igualdade”
Igualmente inspirado numa história real, esta cinebiografia apresenta uma edição muito linear, que pouco se destaca no contexto global do projeto – o que diminui bastante as suas chances. Este foi um filme difícil de ser aceito, e que foi ganhando força com o decorrer da temporada – teve apenas uma indicação ao Globo de Ouro e chegou no Oscar lembrado em 8 categorias! E, se o roteiro e a atuação do protagonista são arrebatadores, o mesmo não pode ser dito da montagem – competente, porém convencional. Foi indicado ao prêmio do Sindicato dos Editores. Esta é a primeira indicação ao Oscar do editor Elliot Graham.
*“Quem Quer Ser um Milionário?”
Grande favorito aos principais prêmios do ano, nesta categoria também chega já na condição de vencedor – só não sairá premiado caso algo muito inesperado aconteça! A montagem do filme só não é mais inovadora porque lembra muito o brasileiro “Cidade de Deus” (que, inclusive, também foi indicado pelo mesmo trabalho em 2003!). Mas é uma produção dinâmica, envolvente e muito criativa, com participação definitiva no ótimo resultado final! Ganhou o prêmio do Sindicato dos Editores, dos Críticos de Boston, de Phoenix e o Bafta, além de ter sido indicado ao Satellite. Esta é a primeira indicação ao Oscar do editor Chris Dickens.
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domingo, fevereiro 8th, 2009
O ano de 2008 foi excelente para a sétima arte. Os próprios indicados ao Oscar já apontavam para este fato. Mas como a seleção que vimos no início do ano passado eram produções de 2007 e os que concorrem desta vez ainda não estrearam por aqui, tive que restringir minha lista a outros títulos, talvez não tão premiados, mas certamente merecedores de muitos aplausos. São produções do Brasil, França, Turquia, Japão, e, claro, Estados Unidos, que vão desde animações à musicais, de aventuras de super-heróis à comédias de humor negro. Ou seja, tem um pouco de tudo.
Preferi deixar de fora desta minha seleção escolhas um tanto que óbvias, porém que não dizem muito respeito à temporada 08. Estão entre estes títulos fantásticos, como “Sangue Negro”, “Desejo e Reparação”, “O Escafandro e a Borboleta”, “Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto”, “Longe Dela”, “A Família Savage”, “O Gângster” e “Senhores do Crime”, todos concorrentes à última festa do Oscar. Com exceção dos dois primeiros, vencedores em poucas categorias, todos os demais não foram vitoriosos – o que não diminui em nada seus méritos. Merecem ser descobertos! Assim como o meu seleto Top Ten abaixo:
10. “A Culpa é do Fidel!” (La Faute à Fidel!, França/Itália)
Um comovente drama político que tem como ponto de vista a curiosidade e a incompreensão infantil. Apesar de se passar na França, tem como cenário de fundo os movimentos revolucionários na América do Sul, em especial no Chile. Bonito, envolvente e muito bem filmado, representa também uma nova geração apta a grandes trabalhos: Julie Gavras, a diretora, é filha de Costa-Gavras, polêmico cineasta grego diretor de filmes como “Z” e “Amén”, enquanto que a protagonista, Julie Depardieu, é filha do ator francês Gerard Depardieu.
09. “Chega de Saudade” (Brasil)
Este drama contemporâneo nacional com toques de musical é simplesmente apaixonante. Laís Bodansky, a diretora, mostra de vez que “Bicho de Sete Cabeças” não foi um caso à parte em sua filmografia, entregando agora uma obra tão boa quanto, senão superior. E isso sem falar do elenco, que de Betty Faria à Cássia Kiss, de Tônia Carrero à Maria Flor, de Stepan Nercessian a Leonardo Villar está, no mínimo, “perfeito”.
08. “Ensaio Sobre a Cegueira” (Blindness, Canadá/Brasil/Japão)
Fernando Meirelles, depois de “Cidade de Deus” e “O Jardineiro Fiel”, resolveu partir para um desafio ainda maior: adaptar o livro do escritor português premiado com o Nobel, José Saramago. Filmado em Toronto, São Paulo e Montevidéu, com elenco multinacional e financiado até por japoneses, tem esse ar cosmopolita que deixou muita gente confusa. Mas o que dizer quando o próprio Saramago, após assistir ao longa, às lágrimas, disse: “estou tão emocionado agora como estive quando terminei de escrever o livro”?
07. “Trovão Tropical” (Tropic Thunder, EUA)
Ben Stiller tem seu lugar garantido como ator e, principalmente, comediante. Mas ele ainda precisava mostrar algo como cineasta. Afinal, nem “O Pentelho” ou “Zoolander”, apesar de ótimos, deixavam de ter seus momentos irregulares. Mas com “Trovão Tropical” não restam mais dúvidas: o cara é um gênio. Debochando de Hollywood, dos reality shows e dos filmes de guerra, ainda conseguiu colocar astros como Tom Cruise e Matthew MacConaughey em papéis minúsculos e ridículos. E quem tem coragem de dizer que Robert Downey Jr. não merece o Oscar? Irresistível!
06. “Mamma Mia!” (EUA/Inglaterra/Alemanha)
Podem dizer o que quiser: que a peça teatral era muito melhor, que a diretora não sabe dominar os elementos cinematográficos, que as músicas são batidas, que é tudo um grande videoclipe. Mas, no final, como não sair cantando e com vontade de dançar após uma sessão de “Mamma Mia!”? Meryl Streep está fabulosa (e ela vem aí em “Dúvida”), o elenco todo está muito bem ajustado (sim, até Pierce Brosnan…), o cenário das Ilhas Gregas é um total deslumbre e as canções estão perfeitas, mesmo diante de um enredo aparentemente tolo, porém muito bem amarrado. O filme “evento” do ano!
05. “Queime Depois de Ler” (Burn After Reading, EUA/Inglaterra/França)
A melhor comédia do ano. O melhor elenco jamais reunido com uma simples missão: ser, cada um, o mais idiota possível! Como não amar? Brad Pitt e Frances McDormand estão soberbos, e George Clooney, John Malkovich e Tilda Swinton não ficam muito atrás. Repleto de frases emblemáticas, tiradas muito espirituosas e um contexto absurdamente envolvente (trilha sonora, fotografia), o roteiro original criado pelos irmãos Coen logo após conquistarem o Oscar por “Onde os Fracos não têm Vez” é uma verdadeira pérola. De rir do início ao fim! Não é mesmo, Osbourne Cox?
04. “Do Outro Lado” (Auf der Anderen Seite, Alemanha/Turquia/Itália)
Depois de conquistar o mundo com o poderoso “Contra a Parede”, o cineasta alemão de origem turca Fatih Akin entrega um longa ainda mais completo e envolvente. “Do Outro Lado” ilustra bem a falsa idéia de que “a felicidade está sempre em outro lugar, e nunca onde estamos”, um mal que atinge muita gente. A história começa em Berlim, mas logo passa para Istambul, para depois voltar à capital alemã para, quando menos esperamos, retornar à Turquia. E indo de um lado ao outro mostra um cenário de diferenças, paixões, arrependimentos e perdões. Maravilhoso!
03. “Era Uma Vez” (Brasil)
Breno Silveira, depois de conquistar o país inteiro com “Dois Filhos de Francisco”, levou o drama romântico de ‘Romeu e Julieta’ para a beira da praia de Copacabana, em pleno Rio de Janeiro. E o resultado é o filme mais apaixonante, triste e comovente do ano. Impossível não se envolver com a história do garoto do morro que se encanta com a menina rica do asfalto e das dificuldades que os dois terão que enfrentar para ficarem juntos. Mesmo que o final trágico seja anunciado com mais força do que se poderia esperar – ou, mesmo, evitar. Cinema brasileiro de alta qualidade, que consegue se comunicar com o público apostando na melhor das técnicas: honestidade dos sentimentos.
02. “Batman – O Cavaleiro das Trevas” (The Dark Knight, EUA)
E quem disse que filme de super-herói baseado em histórias em quadrinhos não pode ser um verdadeiro clássico? Produção de maior bilheteria do ano e um dos maiores sucessos de público de todos os tempos, ainda levou 8 indicações ao Oscar e promete fazer História! Como muito já se disse, é um impressionante thriller de ação e suspense, com a fundamental diferença de ter como protagonista um homem fantasiado de capa e máscara e como vilão um demente transtornado e completamente imprevisível. Chris Nolan elevou o gênero a uma categoria acima do que se vinha tratando até então, mostrando com sabedoria, respeito ao tema e muito cuidado como criar um trabalho inesquecível.
01. “Wall-E” (EUA)
E quem disse que ‘animação’ é um gênero inferior de se fazer cinema? Depois de anos conquistando público e crítica com obras nada menos do que geniais, a Pixar levou aos cinemas em 2008 sua obra prima: “Wall-E”! O conto do robozinho limpa-lixo que termina por salvar o planeta Terra do descaso total merece todos os aplausos possíveis, e o diretor Andrew Stanton (“Procurando Nemo”) usa todo o potencial a sua disposição para criar uma trama absurdamente cativante, que brinda a inteligência do espectador com muito respeito e emoção. Um clássico instantâneo, que nasce já como referência para gerações futuras e oferecendo um novo significado à expressão “arte cinematográfica”.
Como disse no início deste texto, 2008 foi um ano impressionante. E, aqueles que não foram muito atentos durante os 12 meses que se passaram, devem ir atrás não só destes títulos, mas também de outros trabalhos merecedores de atenção. São obras impressionantes, como o mexicano “Zona do Crime”, o brasileiro “Linha de Passe”, de Walter Salles e Daniela Thomas, as duas performances de Penélope Cruz em “Vicky Cristina Barcelona” e “Fatal”, o arrebatador e chocante “O Nevoeiro”, baseado num conto de Stephen King, e até mesmo a nova aventura de “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, de Steven Spielberg, que recriou com maestria o clima das matinês do início dos anos 80. Grandes e boas opções, que mostram que a diversidade foi o tom mais marcante de um ano repleto de boas surpresas!
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sábado, novembro 22nd, 2008
“Última Parada 174” está longe de ser um filme ruim. O problema é que não está perto, também, de ser bom. Ou seja, é um trabalho medíocre, que fica no meio do caminho, frustrando expectativas e idealizações. Inspirado na história real do seqüestro ao ônibus 174 no Rio de Janeiro – trama que já tinha rendido um excelente documentário, “Ônibus 174”, de José Padilha, o mesmo diretor de “Tropa de Elite” – o filme ficcional ganha um verniz melodramático que, na tentativa de procurar uma identificação com o público, termina por afastá-lo ainda mais por despertar sentimentos contrários. “Última Parada 174” é um filme covarde, e esta é a pior avaliação que uma obra artística pode receber.
A família Barreto – os produtores Luiz Carlos e Lucy e os filhos deles, os diretores Fábio e Bruno – já foram considerados “reis” do Cinema Nacional. São responsáveis por obras emblemáticas da nossa cinematografia, como “Vidas Secas” (1963), “Terra em Transe” (1967), “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1976), “Bye Bye Brasil” (1979), “Memórias do Cárcere” (1984), “O Quatrilho” (1995) e “O Que é isso, Companheiro?” (1997), entre tantos outros. Só que eles ficaram perdidos no tempo, não souberam se adaptar. E enquanto surgiam novos talentos, como Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”, 2002), Walter Salles (“Central do Brasil”, 1998) e o próprio Padilha, os Barreto passaram a assinar longas terríveis, como “Bela Donna” (1998), “A Paixão de Jacobina” (2002) e “O Homem que Desafiou o Diabo” (2007), por exemplo. E este “Última Parada 174” é uma tentativa desesperada de atualização, porém sem se desligar de antigas manias.
Se não, vejamos. O roteirista chamado é o premiado Bráulio Mantovani, o mesmo dos já citados “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite”. E assim como ocorreu nestes filmes, a maioria do elenco é não-profissional, recrutado e treinado nas próprias comunidades carentes onde a ação se passa. Como produtor está Daniel Filho, que levou às telas praticamente todos os grandes lançamentos nacionais recentes (de “Era Uma Vez” a “Chega de Saudade”, de “O Ano em que meus pais saíram de Férias” a “Zuzu Angel”, de “2 Filhos de Francisco” a “Casa de Areia”, de “Cazuza – O Tempo Não Pára” a “Carandiru”… ufa!). Ou seja, tinha tudo para dar certo. Só que não deu.
Quem for ao cinema para assistir a “Última Parada 174” estará atrás de que? Do que aconteceu naquele ônibus, de quem eram as pessoas envolvidas e dos por quês por trás daquilo tudo. Bem, isso é justamente o que o filme não trás. Bruno e Bráulio preferiram se concentrar na triste história do protagonista da tragédia, o garoto Sandro do Nascimento (Michel Gomes), menino de rua órfão e de temperamento instável que é levado a um ato de loucura após repetidos abalos emocionais. A trajetória dele, aqui na ficção, é confundida com a de outro rapaz, de nome similar – Alessandro (Marcello Melo Jr.), mas conhecido como “Alê Monstro” – que é separado da figura materna ainda bebê e cresce com a pior das influências, já que foi criado pelo dono do tráfico no morro. Paralelo a tudo isso há ainda a mãe (Cris Vianna) deste, que passa a vida atrás do filho, e termina confundindo um pelo outro, e acolhendo Sandro – quando, na verdade, estava atrás era de Monstro.
Ou seja, uma história que poderia ter como cenário um contexto social muito mais forte e relevante acaba se contentando com a simples denúncia, com reviravoltas de novela e desencontros de folhetim. Os clichês transbordam, e quando finalmente chegamos ao que interessa – o ônibus, que surge após quase 2 horas de projeção – tudo passa tão rápido e anti-climático que não acreditamos que possa ter recebido um tratamento tão banal. Falta de tato do roteirista, em explorar melhor uma situação que merecia um olhar mais aprofundado, mas principalmente erro do diretor, que não soube dedicar a importância que o momento merecia dentro do seu longa.
Escolhido para representar o Brasil na disputa por uma indicação ao Oscar 2009 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, “Última Parada 174” foi selecionado para o Festival de Toronto e exibido na sessão de abertura do Festival do Rio. Feitos alcançados muito mais pela ainda força que os Barreto possuem no meio do que pelos méritos da obra em si. Este episódio é um belo reflexo do caso social e urbano em que vivemos, mas resultou na tela em algo óbvio, cansativo e redundante. Melhor para todos se tivesse ficado apenas no documentário.
Última Parada 174, Brasil, 2008
De Bruno Barreto
Com Michel Gomes, Marcello Melo Jr., Gabriela Luiz, Cris Vianna, Anna Cotrim, Tay Lopes, Douglas Silva, André Ramiro
(nota 5)
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quinta-feira, setembro 25th, 2008
O diretor Breno Silveira está longe de ser um novato no mundo do cinema. Mesmo assim, “Era Uma Vez…” é recém seu segundo longa-metragem, fruto de uma caminhada muito produtiva e que mostra agora resultados de qualidades indiscutíveis. Primeiro foi o fenômeno “2 Filhos de Francisco”, que levou mais de 5,4 milhões de brasileiros aos cinemas. E desta vez ele retorna com mais um trabalho de impressionantes méritos, tanto artísticos quanto técnicos.
Assim como diz o título, “Era Uma Vez…” é uma fábula. Assim, logo de imediato, já avisa que não há nada de ingênuo ou tolo na história do romance entre um favelado e uma menina rica da zona sul do Rio de Janeiro. Os realizadores sabem que estão falando de universos completamente diferentes, de vidas distantes e de fronteiras quase intransponíveis. Mas o que seria do homem se nos fosse tirada a capacidade de sonhar? Assim Breno e o roteirista Bráulio Mantovani (indicado ao Oscar por “Cidade de Deus”) compõem esse enredo de diferenças e igualdades, mostrando que o amor pode ser mais forte do que muita coisa, menos do que a realidade.
“Era Uma Vez…” é a adaptação definitiva do clássico romance “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, só que transposto para o Brasil deste início de século XXI. Romeu deseja Julieta de longe, ela, quando o conhece, se apaixona irremediavelmente. Um irá atrás do outro, e parece que nada poderá afastá-los. Mas ambos vivem em mundos diferentes, e suas famílias, seus amigos, suas histórias os forçam a caminhos opostos. Mas eles insistem, desafiando a tudo e a todos. E o final, bem… todo mundo sabe como termina.
São tantas as qualidades de “Era Uma Vez…” que é até um pouco complicado saber por onde começar. Mas vamos lá. O diretor já tinha esta idéia em mente antes mesmo do seu primeiro trabalho. Mas só a experiência ensina determinadas coisas, como paciência e detalhamento. Então, o que percebemos, é que este filme não poderia ter vindo em melhor hora. Breno sabe o que quer dizer, e estudou muito bem como dizer seu discurso. Sem ser didático, cansativo ou professoral, fala de temas próximos de muitos, mas que insistimos em fingir que nos é estranho. Tudo é proposto com muita calma e sabedoria, envolvendo o espectador de tal forma que será impossível não se identificar com o que transcorre na tela. Somos nós que estamos lá. E de lá não conseguiremos sair.
Outro ponto positivo é o elenco, principalmente a dupla de protagonistas. Thiago Martins, apesar de repetir uma composição muito próxima a vista recentemente em “Show de Bola” – o garoto que mora no morro, é educado, esforçado e inteligente, e sonha com uma vida melhor – tem uma delicadeza no olhar simplesmente encantadora. Já Vitória Frate, estreando no cinema, forma o par ideal com ele. Os dois atuam em plena sintonia, e a química que há entre eles é tão real que chega quase a ser palpável. Rocco Pitanga (vencedor do Kikito no Festival de Gramado por “Filhas do Vento”), como o irmão mais velho dele, Cyria Coentro, como a mãe dele, e Luana Schneider, como a melhor amiga dela, compõem um bom grupo de coadjuvantes. E se até Paulo César Grande, no papel do pai da garota, se sai bem, o que dizer dos demais?
Lançado no centro do país em julho, “Era Uma Vez…” dividiu a opinião da crítica, entre os cariocas que amaram e os paulistas só apontaram defeitos. Eu, como bom gaúcho, não tenho receio de entrar nesta briga e afirmo, sem ressalvas: este é o melhor filme nacional que assisti neste ano. Talvez haja obras mais relevantes, mais moralmente responsáveis ou socialmente produtivas, mas duvido muito. “Era Uma Vez…” fala direto com o coração, é não há como não se envolver nesta trama de anunciado final trágico. Felizmente, é tudo faz de conta. Ou não?
Era Uma Vez…, Brasil, 2008
De Breno Silveira
Com Thiago Martins, Vitória Frate, Rocco Pitanga, Paulo César Grande, Cyria Coentro, Luana Schneider, Felipe Adler, Fernando Brito
(nota 10)
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segunda-feira, setembro 8th, 2008
Apesar do Brasil ser “o país do futebol”, não sabemos aproveitar este “talento” nas telas de cinema. Foram poucas as produções que exploraram este universo, e as que se aventuraram tiveram resultados pouco significativos. “Show de Bola”, co-produção entre Brasil e Alemanha, é mais um exemplo destes que “quase chegam lá”, mas acabam ficando pelo caminho. O filme é legal, tem personagens fortes e um enredo bem amarrado. Mas não consegue fugir dos clichês mais óbvios, nem os intrínsecos ao gênero esportivo, muito menos aos que dizem respeito ao cenário em que a ação transcorre: as favelas do Rio de Janeiro.
Filmado em 2005, dirigido pelo alemão Alexander Pickl – estreando enquanto realizador – e contando com equipe técnica quase 100% estrangeira, tem sua marca verde e amarela no elenco, totalmente nacional, e no roteirista Renê Belmonte, o mesmo das comédias “Sexo, Amor & Traição” (2004) e “Se Eu Fosse Você” (2006). Isso, claro, sem falar das imagens que conferimos, todas captadas na capital carioca. Pois é lá onde estão os protagonistas desta trama que, em sua ambientação, lembra muito outros sucessos recentes, como “Cidade dos Homens” (2007), “Tropa de Elite” (2007) e o próprio “Cidade de Deus” (2002), claro. Jovens em condições sociais muito desfavorecidas buscando através da contravenção e/ou do esporte meios de melhorar de vida. E, é claro, este processo não será fácil nem livre de tragédias.
Tiago (Thiago Martins, que recentemente fez uma composição muito parecida no ainda inédito “Era Uma Vez”) é um rapaz que vive com o irmão mais velho e a mãe doente. Seu sonho é ser selecionado por um grande time de futebol, chamar atenção e acabar jogando na Europa. Mas para isso ele terá que enfrentar o gênio difícil do melhor amigo (Luís Otávio Fernandes, de “Bendito Fruto”), que acabará lhe levando a tomar más decisões, as intromissões do maior bandido do morro (Lui Mendes, de “A Partilha”), e a paixão que desenvolve pela irmã deste, além dos problemas em casa: desentendimentos com o irmão, insatisfação com a condição materna e a falta de dinheiro.
Thiago, revelado em “Cidade de Deus”, é um ator bastante promissor. Ele carrega com muito empenho a condição de principal condutor desta história que, se não é novidade para nós, brasileiros, talvez tenha mais apelo no exterior. O título “Show de Bola” tanto pode ser entendido como algo que dá muito certo – e, neste caso, a denominação abusaria da ironia – ou faria referência ao talento do rapaz. Infelizmente, no entanto, não faz jus à obra em si, que está longe de merecer tantos aplausos. Uma edição muito picotada, uma trilha sonora óbvia e uma fotografia mesmerizada contribuem para o fraco impacto provocado. E se o objetivo é provocar tanto entusiasmo quanto o que os brasileiros estão acostumados a vivenciar nos estádios de futebol, é sinal que falta muito a ser feito ainda.
Show de Bola, Brasil/Alemanha, 2008
De Alexander Pickl
Com Thiago Martins, Lui Mendes, Luís Otávio Fernandes, Naima Santos, Sandra Pêra, Gabriel Mattar
(nota 6)
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sexta-feira, julho 4th, 2008
Foi num show de Luís Melodia que pensei: quantos cantores já se aventuraram como atores no nosso cinema nacional? Daí chamei outros jornalistas e críticos que estavam por ali e começamos a listar outros artistas da música que já se aventuraram pela tela grande. Isso aconteceu durante a minha passagem no 10º FICA – Festival Internacional de Cinema Ambiental, no início de junho na Cidade de Goiás, GO. Sim, porque o show de encerramento do festival foi com Luís Melodia. E enquanto curtia músicas como “Codinome: Beija-flor”, pensei com meus botões: “o que Luís Melodia tem a ver com cinema?” Afinal, estávamos numa festa cinematográfica! Foi quando lembrei dele atuando nos filmes “Quase Dois Irmãos” (2004, cena ao lado) e “Casa de Areia” (2005). E estes foram os 10 cujos desempenhos interpretando personagens mais nos impressionaram.
10. Elba Ramalho: Faz muito tempo que essa paraibana não atua, sem deixar muitas saudades – afinal, seu último trabalho no cinema foi em “Lambada – O Filme”, de 1990, feito a toque de caixa no auge desta moda felizmente passageira. Mas antes disso Elba teve participações de destaque em filmes como “Ópera do Malandro” (cena ao lado), de 1986 (que conta ainda no elenco com uma pequena participação de Bebel Gilberto), e “Morte e Vida Severina”, de 1977 (que tem Tânia Alves como protagonista!).
09. Paulo Miklos: Ele já declarou mais de uma vez que não é ator. Mas bastou participar de apenas um filme que o integrante da banda Titãs se transformou numa das maiores revelações do cinema nacional na última década. O que Miklos fez em “O Invasor” (2002, cena ao lado) surpreendeu a todos, além te lhe ter garantido três dos maiores prêmios do nosso cinema: no Festival de Brasília, de Miami e no Oscar Nacional, o Grande Prêmio de Cinema Brasil. E tudo isso só na estréia. A pequena participação em “Estômago” (2007) não chegou a entusiasmar, mas ele já tem dois novos filmes previstos para chegar às telas nos próximos meses. Tá bom ou quer mais?
08. Evandro Mesquita: O líder da Blitz nunca largou o rock, mas foi no cinema e na televisão que ele conquistou de vez o público. E filmes como “Menino do Rio” (1982), “Não Quero Falar Sobre Isso Agora” (1991), “Gêmeas” (1999, cena ao lado), “Os Normais” (2003), “O Diabo a Quatro” (2004) e “Coisa de Mulher” (2005) mostram bem o lado garoto deste cinquentão!
07. Toni Garrido: Ele teve pequenas participações em filmes como “Dias Melhores Virão” (1989), “Como Ser Solteiro” (1989) e “Deus é Brasileiro” (2003), mas foi como o protagonista de “Orfeu” (cena ao lado), de 1999, dirigida por Carlos Diegues, que o líder do Cidade Negra mostrou ter dotes muito além dos vocais.
06. Sidney Magal: o homem que ficou famoso afirmando que “o meu sangue ferve por você!” pode ser um bom ator, por mais incrível que isso possa parecer. E foi só recentemente, em filmes como “O Caminho das Nuvens” (2003, cena ao lado) e “Um Lobisomem na Amazônia” (2005) que descobrimos esta faceta – afinal, as participações de Magal em longas como “O Sexo das Bonecas” (1974) e “Amante Latino” (1979) não podem ser levadas muito à sério!
05. Antônia: Desta vez não vou me referir somente a um artista da música, mas sim a um grupo inteiro! É o “Antônia”, que apareceu pela primeira vez na série de televisão e depois no filme homônimo de 2007 dirigido por Tata Amaral. Negra Li, Cindy, Leilah Moreno e Quelynah se uniram na ficção e levaram esta idéia para a vida real, mostrando que nem tudo é pura fantasia!
04. Tony Tornado: “Fuscão Preto” e “BR3” são clássicos do cancioneiro nacional. Mas muita gente já esqueceu que Toni Tornado começou como cantor, já que nos últimos anos ele só tem marcado presença atuando. E filmes como “Pixote, A Lei do Mais Fraco” (1981, cena ao lado), “Quilombo” (1984), “Os Trapalhões e o Mágico de Oróz” (1984), “Vai Trabalhar, Vagabundo II” (1991), “Redentor” (2004) e “1972” (2006) mostram bem seu talento criando novos personagens.
03. Seu Jorge: este é um verdadeiro fenômeno. É ator ou cantor? Surgiu como um relâmpago no meio do impressionante elenco de “Cidade de Deus” (2003), e logo em seguida já estava ao lado de nomes como Bill Murray, Cate Blanchett e Anjelica Huston em “A Vida Marinha de Steve Zissou” (2004), para logo depois voltar ao Brasil em “Casa de Areia” (2005, cena ao lado). E ele tem 3 novos filmes internacionais prestes a estrear, ao mesmo tempo que leva com tranquilidade sua carreira musical.
02. Rita Lee: como esquecer da fantástica ruiva líder d’Os Mutantes, que interpretou uma artista internacional em “Dias Melhores Virão” (1989, cena ao lado), uma vizinha fofoqueira em “Durval Discos” (2002) e ganhou um Calunga de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival CinePE, em Recife, pela inconfundível voz da Rê Bordosa na animação “Wood & Stock: Sexo, Orégano & Rock’n’Roll” (2006)?
01. Roberto Carlos: uma vez rei, sempre majestade! Ele tem apenas três filmes de destaque no currículo, e todos feitos no início da carreira, entre o final dos anos 60 e início dos 70, e em todos interpretou sempre o mesmo personagem – ou seja, ele próprio. Mas Roberto Carlos é o Rei, ora bolas! E longas como “Em Ritmo de Aventura” (1968, cena ao lado), “O Diamante Cor-de-Rosa” (1968) e “Roberto Carlos a 300 km por hora” (1971) são marcos da cinematografia nacional!
E então, curtiram essa seleção? Ficou faltando alguém? Há tantos nomes, como Raimundo Fagner, Milton Nascimento, Cazuza, Sandra de Sá, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Gal Costa, Chico Buarque de Hollanda e Ronnie Von, que se fosse para ser mais preciso a lista seria enorme. Mas acredito que estes sejam os de maior destaque. Ou não? Deixe sua opinião!
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domingo, junho 29th, 2008
Ao contrário do que acontece na grande maioria das vezes, quando peças teatrais de sucesso servem de base para filmes (os exemplos são inúmeros, tanto no Brasil quanto no exterior), foi no cinema que o diretor João Falcão (“A Máquina”) foi buscar inspiração para o seu novo projeto nos palcos: “Ensina-me a Viver”, em cartaz desde o final do ano passado em São Paulo e que passou há pouco por Porto Alegre. O texto é de Colin Higgins (roteirista também de “Como eliminar seu chefe”, de 1980, e “A Melhor Casa Suspeita do Texas”, de 1982), e foi levado às telas em 1971 por Hal Ashby (“Muito Além do Jardim”, de 1979). E a peça, apesar de funcionar bem no palco, faz questão de em nenhum momento esconder sua origem cinematográfica. Uma sábia decisão do diretor.
O enredo é bastante simples, e muito conhecido. Harold é um jovem de 19 anos e deprimido, que vive simulando a própria morte. Maude é uma senhora de 79 anos excêntrica e divertida, desapegada dos bens materias e que aproveita cada minuto da vida. Um dia os dois se encontram num funeral, e aos poucos vão se envolvendo. Ela irá mostrar a ele o como é bom viver, e não levará muito tempo para esta amizade se transformar em amor verdadeiro. Os 60 anos que separam os dois será um empecilho apenas para a mãe do rapaz, chocada com a notícia. Só que a união dos apaixonados enfrentará uma decisão irrevogável de um deles.
No papel de foi de Ruth Gordon (vencedora do Oscar por “O Bebê de Rosemary”) está Glória Menezes. A gaúcha de Pelotas sempre foi reconhecida mais pela forte presença cênica e pela beleza, mas a idade está lhe fazendo bem. Assim como em seus últimos trabalhos nos palcos (“Jornada de um Poema” e “Ricardo III”), ela compõe uma personagem forte e profunda, que se no início provoca estranhamento, logo conquista o espectador. Ela é, mais uma vez, a atuação de maior destaque. Arlindo Lopes (que no cinema participou de “Cazuza – O Tempo Não Pára” e “Cidade de Deus”) é o verdadeiro protagonista, o jovem Harold. Indeciso entre o dramático e o irônico, não chega comprometer. Mas está longe de atingir os méritos de Bud Cort, que pelo mesmo papel foi indicado ao Globo de Ouro e ao Bafta. Outras presenças de destaque são da também gaúcha Ilana Kaplan (a mãe do garoto), como o alívio cômico, e Augusto Madeira, que desempenha com impressionante desenvoltura diversos personagens, como o padre, o general e o detetive de polícia.
Mas o melhor mesmo de “Ensina-me a Viver”, a peça, são seus aparatos técnicos. A cenografia criada por Sérgio Marimba conquista desde o início, quando os créditos são projetados em telas móveis. Estas mesmas “cortinas” ficam em movimento durante toda a trama, compondo um cenário simples e eficiente. O mesmo pode ser dito dos objetos de cena, baseados em projeto gráfico de Dulce Lobo. O ferro, o metálico, as estruturas até então frias vão ganhando calor, adquirindo vida com os acontecimentos. E a iluminação proposta por Renato Machado e a pesquisada trilha sonora dirigida por Rodrigo Penna completam este conjunto com louvor.
“Ensina-me a Viver” foi um filme que marcou época, e agora é resgatado por um trabalho teatral que justifica esta retomada. Não é uma peça que irá provocar polêmicas ou fortes discussões – mesmo tendo material para tanto – mas é um texto bonito, apresentado de forma competente e atraente. Estimula a reflexão, nem que seja por alguns poucos momentos, e ainda entretêm sem desrespeitar a inteligência do público. Melhor do que isso só uma refilmagem comandada por uma equipe ainda mais gabaritada.
Ensina-me a Viver (Harold and Maude)
Texto de Colin Higgins
Direção de João Falcão
Com Glória Menezes, Arlindo Lopes, Ilana Kaplan, Augusto Madeira
(nota 7,5)
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quarta-feira, março 12th, 2008
Segundo longa da diretora paulista Lina Chamie, A VIA LÁCTEA estreou sob fortes aplausos numa mostra não-competitiva do Festival de Cannes de 2007. Agora, quase um ano depois, finalmente chega às telas do Sul do país. E a conclusão é de que valeu à pena esperar! Este é um belo exemplo de um cinema mais autoral, mas que mesmo assim consegue se comunicar com o público – a inventividade e ousadia demonstrada na forma não esconde a objetividade e simplicidade do conteúdo. Estamos diante de uma história de amor, e não há dúvida alguma quanto a isso.
Marco Ricca, um dos mais interessantes atores do cinema brasileiro atual, é um professor quarentão em crise com a namorada mais jovem. Após uma discussão telefônica aparentemente banal que termina atingindo extremos, decide largar tudo o que estava fazendo para ir ao encontro da amada, do outro lado de São Paulo, e tentar uma reconciliação. O trânsito caótico da grande cidade interfere de forma decisiva neste processo, provocando atrasos, encontros inesperados, situações conflituosas e gerando inestimáveis oportunidades de reflexão. Nestes momentos temos a oportunidade de descobrir como eles se conheceram, como se comportavam, como estas duas vidas aos poucos se transformaram em uma… até onde estão agora, prontas – ou não – para seguirem caminhos opostos.
No outro lado da linha está a bela e talentosa Alice Braga, que depois de despontar em sucessos como CIDADE DE DEUS e CIDADE BAIXA – e antes de partir para o estrelato internacional de EU SOU A LENDA – aceitou marcar presença nesta obra tão singela e singular. Alice é um frescor de juventude, uma personalidade maleável, sexy e inocente, madura e ansiosa por novidades. Ela compõe um ótimo contraponto ao modo sisudo e recluso vivido por Ricca. E, da mesma forma que achamos natural o envolvimento dos dois, concluímos que não serão poucas as forças que tentarão separá-los – externas e, acima de tudo, internas.
O primeiro filme de Lina Chamie, TÔNICA DOMINANTE, de 2000, era ainda mais radical nesta proposta de se guiar mais por sensações, impressões e sonhos do que por uma lógica fechada e organizada. A VIA LÁCTEA, por outro lado, é dotado de mais elementos para agradar tanto os que buscam expressões mais únicas quanto àqueles atrás apenas de uma forma de entretenimento adulta e inteligente (como se fosse pedir pouco!). Se em determinadas passagens a diretora e roteirista parece exagerar na dose, criando um hermetismo desnecessário, no final somos presenteados com uma conclusão surpreendente e inesperada, mas que combina perfeitamente com tudo dito anterioremente. Mais um sinal de respeito – com a história, com os envolvidos e, claro, com o espectador. E isso sim é grande coisa!
A Via Láctea, Brasil, 2007
(nota 8)
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