“Salve Geral”
Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Especiais, Filmes, Guarani, Película
Data: segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Eleito para ser o representante brasileiro na disputa por uma indicação ao Oscar na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira, “Salve Geral” só nos dá uma certeza: a de que estamos fora do páreo. Afinal, poucas vezes nos últimos anos o longa nacional selecionado era tão desprovido de méritos. Talvez “Orfeu”, em 1999 (será uma sina a cada dez anos?) tenha sido o caso mais próximo. Pois desde então, todos os títulos escolhidos – “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite”, “O ano em que meus pais saíram de férias” – possuíam qualidades que os colocavam aptos à competição proposta. Até mesmo o equivocado “Última Parada 174”, do ano passado, era dono de mais elementos a seu favor.
O mais curioso a respeito desta seleção é que, pelos temas abordados pelos finalistas no processo, era de se apostar que o longa do diretor Sérgio Rezende seria o indicado. Afinal, apresenta vários dos quesitos relevantes a esta eleição, como tratar de uma questão urbana, envolvendo violência nas grandes cidades e, ao mesmo tempo, assumindo um viés humano, com uma forte figura feminina como protagonista. E talvez seja por isso mesmo que a frustração ao nos depararmos com o que vemos na tela seja tão grande.
O realizador de “O Homem da Capa Preta” e “Guerra de Canudos” decidiu, assim como em seu último trabalho (“Zuzu Angel”), ter uma mulher à frente do elenco. Quem desempenha este papel é Andréa Beltrão, que só não é a melhor coisa de todo o filme porque tem ao seu lado e igualmente ótima Denise Weinberg. As duas são as responsáveis por manter o espectador acordado durante a projeção. Ambas estão completamente entregues aos seus personagens, por mais passíveis de erros e moralmente equivocados que eles possam ser. Beltrão, assim como no pouco visto “Verônica”, agarra com todas as forças o papel que lhe é entregue, oferecendo ao menos algo que recompense o investimento do público. Assim como Weinberg (“Linha de Passe”), compondo uma coadjuvante por excelência numa atuação irretocável.
Lúcia (Beltrão) perdeu o marido há pouco, e com ele foi-se também o estilo de vida da família. Ela e o filho (o estreante Lee Thalor) se mudam
para o subúrbio e tentam se adaptar a nova condição. Ele, no entanto, não consegue esconder a revolta, e se joga às más companhias. Ao lado delas acaba se envolvendo num crime, que o leva à prisão. A partir deste ponto a mãe fará tudo que estiver ao seu alcance para soltá-lo, até mesmo se envolver com outros bandidos e servir de ajudante para uma advogada (Weinberg) de caráter bastante duvidoso. As coisas parecem estar dando certo, mas no dia do indulto do Dia das Mães de 2006, quando o garoto consegue sair do presídio para uma visita familiar, acontece o Salve Geral, quando o PCC – Primeiro Comando da Capital, facção criminosa que se impôs contra a repressão policial, decide tomar conta de São Paulo, simplesmente evacuando as ruas e instaurando um clima de terror nunca antes imaginado na maior cidade do país. E mãe e filho se vêem diretamente envolvidos nesta tragédia inimaginável.
O mais chocante de tudo é que como um produto tão morno pode ter sido feito a partir de um argumento tão explosivo como este. Os pontos problemáticos são vários e fáceis de apontar, no entanto. A começar pelo próprio perfil dos personagens, não muito fáceis de serem defendidos. É muito difícil se compadecer com o drama enfrentado pelos protagonistas, uma vez que tudo que lhes acontece é reflexo imediato das atitudes que tomam, e não infelizes casualidades do destino. Outro fator foi a decisão do cineasta em manter os acontecimentos no aspecto íntimo, pessoal, quando se sabe que mais de 20 milhões de pessoas foram diretamente afetadas por este episódio. A dimensão se perde, assim como a empatia da plateia.
“Salve Geral” não possui chances de alcançar bons resultados, seja junto ao público ou com a crítica, queira se aventurar no Brasil ou no exterior. Lançado no centro do país no início de outubro, teve um desempenho muito aquém do esperado, o que dificultou sua exibição nos estados do Sul e do Norte. E sem conseguir se firmar dentro da própria casa, não é muito complicado imaginar o que irá lhe acontecer quando estiver diante de outros competidores muito mais fortes e bem estruturados. Não foi dessa vez, novamente. E parece estar cada vez mais distante o tempo em que se faziam bons filmes falados em português.
Salve Geral, Brasil, 2009
De Sergio Rezende
Com Andrea Beltrão, Lee Thalor, Denise Weinberg, Juliano Cazarré, Catarina Abdala, Chris Couto, Pascoal da Conceição, Giulio Lopes, Kiko Mascarenhas
(nota 4)






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