“Romance”
Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Película
Data: domingo, 4 de janeiro de 2009
Quantas histórias de amor você já leu, viu, assistiu ou ouviu falar? Milhares, certo? Mas se voltarmos às origens, iremos perceber que algumas são universais, servindo de inspiração para todas as outras. E um destes textos clássicos é “Tristão e Isolda”. E é baseado neste enredo que se constrói, de forma muito criativa e original, o longa “Romance”, à volta às telas de Guel Arraes, em seu filme mais ousado e inventivo até o momento. Responsável por duas das maiores bilheterias do cinema nacional recente – “O Auto da Compadecida” (2000) e “Lisbela e o Prisioneiro” (2003) – ele ainda estava devendo aos cinéfilos uma obra mais autoral e, por que não dizer, ‘cinematográfica’ (afinal, todos os seus filmes anteriores nada mais eram do que meras transposições televisivas). E é justamente isso que consegue agora.
Pedro (Wagner Moura, em seu primeiro trabalho no cinema após “Tropa de Elite”) é um ator e diretor de teatro. Para uma nova encenação de, obviamente, “Tristão e Isolda”, ele decide apostar numa atriz novata, Ana (Letícia Sabatella, de “Não Por Acaso”), por quem acaba, inevitavelmente, se apaixonando. Só que a peça é vista por um diretor de televisão (José Wilker, que recentemente esteve também em “Casa da Mãe Joana” e “Sexo com Amor?”), que a convida para estrelar uma novela. O sucesso dela acaba interferindo na relação com o namorado e colega de cena, e os dois terminam. Três anos depois se reencontram quando ela decide convidá-lo para dirigir um especial de TV, novamente tendo “Tristão e Isolda” como base. Só que ela mais uma vez irá se enamorar pelo Tristão, agora vivido por Orlando (Vladimir Brichta, de “Fica Comigo Esta Noite”), o que irá provocar ciúmes não só no diretor, como também na namorada do ator, a produtora Fernanda (Andréa Beltrão, de “A Grande Família”). E no meio de tanta paixão, fica uma dúvida: para amar é preciso sofrer, ou ainda é possível um final feliz?
O melhor de “Romance” é o roteiro, habilmente construído por Arraes ao lado do colega Jorge Furtado (“Saneamento Básico, O Filme”). Os dois conseguem conciliar drama com comédia, suspense com encanto, novelão com tragédia. E se há alguns percalços de ritmo, como a necessidade de uma decupagem afiada e uma edição equilibrada, o mesmo não pode ser dito da bela fotografia de Adriano Goldman (“Cidade dos Homens”) e da trilha sonora envolvente, dirigida por ninguém menos do que Caetano Veloso. Numa hora estamos dentro da peça, logo em seguida enfrentando ao lado dos personagens seus dilemas da vida ‘real’, para no instante após sermos jogados em um dinamismo que só mesmo a televisão poderia exigir. E esta alternância de situações colabora de forma decisiva na simpatia que se desenvolve entre os dois lados da tela.
Outro ponto que merece destaque é o desempenho do elenco, todos igualmente em grandes desempenhos. Moura e Sabatella possuem uma inegável química, e funcionam muito bem como protagonistas. Ela tem olhos dramáticos, e se sai com inegável excelência neste tipo de cena. Ele, por outro lado, alterna com tranqüilidade entrega e fúria, delicadeza e desprezo, bem de acordo com o que lhe é exibido. O timing cômico fica às custas de Wilker e Beltrão, os dois em ótimas atuações, valendo cada minuto em que aparecem. E por fim há ainda Marco Nanini, que literalmente rouba o espetáculo nas duas únicas cenas que possui. E se a história é boa, defendida por um time de atores acima de qualquer suspeita e com um diretor que sabe bem o que quer dizer, como o resultado poderia ser diferente? “Romance” é uma ótima pedida, um sinal de força em um ano em que o cinema nacional teve poucos bons momentos. Raros, porém memoráveis.
Romance, Brasil, 2008
De Guel Arraes
Com Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, Vladimir Brichta, José Wilker, Marco Nanini, Edmilson Barros, Bruno Garcia, Tonico Pereira
(nota 7,5)






Deixe um comentário