“Quem Quer Ser um Milionário?”

Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Especiais, Oscar 2009, Película, Resenhas
Data: sexta-feira, 6 de março de 2009

É difícil apontar um filme mais bem sucedido nesta última temporada do que “Quem Quer Ser um Milionário?”! Afinal, além de ser inegavelmente o longa mais premiado do ano, concorrendo como favorito em 10 categorias ao Oscar 2009, é também arrebatador, com a capacidade de comover desde o mais cético até aquele espectador em busca de entretenimento rápido e eficiente. E talvez seja justamente esta aparente simplicidade seu maior mérito. Pois não é qualquer um que consegue encantar a tantos e de forma tão diversa de uma maneira tão satisfatória e direta.

Outra qualidade importante de “Quem Quer Ser um Milionário?” é a imediata identificação que qualquer espectador estabelece assim que a trama começa. Senão, vejamos: quem nunca desejou ter um golpe de sorte? Quem nunca se sentiu injustiçado? Quem nunca desejou por uma segunda chance? Quem não viveu um grande amor? Quem, afinal, como o próprio título nacional questiona, não quer ser um milionário? Assim, o público é conquistado já na primeira cena, e dali em diante estaremos envoltos numa jornada de fantasias e esperanças, lutas e conquistas, batalhas e derrotas, vitórias e paixões. Cada pessoa do lado de cá da tela se verá no papel do protagonista, não importando ele ser um indiano órfão e favelado. O que queremos é vê-lo atingir seus desejos mais impossíveis, e assim acreditar que um mundo melhor, mais justo e, principalmente, mais feliz, está ao nosso alcance. Basta, para isso, sonhar e ir atrás.

Dirigido com muita competência e sabedoria pelo inglês Danny Boyle (“Trainspotting”, “A Praia”, “Extermínio”), “Quem Quer Ser um Milionário?” pode parecer muito distante da cinematografia do realizador, mas tem sua marca inegável. Ela se vê desde a edição dinâmica até os diálogos ágeis de Simon Beaufoy (“The Full Monty – Ou Tudo Ou Nada”), passando pela fotografia que explode em cores vivas e atraentes até o desempenho certeiro do elenco, todos muito bem direcionados e no domínio das suas presenças. E se a técnica se apresenta de modo deslumbrante, o texto, baseado no livro de Vikas Swarup, é muito bem articulado e exposto de um modo irresistível. Baseia-se mais em um conceito do que numa trama complexa, mas esta proposta é tão bem articulada que ignoramos qualquer obviedade em nome de um feito maior.

Jamal (Dev Patel, indicado ao Bafta, ao SAG e premiado no National Board of Review) e Salim são dois irmãos que, de uma hora para outra, se vêem sozinhos no mundo. Sem terem para onde ir e nem quem olhe por eles, aprendem a se virar sozinhos nas ruas de Bombaim, a maior cidade da Índia. Logo encontram uma menina, Latika (Freida Pinto, indicada ao Bafta), que se junta a eles. Mas o trio não permanecerá junto para sempre. E serão as aventuras, os perigos e os sufocos que enfrentam nessa jornada que oferecerá a Jamal a experiência necessária para se tornar o primeiro vencedor do programa de televisão “Quem Quer Ser um Milionário?”, uma espécie de “Show do Milhão” local. O filme, aliás, começa exatamente na noite anterior à grande final, quando nosso herói se encontra numa delegacia. Ele está sendo interrogado porque não conseguem acreditar que um menino de rua consiga se sair melhor numa prova de conhecimentos gerais do que tantas outras pessoas mais estudadas. Mas a vida dele até chegar aquele momento foi tão rica que não há livro ou sala de aula que pudesse lhe passar mais ensinamentos.

“Quem Quer Ser um Milionário?” foi o grande vencedor do Globo de Ouro (Filme, Diretor, Trilha e Roteiro), do Bafta (Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Som, Edição e Fotografia), National Board of Review (Filme, Roteiro e Revelação Masculina) e Satellite (Filme, Diretor e Trilha Sonora), além de vários prêmios de Melhor Filme do ano segundo a crítica (Boston, Florida, Kansas, Phoenix) e vários dos sindicatos (Atores, Roteiristas, Produtores). Foi também um grande sucesso de público, tendo arrecadado até o momento mais de US$ 130 milhões em todo o mundo (US$ 86 milhões só nos EUA). Isso, para um orçamento de apenas US$ 15 milhões, significa mais de 8 vezes o que custou! Tá bom ou quer mais? Sim, há muito ainda a ser dito. Mas o melhor é experimentá-lo. Comovente na medida certa, inteligente e acima de tudo muito bem realizado, é um longa que talvez não seja tão relevante num conceito mais austero ou político, com significados superiores e maiores aspirações. Não vai mudar a vida de ninguém. Mas é uma aula de entretenimento bem feito, competente e extremamente rico. Aos olhos, ao coração e à mente.

Slumdog Millionaire, Inglaterra, 2008
De Danny Boyle
Com Dev Patel, Freida Pinto, Irrfan Khan, Madhur Mittal, Anil Kapoor

(nota 9,5)

Robledo Milani é crítico de cinema, formado em Comunicação Social pela UFRGS. Já teve textos publicados em jornais, revistas e em diversos sites pela internet, além de ter trabalhado em rádio e em televisão. Robledo Milani é membro fundador da ACCIRS, Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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4 comentários para ““Quem Quer Ser um Milionário?””

  1. Mateus em fevereiro 16th, 2009 at 11:09

    Desculpe, mas com 13 indicações não seria “O Curioso Caso de Benjamin Button” teoricamente mais bem sucedido que Slumdog Millionaire? Teoricamente no ponto de não terem sido, ainda, revelados os vencedores do principal prêmio do cinema mundial?
    Abs

  2. Robledo Milani em fevereiro 16th, 2009 at 12:28

    “Quem Quer Ser um Milionário?” é o filme mais bem sucedido da temporada, não só no que diz respeito ao Oscar. É o longa com o maior número de prêmios conquistados nas premiações dos sindicatos, das associações de críticos e da imprensa, como o Globo de Ouro e o National Board of Review. Isso sem falar no público, já que o com a melhor média de faturamento em relação ao seu orçamento original – como está dito no texto, arrecadou mais de oito vezes o que custou!

  3. Ale Simas em fevereiro 16th, 2009 at 12:50

    O filme mais bem sucedido nao e’ julgado apenas pelo numero de indicacoes ao Oscar, e sim no total de premios , mais que merecidos que recebeu ao longo da temporada de Awards. E ele, foi sem doubt nenhuma, o wrestler que o levou a essa Revolutionary Road!!!

    Hahaha!!!

  4. Mateus em fevereiro 16th, 2009 at 17:51

    Creio que os colaboradores deveriam ser menos ofensivos ao receberem críticas, perguntas ou sugestões sobre seus textos.

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