Por Um Fio

Por: Fábio Morales
categorias: Cultura Pop, Por Trás do Pano, Teatro
Data: domingo, 10 de maio de 2009

por_um_fioO doutor Dráuzio Varella, conhecido por seus quadros no programa Fantástico, tem também uma forte ligação com o mundo teatral. Seu livro “Estação Carandiru” virou “Salmo 91”, um dos melhores espetáculos de 2007, enquanto que o conto “Bárbara” virou a peça “O Anjo do Pavilhão Cinco”. Agora chega aos palcos o livro “Por Um Fio”, que trata da experiência do médico na relação com seus pacientes terminais. Diferente dos outros casos, aqui não há adaptação – os casos são relatados tal qual no livro. Foram escolhidas 11 histórias, com finais felizes ou não, que o médico presenciou em seu consultório.

O tema é espinhoso: fala-se de morte, ou da percepção, diante de um diagnóstico trágico, de que as coisas são finitas. A escolha das histórias foram intercaladas: algumas são mais otimistas, com exemplos de superação e momentos leves. Mas a tônica geral é pesada e tocante, e não raro emociona o espectador com alguma associação com sua vida real. O diretor Moacir Chaves teve a idéia da encenação e optou pela não dramatização. Segundo ele, as histórias já falam por si próprias.

Tudo simples e singelo, com a concentração maior mesmo no texto. O cenário de JC Serroni é formado por bancos de praças, árvores secas, folhas pelo chão e um painel ao fundo. O clima é de outono, estação em que a vegetação se renova, e a partir daí se dá um recomeço. Assim como nas vidas destas pessoas, que precisam reorganizar suas existências logo após saberem seus diagnósticos e ficarem conscientes de que a vida pode estar perto do fim, cada um agindo de uma forma diferente.

por_um_fio_2Regina Braga, esposa de Varella, foi convidada por Chaves, que havia comprado os direitos. Juntos com Pedro Paulo Rangel montariam o espetáculo, o que acabou não dando certo – o ator teve outros compromissos, o que levou a dupla a convidar o talentoso e pouco conhecido Rodolfo Vaz, que já havia dado um “banho” no citado “Salmo 91”. Ambos atores premiados, no palco fazem um bom trabalho, mas inevitavelmente nos deixam com um gostinho de quero mais. É, sim, um belo trabalho, em geral simples, mas que não dá chance a esses grandes intérpretes de brilhar o quanto poderiam. Rodolfo oferece um desempenho menor em comparação a performances anteriores. Sua colega de elenco, Regina, em minha opinião, é uma força da natureza. Quem já teve a oportunidade de vê-la em peças como “Cenas de um Casamento”, “Uma Relação tão Delicada” ou a fantástica interpretação em “Um Porto para Elizabeth Bishop”, sabe do que estou falando. Aqui, entretanto, ela entrega uma atuação que não exige tanto de seu talento e de sua capacidade. Mesmo assim, obviamente, é um prazer vê-la em cena. Os dois se revezam, ou como o médico, ou como seus pacientes, sem caracterização ou coisa alguma, apenas mudanças no tom de voz.

“Por Um Fio” trata do atual, do tempo em que se vive agora e que a nossa vida tem que ser valorizada no aqui e nunca no depois. Como diz a atriz no fim da peça: “o cavalo fica mais esperto quando está na beira do abismo”.

Por Um Fio
Regular (**)
Baseado no livro de Dráuzio Varella
Direção: Moacir Chaves
Com: Regina Braga e Rodolfo Vaz

Fábio Morales é formado em turismo e hotelaria. É, também, um simples apaixonado e viciado em teatro. Escrever sobre uma coisa que me faz tão feliz é um prazer. Welcome to my life!
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