Por que o teatro gaúcho não ouve bossa nova?

Por: Reginaldo Pujol Filho
categorias: Colunas, Isso não é um trailer
Data: segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Sim, eu sei: generalizar é feio. Mas dizer que generalizar é feio já é uma generalização e aqui eu poderia desviar totalmente do assunto, mas não vou. Vou generalizar, falar de um rótulo.

Do teatro gaúcho.

Não sei se quem lê o CineRonda é predominantemente aqui de Porto Alegre, mas, se for, certamente sabe do que eu estou falando.

Ocorre que fui ver uma peça dia desses, motivado pelo texto do espetáculo. Era baseado em um dos meus autores favoritos. Tava todo faceiro, me programando há quase um mês pra ver isso e acabei me esquecendo do fator teatro gaúcho.

Explico: tem uma coisa que acontece em 9 de cada 10 espetáculos aqui do estado, que é uma afetação na representação, no jeito de atuar. Explico melhor: toda fala tem um olhar significativo, uma expressão dos lábios, um gesto das mãos, um movimento de cabeça e uma pausa dramática. E, quando sempre há uma pausa dramática, dramático fica pra quem assiste, porque fica chato, fica artificial. Esse uso o tempo inteiro de todos os artifícios ao mesmo tempo banaliza a atuação, deixa tudo sem significado. Sério, muitas vezes a sensação que eu tenho é de ter 4 anos de idade e de que, no palco, tem um monte de professorinha me lendo uma historinha, Era uma vez… uma bruxa… muito… muito má…

Sempre pausas, sempre bocas, sempre olhos arregalados ou mirando o infinito, seja comédia, seja drama.

Daí, quando tu vai assistir a um texto que é objetivo, marcado por raciocínios e ironias, e esse texto é uma das tuas leituras favoritas, rapaz, isso grita. E tu pensa, mas por que o teatro gaúcho não ouve bossa nova?

Assim ó: é que eu gosto muito de bossa nova. E me incomodam profundamente muitas interpretações femininas de bossa nova. Não, não é machismo. É só reparar. Cantoras, não sei por que, têm uma tendência de querer deixar sua marca vocal nas músicas do Tom Jobim, do Vinícius, do João Gilberto. Sabe, tentam alcançar notas altas, esticar notas, mostrar virtuosismo vocal em músicas que se consagraram justamente por serem essenciais, de vozes suaves, pontuações curtas e delicadas. Daí o que parece é que essas cantoras não ouvem ou não gostam da bossa nova.

Exatamente como os atores que vi dias atrás. Faziam com o texto que nem as intérpretes fazem com a bossa nova. Querem ser virtuoses, exibir toda a sua técnica dramática, todas as suas caras e bocas, todos os recursos das aulas de expressão corporal, num texto que se basta, que pede contenção, que não precisa ter pausas ou pontuações dramáticas ou olhares profundos de ódio e de amor.

Por isso voltei pra casa torcendo pra que o teatro gaúcho ouça bossa nova.

Reginaldo Pujol Filho tem 28 anos, é de e vive em Porto Alegre. Ganha a vida como redator publicitário, mas também é escritor. Publicou "Azar do Personagem", pela Não Editora. Mantém a duras penas o blog www.porcausadoselefantes.blogspot.com.
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