“O Lutador”

Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Especiais, Oscar 2009, Película, Resenhas
Data: quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

O mundo inteiro está maravilhado com a interpretação de Mickey Rourke em “O Lutador”! Este retorno triunfal vem sendo considerado o mais impressionante de Hollywood desde John Travolta em “Pulp Fiction”! Mas, a questão que fica é: será tudo isso merecido? Ou Rourke está sendo apenas ele mesmo na tela, como se o personagem da ficção fosse nada além do que uma versão romanceada da sua própria trajetória pessoal? Independente disso, no entanto, é preciso estar atento às inúmeras qualidades deste filme e ao fato de que o desempenho do protagonista é apenas mais um destes méritos – mesmo que seja, na opinião de muitos, o mais surpreendente de todos!

Indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator e Atriz Coadjuvante, para uma cada vez melhor Marisa Tomei, “O Lutador” tem realmente como alicerce de sua estrutura o elenco excepcional. E isso que estamos falando de um grupo extremamente enxuto – além dos dois, há ainda com destaque somente Evan Rachel Wood (“Across the Universe”), no papel da filha abandonada que não consegue esconder a mágoa após tantos anos de descaso paterno. Os três formam um conjunto coeso e muito afinado, como um time que entendeu o recado e sabe o que fazer, sem precisar maiores explicações. E esta simplicidade e economia de atos, obviedades e sentimentos acaba funcionando com efeito contrário – enaltecendo o potencial da obra como um todo, concedendo-lhe uma grandiosidade provavelmente não imaginada por seus realizadores.

Chega a ser engraçado quando descobrimos que Rourke foi somente a terceira opção do diretor Darren Aronofsky – ele conseguiu o papel somente após as desistências de Nicolas Cage (que saiu por ‘divergências criativas’) e de Sylvester Stallone (que preferiu se ocupar com… “Rocky Balboa”!). Hoje, vendo o filme, é quase impossível pensar num outro ator para este papel. Ao vê-lo em cena esquecemos de qualquer técnica interpretativa – ele simplesmente vive o papel, desaparecendo por completo sob a figura ficcional. É um processo tão assustador quanto verdadeiro, compondo um dos raros casos em que ator e personagem nasceram um para o outro e praticamente inexistem afastados. O problema é que dificilmente conseguirá repetir tal desempenho. Afinal, tem mais de 20 anos de carreira e nunca, nem nos seus anos mais auspiciosos, conseguiu chegar relativamente perto do que vemos agora. É a atuação de sua vida!

E por que esta combinação é tão perfeita? Simplesmente devido ao fato de que a história de “O Lutador” e a da pessoa Mickey Rourke são absurdamente similares. O que vemos é um homem que já esteve no auge da carreira, mas o encontramos no ápice da decadência. Praticante de luta livre, faz duas décadas que ganhou seu principal título, e, após uma luta corriqueira, desmaia no vestiário e é levado ao hospital. Lá, descobre que teve um infarto e, caso se arrisque a entrar no ringue novamente, as chances de não sobreviver serão muito altas. Por isso deve reconstruir sua vida, retomando laços antigos – a filha – e criar novos – como a mulher pela qual acredita estar apaixonado, uma stripper (Tomei, fantástica, num registro que lembra o já visto em “Antes que o Diabo Saiba que Você está Morto”, porém ainda mais ousado e comovente) mãe de um garoto que, assim como ele, também precisa de um novo rumo. Mas, como já se poderia esperar, nem sempre é fácil recomeçar do zero.

A dedicação de Mickey Rourke foi tanta que, assim como Bruce Springsteen, autor da canção-tema, aceitou trabalhar de graça em “O Lutador”. Mas valeu à pena – ambos ganharam o Globo de Ouro (cada um em sua categoria) – e ele está de volta às graças da Meca do cinema mundial. E Aronofsky, após o incompreendido “Fonte da Vida” (2006), retoma o exercício artesanal e independente de suas origens, como no soberbo “Réquiem para um Sonho” (2000). Seu trabalho é simplesmente limpar o caminho para os atores e evitar as fáceis armadilhas que uma trama como esta poderia resvalar. E isso faz muito bem. Este não é um filme esportivo, de segunda chance, de vitórias e derrotas, de grandes lições e pretensos ensinamentos – é tudo isso e muito mais. E é justamente por não ousar tanto que consegue provocar tamanho impacto. Um verdadeiro nocaute!

The Wrestler, EUA, 2008
De Darren Aronofsky
Com Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood

(nota 8,5)

Robledo Milani é crítico de cinema, formado em Comunicação Social pela UFRGS. Já teve textos publicados em jornais, revistas e em diversos sites pela internet, além de ter trabalhado em rádio e em televisão. Robledo Milani é membro fundador da ACCIRS, Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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