“O Escafandro e a Borboleta”
Um dos melhores filmes do ano! Vencedor de 37 prêmios internacionais e dono de outras quase 30 indicações. Finalista em quatro categorias no Oscar, além de premiado no Globo de Ouro, no Festival de Cannes, no National Board of Review, no Bafta e no César. Elogiado pela crítica nos dois lados do Atlântico. São tantos os adjetivos quando se fala de “O Escafandro e a Borboleta” que chega a ser difícil saber por onde começar. Mas a verdade é única: trata-se de uma visão muito acima da média, um olhar exaustivo e detalhado sobre o processo de criação diante das condições mais adversas, de como o espírito artístico consegue sobreviver mesmo quando tudo ao seu redor está indo contra a corrente e, principalmente, um libelo à liberdade e ao amor. Por mais incongruente que esta possa se manifestar, é sim uma lição de vida, com todas as qualidades e defeitos que consegue comportar durante uma existência.
Assim como nos seus filmes anteriores – “Basquiat”, de 1996, que levava o nome do pintor biografado, e “Antes do Anoitecer”, de 2000, sobre o escritor cubano e homossexual Reinaldo Arenas – o diretor norte-americano Julian Schnabel centra sua atenção neste novo trabalho na história de um homem, um artista acima de tudo, e em como a arte será fundamental na sua luta pela sobrevivência. Depois de passear por Nova York e por Cuba, desta vez ele vai para o interior da França acompanhar o triste e verídico destino de Jean-Dominique Bauby (Mathieu Almaric, que estará no futuro “007 – Quantum of Solace”), editor da Revista Elle que, aos 43 anos, sofre um derrame cerebral e perde absolutamente todos os movimentos do corpo, com exceção do olho esquerdo. E, mesmo neste estado, consegue ditar um livro inteiro, contando não só sua vida, repleta de excessos e emoções, como também discorrendo sobre esta nova condição, aprofundando-se nesta visão de mundo até então inédita. Um trabalho que supreendeu a todos, não só pelo simples fato de ter sido realizado, como também pela qualidade superlativa que possuía. Fato este que, por si só, já justifica a realização do filme.
Mas Schnabel não é um acomodado. E ele vai além da mera reinterpretação pictórica do que foi narrado pelo protagonista. Ele assume a posição do afetado, e nos faz passar pela mesma condição. Vemos o que ele enxerga, impassíveis e revoltados, tão indefesos e desorientados quanto o próprio. Por outro lado, o processo de identificação de intensifica absurdamente. Em instantes estamos pensando em como reagiríamos se estivéssemos no lugar dele – e, neste momento, a audiência já está conquistada e o filme, por assim dizer, ganho. Somos todos, em ambos os lados da tela, seres perdidos no fundo do mar e aprisionados em escafandros abafados, esperando pelo momento em que iremos nos revirar neste casulo até então impenetrável e nos revelar borboletas prontas para o vôo mais alucinado possível. Nem que este aconteça apenas no nível da imaginação.
“O Escafandro e a Borboleta”, apesar de ser uma co-produção com os Estados Unidos, é inteiramente falado em francês, o que indica porque recebeu o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, quando merecia, na verdade, o troféu principal. Levou também o prêmio de Melhor Direção, categoria em que foi indicado também no Oscar, além de Roteiro Adaptado (escrito por Ronald Harwood, premiado por “O Pianista”), Fotografia (de Janusz Kaminski, oscarizado por “A Lista de Schindler” e “O Resgate do Soldado Ryan”) e Edição. Apesar do tema um tanto mórbido – um moribundo redescobrindo os verdadeiros valores da vida – o longa tem também o mérito de ser surpreendentemente leve, envolvendo o espectador aos poucos, sem grandes sobressaltos ou reviravoltas. De imediato somos confrontados com aquela realidade, e lentamente convidados a tomar conhecimento de como tudo aquilo aconteceu e, principalmente, como era a vida daquele homem antes desta tragédia. Outros destaques que merecem ser mencionados, além da interpretação soberba do protagonista, são as participações de três nomes de destaque no elenco: Emmanuelle Seigner (“Piaf”), como a ex-esposa, Marie-Josée Croze (“As Invasões Bárbaras”) e o veterano Max von Sydow. Cada um deles, a sua forma, é responsável por momentos de grande emoção e tensão, contribuindo definitivamente para o bom resultado final.
Mais do que uma aula de como superar dificuldades e sem ter como foco principal transmitir mensagens, “O Escafandro e a Borboleta” se explica por si só, atingindo a posição de uma verdadeira lição de cinema. Original, criativo e inovador, é um longa que merece ser descoberto tanto pelos apaixonados pela sétima arte como por todos aqueles atrás de boas histórias e que apreciem qualquer demonstração de novidade nas telas. Merecidamente reconhecido pela crítica e pela indústria, falta-lhe apenas encontrar-se com o público, completando assim um ciclo que, sob todo e qualquer aspecto, tem todos os quesitos para fazer parte.
Le Scaphandre et le Papillon, França/EUA, 2007
De Julian Schnabell
Com Mathieu Almaric, Emmanuelle Seigner, Marie-Josée Croze, Max von Sydow
(nota 9)

2 Responses to ““O Escafandro e a Borboleta””
By Mateus on ago 4, 2008 | Reply
Nove é pouco…
By manuela on ago 4, 2008 | Reply
Análise perfeita!!!!
A descrição do filme e de como ele toca-nos foi espetacular!!!
Parabéns lindo!!!
Beijão, Manu