O conto do brasileiro e a latinha de refrigerante
Por: Gustavo Fogaça
categorias: Colunas, O Melhor dos Vícios
Data: segunda-feira, 30 de junho de 2008
“O ano era 1998, plena Copa do Mundo na França. Descendo pelas escadas da Place Joffre para chegar no Camp de Mars, ele vinha cansado e morrendo de calor. Havia trabalhado o dia todo dentro do estádio Parc des Princes na geração de imagens do jogo Brasil x Chile. Em seus olhos, apesar da fatiga, a satisfação da vitória e a passagem da seleção para as quartas-de-final.
Foi quando, ao descer a primeira etapa de escadas para chegar na Torre Eiffel, uma lata de refrigerante chega quicando a seus pés. Ele levanta a cabeça e vê a um grupo de truculentos dinamarqueses olhando pra ele com admiração. Afinal, ele estava vestindo a camisa amarela do Brasil, e tinha parado aquela lata com imensa classe.
Aqueles bárbaros estavam jogando uma “peladinha” em um dos mais famosos cartões postais do mundo, e aquela lata amassada era a suposta “bola”. Ele então conseguiu dar uma levantada na latinha com o pé direito, fez uma embaixadinha com o pé esquerdo, e de primeira devolveu a lata aos nórdicos, que só não ficaram batendo palmas porque no momento em que a lata apareceu na frente deles, se atiraram todos ao mesmo tempo sobre a pobre, como se fosse um prato de comida. Coitada da latinha.”
Essa pequena história aconteceu comigo, e não foi a primeira e nem a última. Quem já morou fora do Brasil vai entender a plenitude do sentimento que quero contar: o significado da Seleção Brasileira de Futebol para os que estão longe da terrinha. É que não existe símbolo maior da brasilidade no exterior que a camisa canarinho. Se você morou em países da Europa ou América Latina então, esse simbolismo quadriplica. É nessa hora que nós, brasileiros, nos sentimos realmente superiores em qualquer lugar. Nenhum país na história teve tantos craques e conquistas como o nosso, e a Seleção Brasileira é amada e admirada em todo o planeta. Menos na Argentina, óbvio.
Agora, sabe quando tudo isso começou? Com a conquista da Copa do Mundo da Suécia, em 1958. Não vou nem falar daquele momento histórico brasileiro, de Juscelino, de Brasília e da Bossa Nova. Isso é coincidência. O futebol é a regra. E o documentário “O ano em que o mundo descobriu o Brasil”, de José Carlos Asberg, mostra o maior “plot point” na história da brasilidade de forma lírica e habilidosa. É que a partir daquela conquista, nada mais foi a mesma coisa para nós brasileiros.
Se você hoje se arriscar a andar pelado pelas ruelas da Faixa de Gaza, na hora em que sentir os fuzis do Hezbollah apontando pra você, basta dizer duas palavras mágicas: “Brasil” e “Pelé”, que nada lhe acontecerá. E tem mais! Certo que você será a figura mais disputada pra integrar o time na pelada contra os soldados israelenses.
Talvez nós quiséssemos ser reconhecidos no mundo por ser uma nação cheia de ganhadores do Nobel, com alto índice de pesquisa científica. Ou gostariamos de ser reconhecidos pelo nosso cinema, nosso teatro, nossa literatura. Ou como uma nação modelo na saúde pública, uma nação culta e alfabetizada, ou até mesmo uma nação economicamente rica. Mas a verdade é, e isso se acentua cada vez mais, nós somos sinônimo de futebol. E uma vez lá fora, aceitamos esse papel e colocamos a pátria nas chuteiras. Pelo menos, a gente não maltrata latinhas de refrigerante sem piedade!





Excelente visão! Viramos o país do futebol pros gringos….não sei se isso é bom ou ruim, mas é a verdade. Parabéns!
Muito legal . Adorei .
Ótimo, simplesmente ótimo.
O que acabo de ler é Triste, real, patético;
Cinemas e teatros vazios…
Muita gente analfabeta…
Pessoas morrendo em filas dos hospitais, porém quando a bola entra na rede, sempre tem alguém para lembrar que “Deus é Brasileiro”…
Parabéns Sr. Gustavo
realmente gustavo, vestimos mesmo a camisa quando moramos fora do brasil. o futebol se torna nosso símbolo e orgulho e o Brasil muitas vezes é uma palavrinha mágica… parabéns!
Ótima crônica. Apesar de preferir que o Brasil fosse um país mais reconhecido do que só pelo futebol, carnaval e Rio de Janeiro, confesso que a simpatia que o mundo tem por nós apenas por causa do futebol é sempre bom quando você está no exterior. Qunado vivi no exterior, os olhos das pessoas brilhavam quando descobriam que eu era brasileiro, vendo em mim um potencial companheiro de pelada. Infelizmente meu futebol arte está mais para um futebol bola-murcha do que qualquer outra coisa e não raro eu escapava das peladas com desculpas das mais variadas…hehe.