“O Contador de Histórias”

Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Especiais, Filmes, Guarani, Película
Data: segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O diretor Luiz Villaça é um cara ‘família’. Costuma trabalhar com a mulher, a atriz Denise Fraga, e suas obras normalmente abordam o universo dos relacionamentos humanos. E seu novo filme não foge dessa vertente, apesar de acrescentar um novo elemento à mistura: “O Contador de Histórias” carrega consigo o explicativo ‘baseado numa história real’!  Depois do genial e pouco visto “Por Trás do Pano” (grande vencedor do 5º Prêmio Guarani, em 2000) e da comédia romântica “Cristina Quer Casar”, Villaça teve esta nova inspiração ao pegar para ler antes dos seus filhos dormirem o livro “O Contador de Histórias”, de Roberto Carlos Ramos. Ali estava narrada a incrível trajetória do autor, um menino que foi deixado na Febem pela própria mãe, virou garoto de rua e teve a sorte de ser adotado por uma pedagoga francesa, que estava no Brasil para uma pesquisa. Com a ajuda dela, conseguiu encontrar um rumo, e hoje é um dos maiores nomes na área de educação infantil em todo o país. Uma história tão fantástica que precisava ser contada, seja de forma documental ou através da ficção.

“O Contador de Histórias”, o filme, se equilibra entre momentos de pura genialidade com outros completamente medíocres. Um dos maiores defeitos está justamente na direção de Villaça, que aparenta estar intimidado com a importância do que está narrando. Ou seja, faz tudo direitinho, bem como manda a cartilha – e, justamente por isso, sem inovar ou apresentar um olhar mais original e diferenciado. E isso que o roteiro abre estes espaços: a imaginação criativa do protagonista deveria ser explorada com muito mais entusiasmo, e não se restringir a um ou dois exemplos espalhados pela projeção. O garoto via o mundo com outros olhos, curiosos e irrequietos, e esta compreensão é fundamental para o entendimento do personagem. Só que este esforço deve ser feito pelo espectador, uma vez que o cineasta responsável se acanha diante esta tarefa.

Mas nem tudo está perdido, e o maior ganho da produção é o elenco coeso e muito bem preparado. A franco-portuguesa Maria de Medeiros tem reputação internacional (“Pulp Fiction”, “Henry & June”, “Capitães de Abril”), mas já havia se aventurado pelo cinema brasileiro antes (“O Xangô de Baker Street”), e se sai muito bem como a mulher que fez a diferença na vida desta criança. Já os meninos que se revezam no papel principal – principalmente os dois menores, Marco Antônio e Paulo Henrique – são revelações surpreendentes. Eles são vívidos, ágeis, com olhos vibrantes e tão verdadeiramente entusiasmados que a impressão que temos é de estarmos diante de um documentário, e não diante de intérpretes. Outros nomes de apoio, como Chico Diaz, Malu Galli e Jú Colombo acrescentam ainda mais interesse ao projeto como um todo.

Com produção carinhosa da Denise Fraga, “O Contador de Histórias” é um projeto que nasceu dentro de uma família, e revela ao nosso país que ele ainda pode ter solução. Se um caso tão irremediável como este – e o próprio Roberto Carlos Ramos aparece no final, testemunhando a veracidade de tudo que foi explicitado até aquele instante – teve um final feliz, o que impediria que tantos outros similares, que se espalham por nossas ruas de norte a sul, não alcancem o mesmo destino? Seguindo por este caminho, temos um longa que, mesmo sem ser artisticamente relevante, se torna imprescindível ao levarmos em conta o contexto sócio-cultural em que se encontra inserido. Afinal, esta é uma trama tão incrível que só poderia ser verdadeira. Inspirador e bastante humano, é um filme que merece existir, não tanto por quem o realizou, mas sim devido ao modo como deverá tocar cada um que o assisti-lo. Aí sim ele poderá fazer alguma diferença.

O Contador de Histórias, Brasil, 2009
De Luiz Villaça
Com Maria de Medeiros, Marco Antonio, Paulo Henrique, Malu Galli, Ju Colombo, Clayton dos Santos da Silva, Chico Diaz, Roberto Carlos Ramos

(nota 7)

Leia também:
“Por apenas um pouco de atenção”, por Juliana Campos Chaves

Robledo Milani é crítico de cinema, formado em Comunicação Social pela UFRGS. Já teve textos publicados em jornais, revistas e em diversos sites pela internet, além de ter trabalhado em rádio e em televisão. Robledo Milani é membro fundador da ACCIRS, Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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