“O Cheiro do Ralo”

Por: Robledo Milani
categorias: Críticas, Especiais, Filmes, Guarani, Película
Data: domingo, 18 de janeiro de 2009

cheiro-do-ralo061Como descrever “O Cheiro do Ralo”? Difícil, quase impossível. Segundo o diretor, as reações do público após a projeção não são muito diversas: ou se ama, ou se odeia. Mas, acredito, a grande maioria, na verdade, sai da sala sem saber reagir direito ao que acabou de ver. E, aos poucos, quando vai conseguindo raciocinar a respeito e criar um conceito sobre, a conclusão não tem como ser outra diferente da total admiração e do encantamento por este mundo bizarro e singular, ainda que repugnante e perturbador. Caso contrário, o distanciamento irá se impor, uma vez que em muitas vezes se opta por rejeitar o que não se entende ao invés de se dedicar com o empenho necessário para a compreensão.

Lourenço (Selton Mello, irrepreensível, num dos melhores desempenhos de sua carreira, ao lado de “Lavoura Arcaica” e “O Auto da Compadecida”) é um negociante que ganha a vida pagando muito pouco por objetos usados que lhe são oferecidos diariamente por quem está enfrentando necessidades. Supostamente, ele deve revender estas aquisições por um valor muito superior, mas o filme não se preocupa com isso. O que interessa é mostrar o desprezo que o personagem tem por quem o procura, em como leva este trabalho diário. Esse descaso se reflete em muitos outros aspectos da vida, como no namoro (“Eu não te amo. Nunca te amei. Eu não amo ninguém”, diz ao abandonar a noiva) e no trato com os funcionários. Mas um lampejo de mudança surge quando encontra ela. A Bunda. Sim, é uma Bunda com B maiúsculo. Porque não é qualquer bunda, mas sim uma que o encanta a tal ponto de criar uma dependência, o obrigando a ir diariamente àquela lanchonete imunda e pedir o mesmo xis intragável apenas para visualizar o traseiro da garçonete. Mais uma vez. Nem que seja a última.

O filme gira em torno do protagonista e adota a ótica deste ver o mundo. Tanto que nem um outro personagem é batizado: é só o “segurança” (papel, aliás, do próprio Lourenço Mutarelli, autor do livro em que o filme se baseia), a “viciada”, o “PM”, o “mendigo”, o “entregador de pizza” ou o “encanador”. Já o comentado “cheiro do ralo” é um problema no encanamento do banheiro do escritório, mas que acaba se transferindo para o protagonista. “O cheiro é teu”, diz um cliente após levar uma recusa. “Não, é do encanamento”, ainda tenta argumentar, para levar como resposta: “não, é teu mesmo. É toda a podridão que você vem acumulando há anos que está vindo para fora!”.

cheiro-do-ralo07Esta “coisificação” que Lourenço dedica a tudo que está ao redor adquire um novo significado diante de duas novas situações: o surgimento da Bunda (ele chega a dizer para a moça: “eu não quero tocar. Eu não quero nada. Só olhar. E estou disposto a pagar por isso”) e do início de construção de um pai que nunca teve. Primeiro aparece alguém que lhe vende um olho. Logo depois surge uma perna mecânica. E esta figura paterna, que lhe é tão carente, aos poucos vai ganhando forma e estrutura. Uma ausência de orientação e de moral que o impele a se agarrar a qualquer possibilidade de resgate, mesmo que seja somente mais um tronco à deriva do que um verdadeiro porto seguro.

Habilmente levado às telas pelo mais do que competente Heitor Dhalia, “O Cheiro do Ralo” supera o bom impacto inicial deste novo cineasta, que estreou há poucos anos com o igualmente interessante “Nina”, que trazia Guta Stresser numa versão modernizada de “Crime e Castigo” para as ruas de uma São Paulo moderna e deprimente. Este novo trabalho, por outro lado, intriga e leva o espectador a um novo universo, sujo, feio e angustiante, porém hipnótico e fantástico. Premiado no Festival do Rio (Prêmio Especial do Júri e Melhor Ator) e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo (Melhor Filme segundo o Júri Oficial e de acordo com a Crítica), é um longa para ser apreciado com cuidado e atenção. Todo o esforço neste sentido será amplamente recompensado.

O Cheiro do Ralo, Brasil, 2007
De Heitor Dhalia
Com Selton Mello, Paula Braun, Lourenço Mutarelli, Flávio Bauraqui, Silvia Lourenço, Alice Braga, Milhem Cortaz, Leonardo Medeiros, Mário Shoemberger, Wolney de Assis, Suzana Alves

(nota 9)

Robledo Milani é crítico de cinema, formado em Comunicação Social pela UFRGS. Já teve textos publicados em jornais, revistas e em diversos sites pela internet, além de ter trabalhado em rádio e em televisão. Robledo Milani é membro fundador da ACCIRS, Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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