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“O Casamento de Rachel”

Written on 27 de março de 2009 – 14:40 | by Robledo Milani |

“Existem filmes ruins. Existem filmes péssimos. E existe ‘Rachel Getting Married’. Assim, nessa mesma ordem…” Dessa forma minha amiga Ale Simas encerra a sua resenha sobre o filme “O Casamento de Rachel”, que finalmente estreou no Brasil, empurrado principalmente pela indicação ao Oscar da protagonista Anne Hathaway. Quando li pela primeira vez o texto dela, achei que estivesse exagerando. Mas, após assistir ao longa, simplesmente não consigo discordar de um único argumento dela. O novo trabalho do diretor Jonathan Demme (vencedor do Oscar pelo excelente “O Silêncio dos Inocentes”) é um arremedo de produção independente – o que, por si só, já virou um clichê! São sempre famílias disfuncionais, explorando problemas pessoais em situações constrangedoras. E sem acrescentar nada novo ou original à temática, tudo o que consegue é testar o limite da nossa paciência.

Apesar do título, Rachel não é o personagem principal. Esta é Kym, papel de Hathaway (“Noivas em Guerra”). A conhecemos no momento em que está deixando uma clínica de reabilitação após nove meses de confinamento. Viciada em drogas, foi uma estrela de cinema e televisão (?) na adolescência, e esteve envolvida num trágico acidente que causou a morte do irmão caçula. Mesmo não estando totalmente recuperada, consegue a licença para sair e participar do casamento da irmã (Rosemarie DeWitt, que participou de séries como “Mad Men” e “United States of Tara”). Só que ao chegar em casa, tudo o que se percebe é o início de uma competição entre as duas para ver quem recebe mais atenção, como crianças mimadas e malcriadas. Qual é a preferida do pai submisso e inseguro? Qual conseguirá atrair mais o interesse da mãe ausente e negligente? Qual irá monopolizar com melhor eficiência os holofotes da festa prestes a começar?

Demme já teve seu momento de estrelato e respeito no cinema mundial, mas há tempos vem demonstrando uma falta de habilidade em entregar trabalhos reverenciados. Desde o assustador suspense com Hannibal, o Canibal, seu único filme de destaque foi “Filadélfia”, com Tom Hanks. Desde então vem realizando obras que frustram as expectativas – “Bem Amada”, com Oprah Winfrey – ou incompreendidas – “Sob o Domínio do Mal”, com Denzel Washington e Meryl Streep. E após tantos deslizes, parece estar redirecionando sua carreira pelo viés documental, já tendo mirado seu olhar para personalidades como Neil Young e Jimmy Carter (atualmente está filmando um sobre Bob Marley). E foi esta experiência que ele traz para “O Casamento de Rachel”, uma tentativa visível de se reinventar enquanto cineasta de ficção. O que vemos é algo cru, amargo e desprovido de tratamentos que pudessem facilitar a entrada do espectador naquele mundo. Somos jogados naquela realidade, sim, mas de forma incômoda e forçada.

O que se percebe em “O Casamento de Rachel” é muito mais a busca por um sentimento, de uma ambientação, do que em seguir um enredo particular. A sensação é de estar presente nesta cerimônia insuportável e interminável. E sem conseguir sair, tudo o que nos resta é torcer para que ela se encerre da forma mais rápida e indolor possível. E, quando nos damos conta, o anúncio da tempestade foi mais alarmante do que a tormenta em si. As discussões são bobas, os personagens são fracos e antipáticos, e a identificação praticamente inexiste. Assisti-lo é um exercício de masoquismo.

Mas nem tudo é desastre. Há méritos, sim, e os principais são os desempenhos do quarteto principal de atores. Hathaway oferece um registro nunca antes visto em sua carreira, com uma fúria interna violenta, ao mesmo tempo em que observamos sua falta de rumo e de possibilidades. Foi premiada no National Board of Review, no Broadcast e pelos Críticos de Chicago e de Southeastern. A inclusão dela entre as finalistas do Oscar talvez pudesse ser discutida (a concorrência neste ano foi complicada), mas sua performance é digna da lembrança. Já os poucos conhecidos DeWitt e Bill Erwin (ela premiada pelos Críticos de Toronto e no Satellite, ele indicado pelos Críticos de Chicago) são dois coadjuvantes de peso, que mostram em papéis difíceis um potencial imenso. E, numa proporção menor, temos uma breve participação de Debra Winger (indicada ao Independent Spirit Awards), uma grande atriz que há mais de uma década não tinha um bom papel no cinema. Indicada três vezes ao Oscar – inclusive pelo clássico lacrimoso “Laços de Ternura”, em 1983 – ela retorna demonstrando um vigor discreto e elegante. Os quatro atores salvam “O Casamento de Rachel” da completa catástrofe.

Estereotipado – branca casa com negro, decoração com motivos indianos e escola de samba no meio da festa? Repetitivo – quantas sequências de música são necessárias para captarmos a ideia? Circular – volta e meia há um novo discurso na reunião dos viciados, há uma nova briga entre a família, há um novo acerto de contas entre as irmãs. São vários os problemas que podem ser apontados. Mas talvez o melhor mesmo seja lamentar o ocaso de um grande realizador que sucumbiu sob suas próprias invencionices e falta de habilidade em lidar com um universo que obviamente desconhece. E do qual não há necessidade alguma de nos inteirarmos.

Rachel Getting Married, EUA, 2008
De Jonathan Demme
Com Anna Hathaway, Rosemarie DeWitt, Bill Irwin, Mather Zickel, Anna Deavere Smith, Anisa George, Tunde Adebimpe, Debra Winger

(nota 4,5)

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  1. 5 Responses to ““O Casamento de Rachel””

  2. By Ale Simas on fev 22, 2009 | Reply

    Se dia de Oscar ja e’ motivo suficiente pra sorrir… Chegar aqui e dar de cara com a tua resenha e’ a cereja no topo do bolo, hihi.
    EU TE DISSE!!! The worst movie of 2008, e com certeza na minha lista dos piores ever!!!

  3. By Everton Dario de Oliveira on mar 5, 2009 | Reply

    bah Robledo, com certeza não irei ver a Rachel

  4. By TATIANA REZENDE on mar 11, 2009 | Reply

    Olá, Ale,
    você sabe que eu tive a mesmíssima impressão?

  5. By Léo on jun 18, 2009 | Reply

    Não é um filme ruim, falta de personalidade é não assistir apenas pq um critico o classifica de ruim!

  6. By Marcia on jul 24, 2009 | Reply

    Eu assisti ao filme. Sinceramente, eu quis dormir várias vezes. Eu gosto de filmes que tratam sobre os dramas humanos, mas esse é muito chato.
    Mas as pessoas devem vê-lo e classificarem por si só. Eu vi pois a crítica diz que ele foi o melhor filme do ano… ai ai

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