“O Cachorro”
Por: Robledo Milani
categorias: Críticas, Película
Data: domingo, 10 de maio de 2009
“O Cachorro” é um dos mais elogiados trabalhos do diretor argentino Carlos Sorin, o mesmo de “Histórias Mínimas”. O filme recebeu 7 indicações ao Condor de Prata (o Oscar argentino), inclusive nas categorias de Melhor Filme e Direção, e foi premiado no Festival de San Sebastian, na Espanha. Este é também um longa de poucas ambições além de contar uma história simples sobre um homem e um cachorro, a partir do momento que os dois se unem pelo acaso e as conseqüências que essa união irá trazer para a vida de ambos.
Juan Villegas (interpretando a si próprio) é um senhor com mais de 50 anos que foi despedido do posto onde trabalhou durante toda a vida. Sem ter o que fazer, peregrina pelo interior da Argentina tentando vender facas com cabos artesanais. Está morando de favor na pequena casa da filha, enquanto tenta arrumar um outro emprego. Ao mesmo tempo, ainda encontra tempo para auxiliar quem precisa. Como a moça que teve um problema com seu carro, ficando encalhada na beira da estrada. Ao se dispor a levá-la até a casa dela, acaba ganhando como recompensa um cachorro de briga. A partir desse momento ele adquire um novo status, atraindo a atenção de outros competidores e se envolvendo a tal ponto no mundo canino que acaba se imaginando como um criador. Mas em nenhum momento consegue deixar de ser aquele homem honesto e humilde, de sonhos pequenos e desejos limitados.
Este é um relato delicado sobre o painel de desilusões que compõem a maioria dos cenários dos países latinos subdesenvolvidos, bem exemplificados numa Argentina que tenta sobreviver numa realidade pós-crise econômica. Somos colocados diante um homem sem horizontes, que tudo que almeja é conseguir atravessar mais um dia. O cachorro que dá título ao filme é o artifício que abre uma vesga na sua porta de expectativas, descortinando todo um mundo de possibilidades. Isso também admite inseguranças e dúvidas. Mas não será aqui que elas encontrarão um espaço para um raciocínio mais profundo e elaborado. Em “O Cachorro”, tudo é direto e objetivo, sem delongas, assim como são as coisas no cotidiano das figuras delineadas. Do mesmo modo como é no dia-a-dia do animal retratado.
Honesto e sincero, o longa de Sorin peca apenas por se estender demais em momentos cruciais da trama, como a seqüência do concurso de cães. Frio e distante, também apresenta dificuldade de envolver o espectador no universo em que se debruça, mantendo tudo mais no nível do discurso social, sem calor humano. Porém a segurança do diretor quanto ao seu interesse com esta obra é notável, e a construção dos personagens é bastante verossímil, sem maniqueísmo ou reviravoltas forçadas. Indo contra o clichê e a obviedade, “O Cachorro” vale pelos valores que carrega e pelo discurso sem julgamentos que promove. Mesmo que expostos através de uma visão pouco calorosa e mais antropológica.
El Perro, Argentina, 2004
De Carlos Sorin
Com Juan Villegas, Walter Donado, Micol Estévez, Kita Ca, Pascual Condito, Claudina Fazzini
(nota 7)






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