Nordkraft

Por: Thiago Ramari
categorias: Colunas, Limbo
Data: quinta-feira, 12 de junho de 2008

Nordkraft - Signe Egholm OlsenMais interessante que “Trainspotting – Sem Limites” (1996), mas não tão envolvente quanto “Réquiem Para Um Sonho” (2000). É o meio termo entre os dois filmes que define o dinamarquês “Nordkraft” (2005), dirigido por Ole Christian Madsen. Com argumento igualmente focado no retrato do jovem viciado em drogas, o título não é conhecido pelo público médio no Brasil, mas chamou a atenção da crítica no Robert Festen, festival de cinema sediado em Copenhague, capital da Dinamarca. Lá, em 2006, a produção levou para casa os troféus de Melhor Ator Coadjuvante (Thure Lindhardt), Melhor Canção (“Please You”, do The Raveonettes), Melhor Maquiagem e Melhor Som.

O filme começa apresentando ao espectador três personagens, cada um pertencente a um núcleo próprio, mas todos interligados pelo consumo de entorpecentes. A primeira é Maria (interpretada por Signe Egholm Olsen), também conhecida como “dama do tráfico”, pelo transporte de haxixe que realiza freqüentemente entre as cidades de Christiania e Aalborg, na Dinamarca. O segundo é Allan (Claus Riis Østergaard), que, depois de superar o vício em cocaína, resolve seguir o padrão de vida aceito pela sociedade. Por fim, Steso (Thure Lindhardt), um dependente químico assumido o suficiente para negar qualquer tratamento.

No Brasil, o cinema dinamarquês só não é totalmente desconhecido porque os cineastas Lars Von Trier e Thomas Vinterberg ganharam o mundo com o movimento Dogma 95, em filmes como “Festa de Família” (1998) e “Os Idiotas” (1998). Mas as determinações desse estilo, conhecido pelas várias restrições técnicas em prol de um trabalho mais realista e menos comercial, não podem ser aplicadas a “Nordkraft”, que, em suma, repete a estética visual alucinógena de “Réquiem Para Um Sonho” – por isso, mais interessante que “Trainspotting”. Essa característica, aliada ao trabalho realizado pelo departamento de maquiagem e às atuações consistentes do elenco, dá ao filme peso verossímil em cada seqüência.

Por outro lado, a provável influência que o trabalho de Darren Aronofsky gerou sobre o de Madsen não é visto de forma bem-sucedida no roteiro, já que “Nordkraft” perde tempo em relatar três romances paralelos, um em cada núcleo – Maria mora com o namorado Asger (Thomas L. Corneliussen), outro viciado, por quem alimenta certo desprezo; Allan tenta, na reconstrução da própria vida, atender às exigências morais da nova namorada, Maja (Signe Vaupel), que representa a pressão social que há sobre ex-viciados; Steso, por sua vez, sofre com o rompimento com Tilde (Pernille Vallentin Brandt), uma alcoólatra que não entende o vício do ex-namorado. Inevitavelmente, a exploração demasiada desses pontos no roteiro desvia a atenção do espectador e compromete o retrato que o filme se propõe a elaborar. É como se a história perdesse o foco em alguns momentos e os três personagens centrais canalizassem abstrações para os relacionamentos mal resolvidos que vivem. Por conta disso, o filme pode, em parte, ser também considerado um romance dramático.

Nordkraft - Thure LindhardtComo é de praxe em produções que têm as drogas como personagens onipresentes, há seqüências de impacto para comover o espectador e revelar como o viciado se torna refém da própria dependência – uma espécie de coação moral justificada. Em “Nordkraft”, essa faceta autodestrutiva é interpretada de maneira singular pelo ator Thure Lindhardt, recentemente visto também em “Na Natureza Selvagem” (2007). Não é à toa que foi premiado no Robert Festen e é, hoje, uma das boas promessas dinamarquesas em atuação.

NORDKRAFT (Nordkraft, Dinamarca, 2005, 125 minutos)
Direção: Ole Christian Madsen
Roteiro: Ole Christian Madsen, Bo Hr. Hansen e Jakob Ejersbo
Elenco: Claus Riis Østergaard, Pernille Vallentin Brandt, Signe Egholm Olsen, Signe Vaupel, Thomas L. Corneliussen e Thure Lindhardt

Thiago Ramari Thiago Ramari é jornalista graduado pelo Centro Universitário de Maringá (Cesumar). É repórter de economia e política do jornal “O Diário do Norte do Paraná” e é também produtor e apresentador das duas versões do programa radiofônico “Cinema Falado” – um para a Rádio Universitária Cesumar (RUC) e outro para a CBN Maringá.
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Um comentário para “Nordkraft”

  1. trainspoting em maio 15th, 2009 at 9:11

    discordo do + interessante que trainspoting pois o primeiro foi um marco…
    nunca + vou esquecer aquela noite no (antigo) belas artes…1996 talvez…
    concordo que pode ser ,tb, interessante mas so de fazer referencia a trainspoting creio q vale a pena assitir os outros dois.
    igualmente, ja valew a passagem por estas terras tremulas….

    ps. nao assiti o trainspoting II com os caras + “caretas” e c tiver uma previa, agradeço :)

    parabens pelo posting
    abs

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