Não editora, não ator, não sei

Por: Reginaldo Pujol Filho
categorias: Cultura Pop, Isso não é um trailer
Data: segunda-feira, 30 de março de 2009

Pois eu ia escrever uma coisa e tive que escrever outra, por causa de “Entre os Muros da Escola“. O que eu ia falar aqui era de uma experiência que vivi há uns 20 dias. A Não Editora, que lançou meu livro, “Azar do Personagem”, participou de uma edição de Pecha Kucha (saiba mais aqui). Era uma coisa assim, atores encenando trechos de livros da editora. Tudo bem, tudo bom. Mas fui convidado a fazer uma pontícula na função, coisa ridícula, como rimar pontícula com ridícula. Minha participação era a seguinte: quando um dos atores dissesse o meu nome em meio a uma frase, eu, da platéia devia interrompê-lo dizendo “Eu?”, ao que ele diria “Não, o Reginaldo” e eu responderia “Mas eu sou o Reginaldo” e ele diria “O Reginaldo autor, não o personagem”.

Fácil, né?

Então me sentei lá no auditório do Studio Clio, acompanhado da Jajá, do Antônio Xerxernesky, da namorada dele e de uma cerveja e fiquei esperando minha deixa para estrear no mundo do teatro. Trecho de um livro, trecho de outro, eis que começa o trecho do meu conto, respirei fundo. Comecei a prestar atenção em cada palavra do ator no palco, esperando chegar o momento em que ele diria o meu nome. Falavam três, duas, uma palavra, era só entrar no meio da próxima, mas me antecipei e nem o sujeito tinha dito meu apelido Regi, no R já tava o canastrão aqui de braço levantado dizendo “eu?”, sem que ninguém tivesse me chamado.

Complicado, né?

Daí comecei a pensar na complexidade de ser ator. Eu nem precisava encarnar um ex-combatente, cheio de dramas pessoais, com a dor de uma perna amputada e uma guerra perdida para expressar em olhares, trejeitos e remorsos. Bastava ser eu e falar na hora exata. E nem isso consegui.

Foi aí que decidi rever meu jeito de avaliar atuações, repensar radicalismos até mesmo a respeito do Toni Ramos (que pelo menos consegue representar sempre o mesmo papel). E ia cotar essa minha reflexão, esse toque de humildade, quando assisti “Entre os Muros da Escola“.

Danou-se de vez o meu pensamento.

cidadeTirando que o filme é brilhante, desde as questões que propõem, passando pelo desconforto que provoca ao esmiuçar a torre de babel em que estão as salas de aula, com crianças e professores cada vez mais distantes afetivamente, socialmente e qualquer mente que se queira colocar aqui, mas tirando tudo isso, as atuações, das crianças, em especial, são impressionantes. E eu – que não gosto de saber nada sobre os filmes antes de assistir, como já falei – já ia tirando o chapéu pra inacreditável escola de atores mirins da França (eu estava no auge da valorização da classe), quando a Jajá comentou comigo que todo mundo ali, professores e alunos eram não atores. Tudo gente comum, representando a si mesmo, um pouco como o “Cidade de Deus“, ou os atores mirins do “Quem Quer Ser Um Milionário?“, mas acho que numa experiência bem mais radical.

Aí embolou-se tudo na minha cabeça outra vez. 

Que lição a gente tira disso tudo? Em vez de investir atores, vamos chamar um padeiro para ser o padeiro do filme, um motorista de ônibus para ser um motorista de ônibus, um bandido pra ser um bandido e eu pra fazer o papel de mau ator? Se a opção por não atores dá resultados tão impressionantes, será que esse é o caminho? Transformar o cinema num grande you tube, só com gente de verdade? Mas e o que fazer com o Wagner Moura, o Brad Pitt, a Kate Winslet, o Philip Seymour Hoffmann e tantos que constroem e vivem personagens tão variados e maravilhosos? Chamemos eles para representarem o papel de excelentes atores, capazes de múltiplos papéis?

Não sei.

Nem mesmo se estou no papel certo, fazendo todas essas perguntas.

Reginaldo Pujol Filho tem 28 anos, é de e vive em Porto Alegre. Ganha a vida como redator publicitário, mas também é escritor. Publicou "Azar do Personagem", pela Não Editora. Mantém a duras penas o blog www.porcausadoselefantes.blogspot.com.
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Um comentário para “Não editora, não ator, não sei”

  1. Barbara Brosch em maio 27th, 2009 at 14:06

    Reginaldo com todo respeito, mas nota 3 pelo seu “Azar do Personagem’ só p/ tu ñ. desanimar por completo. Ñ. dá p/ acreditar q. tu tens 28 anos, parece assunto de adolescente de 14 anos, tu ainda está nessa?!
    Acho q. tu tem talento e imaginação p/ escrever um livro de nível mais elevado. Tu ñ. fica c/ a consciência pesada de ter levado a tanta gente tanta idéia, digamos, no mínimo ‘suspeita’. Tua mãe, teu pai, tuas irmãs e irmãos se tens, já leram? Eles gostaram? Eu ficaria triste se soubesse q. um filho meu passasse prá frente ‘isso’.
    Mas, quero te dizer o seguinte: Continue a escrever, tu tens senso de humor excelente, só q. escolheu mal o ‘tema’. Pior foi o Rodrigo Rosp q. não teve a sensatez de te avisar e ainda colaborou Ele deveras, não tem coração.
    Bjo. prá tu Reginaldo, não leva a mal, não! Quem avisa é q. é amigo. Bjo. de novo!

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