Movimento Rápido dos Olhos
Por: Reginaldo Pujol Filho
categorias: Colunas, Cultura Pop, Espetáculos, Isso não é um trailer
Data: sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Cabei de chegar do show do R.E.M. Já que a performance e o espetáculo vão ser devida e mais qualificadamente comentados por um monte de pessoas, vou falar de uma outra coisa. Eu já tinha ido a uns outros tantos shows do R.E.M. e não tinha me dado conta.
Falo do movimento rápido dos olhos que as platéias estão (ou têm que estar) desenvolvendo. Porque se não estão, também não estão vendo o show. Aconteceu hoje e também no Marcelo Camelo, no Jorge Drexler e em todos os shows que tenho ido. É entrar aquele hit, aquela que todo mundo faz uhu e câmeras e celulares (que não são mais do que câmeras que telefonam) pro alto. Dê-lhe gravar, fotografar pra amanhã botar no you tube, no orkut, no blogue. Mas vem cá, enquanto fica ali fazendo o enquadramento, será que o sujeito tá vendo o show? Digo, com seus olhos e não miniaturizado pelos olhos da câmera? Têm que ter um movimento muito rápido de olhos pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
E, déficit de atenção à parte, isso me faz pensar numa outra coisa. Na persistência do livro. Calma, déficit de atenção sim, esquizofrenia não. É que esse fenômeno dos shows é parte de um fenômeno muito maior. Já escrevi sobre isso aqui. Parece que estamos em um momento em que se prefere a memória do disco do que a da cabeça. Em que a narração das histórias vividas fica por parte da câmera. Antes de curtir o momento, se fotografa, se grava. E pra quê? Será
que é pra lembrar depois? Mas pra isso não serve a cabeça? Será então pra compartilhar, mostrar pros amigos, colocar na internet? Pode ser, acho. E aí eu chego na persistência do livro. Falei que fazia sentido. Pergunto Como é que sobrevive esse objeto e essa experiência totalmente individuais, nesse mundo da memória gravada e compartilhada? Enquanto a gente não vive um minority report ou coisa parecida, em que se possa gravar o que se passa na nossa cabeça, o livro continua tendo alguma coisa que deixa só em mim, ou só em ti. Continua tendo um quê de hermetismo na relação leitor/livro. Claro, a música, o filme, tudo deixa uma sensação única e pessoal em cada um de nós. Mas é que o consumo do livro, todo ele, é individual. Mas permitem experiências em grupo. Vivenciar o mesmo momento. Já o livro, como é que faz? Não adianta fotografar a página, fazer um mpeg do livro. Ele tá, e muito, dentro é da cabeça. É um produto estranho aos nossos tempos, me parece.
E me parece também que não preciso me justificar por não ter escrito sobre literatura e/ou cinema que era o prometido pra esse espaço. Comecei com o R.E.M, mas cheguei no livro. E tem “Minority Report” escrito ali em cima. Até.






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