Isso não é um trailer
Por: Reginaldo Pujol Filho
categorias: Colunas, Isso não é um trailer
Data: quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Assim: se eu pudesse fazer uma promessa pra quem lê essa coluna, seria a de que nunca, nunca, vocês vão ler spoiler por essas linhas. Até pouco tempo atrás, eu não sabia bem o que era spoiler. Mas aí me contaram. E daí descobri que eu não gosto mesmo de spoiler. Não sabe o que é um? Pois bem, então cuidado, porque essa coluna é um metaspoiler, ela vai te antecipar, vai te contar coisas sobre spoilers.
Mentira.
Vai não.
Eu não gosto de spoiler pelo mesmo motivo pelo qual sei que sou o cara no mundo que mais adora o filme “Mais Estranho que a Ficção”. Simples: quando o citado estreou aqui em Porto Alegre, li num jornal (que não dizia spoiler antes da coluna) o seguinte começo de resenha: para os desavisados pode parecer um filme de Charlie Kaufman. Mas quando (nome do personagem)… e aí eu vi que não era uma resenha, era um resumão, que ia contar todo o filme. Preferi ficar como um desavisado, sem saber porque não era um roteiro do Charlie Kaufman.
E, desavisado, fui pro cinema ver um filme que eu nem lembrava porque queria ver, do qual não sabia atores, diretor, roteirista, nada. Só sabia que se chamava “Mais Estranho que a Ficção” e isso já era uma boa coisa pra querer se ver.
Daí que eu posso dizer: tive a experiência genuína desse filme. Espero que você tenha assistido pra entender o que eu estou dizendo. Sabe aquilo que o personagem descobre, que faz o filme não ser normal? Aquilo que muita gente viu no trailer? Ou leu no jornal. Ou tá escrito na contracapa do DVD e dá vontade de ver o filme? Bom, se você não sabe, vá correndo ver Mais estranho do que a ficção. Mas se sabe, pois é, eu não sabia. E, por não saber, toda informação do filme veio na máxima potência pra mim. Tudo era surpresa. E tudo isso me fez pensar no spoiler antes mesmo de saber que diacho era isso.
Me fez perguntar por que é que a gente cada vez mais quer saber as coisas antes das coisas? Já viu? Vai sair o Batman da vez. Quando saiu o primeiro Batman contemporâneo, na época de cinema de rua em Porto Alegre, devo ter visto um trailer antes de um filme da Xuxa. Agora, não. É o trailer 1, o 2, o 3 e o 4. E depois o não oficial e as notícias de bastidores que vazam. E todo mundo correndo automaticamente atrás dessa informação. Pra quê? Pra saber antes. Mas saber antes o quê? Umas cenas, um efeito, uma piada? Não é mais ou menos como conhecer um pedaço do quadro antes do quadro? Ou um verso da música antes da música? Ou comer um pouco antes do jantar? Não sei. Não gosto. Não gosto dessa nossa corrida pra ver quem sabe primeiro, quem viu primeiro, quem gostou e quem não gostou primeiro. Prefiro ver no todo, inteiro, sem comentar Ah, é agora que ele cai que nem no trailer, ou dar um risinho antes em vez de uma gargalhada durante a piada do filme. Quero, se deus permitir e o roteirista, o diretor e o ator deixarem, ser surpreendido a cada cena. Não saber quem matou a Odete Roitman.
Não, não sou maníaco. Não fecho olhos nem tapo ouvidos quando começam os trailers no cinema. Mas evito spoilers, como vou evitar aqui.
Aliás, tinha sido convidado pra escrever sobre livros e literatura nesse espaço, mas me perdi. Talvez seja porque eu pretendia relacionar minha experiência genuína com o “Mais Estranho que a Ficção” com a leitura nem tão virgem de “Extremamente Alto, Incrivelmente Perto”. Mas na hora de falar do livro, não achei meios de não entregar o doce pra quem ainda não leu. E eu não vou fazer isso. Só vou dizer que um dos livros mais incrivelmente belos e extremamente interessantes que eu li nos últimos tempos. Se não leu, leia logo. E ponto final.
Porque isso não é um trailer.
Nem de cinema.
Muito menos de livros.





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