Inspirado na vida real
Por: Gabriel Rocha
categorias: Artigos, Colunas, Oscar 2009, Terra Estrangeira
Data: quinta-feira, 5 de março de 2009
Uma idéia brilhante, com uma narrativa impressionante e uma direção cheia de energia. E isso é só o começo: “Quem quer ser um Milionário?” é um filme que muda conceitos e mexe com o coração. Mas porque tudo isso? Porque vivemos no mundo ocidental, onde as guerras que alguns habitantes dos nossos países travam acontecem a milhares de quilômetros de distância. E essas são apenas algumas, pois as batalhas diárias que acontecem em milhares de outros países que vivem abaixo da linha da miséria nem chegam aos nossos ouvidos. Assim foi o caso de “Cidade de Deus”, que mostrou ao mundo uma realidade completamente diferente das praias e do samba que fazem o Rio de Janeiro tão famoso. E agora acontece o mesmo com “Quem quer ser um Milionário?” (“Slumdog Millionaire”), um filme que abre as portas da verdadeira Índia, mostrando episódios da vida do jovem Jamal, que perdeu a mãe muito cedo e foi jogado em um mundo de crimes e abusos. Desde então levou o resto dos seus dias em busca de uma vida melhor e de um amor perdido. Em alguns momentos, inclusive, parece que o diretor Danny Boyle se inspirou no filme brasileiro – existem cenas que em muito lembram o longa de Fernando Meirelles. Mas talvez isso não venha de uma “inspiração” – até porque originalidade é um dos grandes motes da produção – e sim que essa coincidência aconteça porque de fato a narrativa do filme brasileiro seja apenas um exemplo de uma realidade que acontece diariamente ao redor do planeta, apenas envolvendo diferentes culturas e propósitos.
O fato é que debaixo dos panos coloridos, da maquiagem estonteante e dos acessórios brilhantes se esconde um mundo sujo e violento, onde somos constantemente confrontados pelos princípios mais básicos, em que a fome, a pobreza, o abuso e a violência contrastam com as belezas naturais e o turismo maçante. É um lugar onde religião e fanatismo levam a população aos extremos. E isso não acontece apenas na Índia, o que não é novidade pra ninguém – a questão é que até que estes filmes venham pra dentro de nossas casas, é mais fácil virar o rosto pro lado e fingir que não estamos enxergando. Foi assim também com diversos países da África, com a Bósnia, com a Rússia, com a China e com milhares de outras regiões. Um dia também será assim com o Haiti, que fica há três horas de Nova York e mesmo assim é hoje o segundo país mais pobre e violento do mundo. É, caros amigos, pra que enfrentar o problema de frente se podemos dar a face e continuar preocupados com a final do Big Brother ou com o dramático desfecho da novela das 20h?
O mundo não espera por ninguém, é um mecanismo em constante evolução. Palavra esta que, nesse caso, não trabalha no bom sentido – bem pelo contrário, é a evolução do desrespeito, da agressão, da burrice, da falta de compaixão e da individualidade. É um progresso que caminha de costas e de olhos vendados, tão rapidamente que quando menos esperar vai estar batendo na sua porta pra assistir ao Fantástico junto com você. E aí, quando olhar pra televisão, será o seu rosto na história trágica da semana,não mais a do seu vizinho ou a do país do lado.
“Quem quer ser um Milionário?” ganha a corrida por aí, nos colocando dentro de uma história impressionante, num contexto inimaginável repleto de situações que fazem até o mais frio dos seres humanos se arrepiar. No entanto, tudo é feito com muita delicadeza, pois temos como personagem central esse menino, Jamal, que poderia ter sido um grande criminoso e acabou se tornando um herói memorável. Só até aqui, lembra “Cidade de Deus” ou não? Pois é, mas as semelhanças não vão tão longe, e esta obra, apesar de impactante, tem uma beleza inexplicável. Só assistindo pra entender – é o que recomendo. Não espere um segundo: assim que o filme for pros cinemas, vá também!






Deixe um comentário