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Ian McEwan dispensa reparos

Written on 26 de maio de 2008 – 1:53 | by Robledo Milani |

Há poucos autores internacionais, atualmente, que consigam conciliar uma interessante carreira literária com uma obra cinematográfica de relevância. Um deles é o norte-americano Michael Cunningham (de “As Horas” e “Uma Casa no Fim do Mundo”). Outro é o inglês Ian McEwan. Ele é o responsável pelo assustadoramente tocante e cruelmente incisivo “Reparação”, que deu origem ao mais belo e comovente dos cinco filmes indicados ao Oscar na categoria principal neste ano: “Desejo e Reparação”. E se o filme já é impressionante, imaginem só o que há no livro!

Tudo bem que “Onde os Fracos Não Têm Vez” permitia diferentes níveis de leitura, e que “Sangue Negro” contava com a atuação arrebatadora de Daniel Day-Lewis. Ou que “Conduta de Risco” possuía um dos roteiros mais intrincados do ano e que “Juno” exalava frescor e originalidade. Nenhum, no entanto, chegava perto da maestria proposta por “Desejo e Reparação”. Os cenários, os protagonistas, a direção, os figurinos, a fotografia, a trilha sonora (premiada com o Oscar, na – injustamente – única conquista dentre as sete indicações recebidas) – tudo combinava à perfeição. Mas isso de nada adiantaria não fosse o roteiro absurdamente envolvente, escrito pelo oscarizado Christopher Hampton (“Ligações Perigosas”). E de onde veio o enredo? Do romance impecavelmente bem escrito por McEwan.

Eu já li dois livros de Ian McEwan: “Amsterdã” (vencedor do Booker Prize 1998) e este “Reparação” – este último, claro, motivado pelo lançamento da adaptação cinematográfica. E em ambos tive o mesmo sentimento de me envolver pelas frases, me encantar pelas reviravoltas, de ser surpreendido pelo óbvio e, ao mesmo tempo, inesperado. Com personagens bem estruturados, acontecimentos dispostos de modo inteligente e surpresas calculadas, o leitor é convidado a um mundo tão visual – e daí o porquê de sua familiaridade com a sétima arte – quanto poético. Somos embalados, e quando percebemos estamos vivendo aquelas mesmas situações, tão perdidos e encantados quanto os seres ficcionais.

Este é o segundo romance de McEwan que é levado às telas. O anterior, “Amor Sem Fim” (Enduring Love), encontra-se disponível em dvd no Brasil com o título “Amor Obsessivo”. É um bom trabalho, porém aquém desta nova adaptação. Se você gostou do filme, leia o livro e se encante ainda mais. Agora, caso não tenha assistido ao longa, ainda melhor! Seja apresentado antes à jovem Briony Tallis e descubra o grande crime que ela, ainda aos tenros 12 anos de idade, comete, destruindo as chances de felicidade de toda a família, colocando-a numa saga que levará uma vida inteira em busca do perdão. Ela precisa consertar seus pecados. Já McEwan é perfeito, e necessita de reparo algum para conquistar qualquer leitor.

Por Robledo Milani (robledo@cineronda.com.br)

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