Goodbye Solo
Seria impossível afirmar que “Goodbye Solo” é um daqueles filmes considerados complicados. Da mesma forma, seria complicado regular a impressão passando a classificá-lo como um filme simples. Se a primeira argumentação se desmancha frente à naturalidade do ritmo narrativo e à simplicidade do enredo; a segunda se faz enfraquecer facilmente quando presenciamos o singular estilo dramático trabalhado pelos personagens, concomitantemente a sua contida e lúcida poeticidade.
O terceiro projeto de Ramin Bahrani, diretor americano e professor de cinema na Universidade de Columbia, ficou pronto em 2008, logo quando este completava dez anos da sua primeira incursão cinematográfica, com o curta-metragem “Backgammon”. Somente em 2000, dois anos mais tarde, é que sua estréia como diretor pode ser realizada em “Strangers”, longa-metragem absolutamente desconhecido, mesmo nos Estados Unidos. Mais felizes e bem divulgados, “Man Push Cart” (2005) e “Chop Shop” (2007) podem finalmente nos dar uma amostra do trabalho ao qual se debruça Bahrani. Neles, assim como em “Goodbye Solo”, o interesse na vida de personagens não norte-americanos quando nos Estados Unidos se dá como referência convergente. Assim, a predileção pela composição do cotidiano – ou melhor, o cotidiano como composição – tem na suavidade da exposição talvez o principal de seus méritos.
A cena inicial é a apresentação completa e suficiente do que se verá distribuído pela estrutura do filme. William (Red West) é o passageiro do taxista senegalês Solo (Souleymane Sy Savane). Fazendo uso do mais tradicional dos enquadramentos deste momento – impossível não recordar o clássico de Martin Scorsese, “Taxi Driver” (1976), ou, mais recentemente, “Colateral” (2004), de Michael Mann – a proposta é lançada: William oferece uma alta quantia em dinheiro para que dentro de vinte dias Solo o leve até Blowing Rock, famoso desfiladeiro localizado nas proximidades do rio Johns, na Carolina do Norte. O lugar destinado, no entanto, somente poderia passar por escolha fortuita ou divulgação comercial (afinal esta é sua função hoje em dia) aos que desconhecem a história do local.
Conta-se que, em meados do século XVIII, um casal de índios de tribos rivais passava por Blowing Rock quando vislumbrou um sinal vindo do céu. A mensagem destinava-se ao guerreiro e recomendava que retornasse para auxiliar os seus. Atordoado entre ter de cumprir o imponente chamado ou seguir com o pedido do coração, o jovem jogou-se de cima da mais alta rocha. Desconsolada pelo acontecimento, a índia implorou aos céus que trouxessem seu amor de volta e, de forma grandiosa e piedosa, teve sua vontade atendida. No filme, a passagem simbólica que se une a este e a outros mitos da região é a de que, pela posição da rocha em relação à corrente de vento vertical, tudo o que é jogado do seu alto não cai, mas segue para cima, em direção ao infinito.
Voltando ao filme, Solo estranha a proposta de William e em uma brincadeira inusitada pergunta se o senhor de expressão sisuda não estava pensando, por acaso, em atirar-se lá de cima. O diálogo movimentado pelas trocas de olhares no espelho retrovisor é só mais um dos recursos que vão se incrementando delicadamente na grande atuação de ambos os atores.
A partir de então, preocupado de uma forma pouco comum com aquele estranho passageiro, Solo começa a se aproximar de William. Suas investidas em acompanhar o dia-a-dia do homem se resumem em observá-lo a freqüentar um cinema de rua, o que revela pouco ou nada do personagem moldado com perfeição por West.
Enquanto William, na figura de uma incógnita de mil possibilidades, seria a espécie de uma rainha do tabuleiro do diretor, Solo é tão surpreendente quanto um peão. Seu relacionamento com a esposa é pouco explorado, mas o apego à filha Alex o revela doce, brincalhão e constantemente dedicado. Oposição clara ao silêncio rochoso de seu novo ‘amigo’ que, dificilmente passando de monossílabos, não faz questão de comentar sobre sua vida, deixando com que o passado e o presente se envolvam na mesma cortina nebulosa.
O envolvimento desse par tão distinto evolui e retrocede. Não é raro que se estabeleça uma relação extravagante entre aquele que quer ajudar, Solo, e aquele que não quer ser ajudado, William. Sem ser melodramático, Bahrani respeita o direito dos dois. Descarta saltos temporais ou surpresas narrativas e deixa com que a história simule a caminhada lenta – mas não tediosa – dos homens que tem uma grande decisão a tomar.
“Goodbye Solo” foi premiado no Festival de Veneza de 2008, na semana dos críticos. Recebeu de Roger Ebert, crítico americano, a memorável observação de considerar Ramin Bahrani como um dos grandes novos nomes do cinema americano. Ao subir o letreiro, ainda no escuro da sala, pouco são os que desconfiam disso.
