“Gomorra”

Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Película
Data: terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Um dos filmes mais polêmicos, conturbados e elogiados da última temporada, “Gomorra” é uma bela amostra de um novo caminho para o cinema italiano contemporâneo, que deixa de lado as comédias românticas e as crônicas familiares e de costumes para centrar seu foco em problemas muito mais urgentes e necessários. E o que temos aqui não é um longa para todos os públicos, mas sim indicado somente para àqueles que não temem a verdade e suas conseqüências, por mais duras e sofridas que elas sejam. E esta posição deve se refletir nos dois lados da tela.

Baseado no livro-reportagem homônimo de Roberto Saviano, “Gomorra” tem como mote as atividades da organização criminosa que mais assassinou pessoas nos últimos trinta anos em todo o mundo, a Camorra. E a máfia vista aqui é completamente diferente daquela eternizada pela sétima arte no clássico “O Poderoso Chefão”, por exemplo. Aqui a morte é crua e sem sentimento, num lugar onde não há espaço para a honra, lealdade ou esperança. O mais interessante, no entanto, é o ponto de vista adotado no discurso: não acompanhamos os mandantes, aqueles que controlam os destinos dos demais. Não, muito pelo contrário. Ficamos, sim, ao lado da outra extremidade, dos mais fracos, dos tolos e ingênuos que são levados pelas circunstâncias a considerar inimigos mortais aqueles que nasceram na casa vizinha e que até um dia antes dividiam sonhos e refeições. Vemos os pobres, os desencaminhados, os que não tem para onde ir nem como seguir respirando. O único caminho para eles é a luta, é a violência, é o próprio fim.

“Gomorra” incomodou muita gente. Saviano, por exemplo, após a publicação do livro foi condenado à morte pelos mafiosos que denunciou, e hoje em dia vive sob proteção policial. Por outro lado, colocou em evidência uma realidade há muito relegada ao hemisfério sul, aos países de terceiro mundo, como se o progresso atingisse a todos na Europa, por exemplo, de forma uniforme e unânime. A Itália é um país de contradições, que guarda um passado incrível, ao mesmo tempo em que aparenta não ter um futuro seguro. E o diretor Matteo Garrone, que estava há quatro anos sem filmar, retorna com um vigor surpreendente, compondo um painel preciso e equilibrado do quão triste e aterrorizante é a situação enfrentada naquela região hoje em dia.

É difícil se deixar envolver por “Gomorra”. O roteiro, escrito em conjunto por seis profissionais distintos, desde Garrone e Saviano, até veteranos como Ugo Chiti (“Manual do Amor”) ou novatos como Maurizio Braucci, se utiliza de cinco personagens distintos para compor uma visão ampla do quão abrangente pode ser a influência das atividades criminosas no sul da Itália. Ou seja, é tudo muito fragmentado, disperso, sem uma linha única a ser seguida. Há o alfaiate explorado que não deve ceder aos interesses estrangeiros, os dois garotos sem perspectivas que se imaginam ‘donos do pedaço’, o menino indeciso entre o marasmo de uma vida correta e o dinamismo do perigo e da delinqüência, o negociador que ganha a vida escondendo grandes quantidades de lixo tóxico e o velho ‘don’ que precisa se acostumar às novas regras à força. São, na verdade, cinco tipos genéricos, que servem mais para dar cor a um grito que é muito mais urgente. O que está sendo dito é que o estrago é feito todos os dias, e que agora não há mais como evitar – talvez, no máximo, tentar consertá-lo.

Indicado ao Globo de Ouro e representante italiano na corrida ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, “Gomorra” foi o grande vencedor European Film Awards (batendo outros favoritos, como o francês “Entre Os Muros da Escola”, Palma de Ouro no Festival de Cannes, o inglês “Simplesmente Feliz”, de Mike Leigh, o espanhol “O Orfanato” e o israelense Valsa com Bashir), tendo sido premiado como Melhor Filme, Direção, Ator (Toni Servillo), Fotografia e Roteiro. Ganhou ainda o Festival de Munique, o Grande Prêmio do Júri em Cannes e Melhor Roteiro no Festival de Chicago, além de ter sido indicado a Melhor Filme Estrangeiro também no Independent Spirit Award, ao British Independent Film Award e ao Satellite. Ou seja, reconhecimento crítico é o que não lhe falta. Felizmente, teve também um ótimo impacto junto ao público, ao menos no seu país de origem, onde arrecadou quase US$ 30 milhões. Ou seja, resta apenas que o resto do mundo acorde para esta contundente denúncia. Com certeza ela merece ser ouvida com atenção.

Gomorra, Itália, 2008
De Matteo Garrone
Com Toni Servillo, Salvatore Abruzzese, Simone Sacchettino, Vincenzo Fabricino, Carmine Paternoster, Gianfelice Imparato, Salvatore Cantalupo, Salvatore Ruocco, Vincenzo Altamura

(nota 8)

Robledo Milani é crítico de cinema, formado em Comunicação Social pela UFRGS. Já teve textos publicados em jornais, revistas e em diversos sites pela internet, além de ter trabalhado em rádio e em televisão. Robledo Milani é membro fundador da ACCIRS, Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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