“Gigante”
Por: Robledo Milani
categorias: 37º Festival de Gramado, Cinéfilo, Colunas, Críticas, Especiais, Película
Data: segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Uma das maiores surpresas do último Festival de Gramado – e também do mais recente Festival de Berlim, pelo que se publicou a respeito – foi uma produção vinda de um país de pouca tradição cinematográfica. “Gigante”, do nosso vizinho Uruguai, é uma obra madura e universal, que se comunica perfeitamente com qualquer tipo de espectador, não importando quem ele é ou de onde vem. E, assim como o peruano “A Teta Assustada” (que nestes dois eventos acabou levando os prêmios principais, apesar de dividir igualmente as atenções do público e da crítica), longa com o qual guarda muitas semelhanças, é um projeto humilde e de poucas ambições, que conquista quem o assiste justamente por esta aparente simplicidade. Característica que termina por se revelar muito mais grandiosa do que qualquer suspeita inicial poderia indicar.
Escrito e dirigido pelo jovem Adrian Biniez, que antes disso havia feito apenas dois curtas-metragens, “Gigante” não revela a inexperiência do seu realizador e, muito pelo contrário, aponta para uma visão muito concisa e delicada de mundo. A história é bastante direta, sem grandes reviravoltas: o protagonista – o tal ‘gigante’ do título – é um segurança de supermercado que se apaixona, à distância, por uma colega de trabalho, e tem dificuldades em revelar esse novo sentimento a ela. Ele passa as noites observando através de monitores os demais funcionários do local. Tudo é sempre igual e monótono, até que percebe uma nova moça da limpeza. Aos poucos tenta se aproximar dela, sem muito sucesso. A acompanha de longe, descobrindo hábitos, gostos e particularidades. Ambos compartilham interesses, e não vivem em universos muito distantes. O que falta para se cruzarem? Talvez só um pouco de iniciativa. Ou mero acaso.
“Gigante” ganhou o Urso de Prata no Festival de Berlim, além de dois prêmios especiais (inclusive um para diretores estreantes). Já na mostra latina da serra gaúcha foram mais 3 reconhecimentos: Melhor Filme segundo a Crítica, Ator e Roteiro. Kikitos merecidos, que apontam para o
que o longa tem mesmo de melhor: uma história envolvente e sensível e um intérprete à altura do desafio que lhe é proposto. Horacio Camandule havia atuado apenas em teatro e em um único curta (o anterior do próprio Biniez), mas, assim como o diretor, demonstra uma segurança total de sua presença que, inevitavelmente, domina a tela, ao mesmo tempo em que se revela pequena diante de emoções tão comuns a todos nós, como amor, timidez, medo da rejeição e felicidade em pequenas conquistas. Um homem tão grande quanto qualquer um disposto a viver plenamente.
Na última década o cinema uruguaio tem entregue ao cinéfilo mais curioso verdadeiras pérolas. “Gigante” tem potencial suficiente para ficar ao lado de obras como “Whisky” (2004), “Coração de Fogo” (2002) e “25 Watts” (2001), por exemplo. É um exemplar digno e honroso de um fazer cinematográfico discreto e bastante humano, que não pretende reinventar a ordem das coisas, mas que inevitavelmente arrebata com sua sinceridade e pela forma honesta e madura com que discorre sobre assuntos íntimos e próprios de cada um de nós. Por mais óbvio e clichê que possa soar, o certo é afirmar que este filme não é imenso apenas no título, mas sim em cada uma de suas intenções e, principalmente, nos feitos e impressões que provoca naqueles do lado de cá da tela grande.
Gigante, Uruguai, 2009
De Adrián Biniez
Com Horacio Camandule, Leonor Svarcas, Ignácio Alcuri, Fernando Alonso, Diego Artucio, Ariel Caldarelli, Fabiana Charlo, Andrés Gallo, Federico García
(nota 9)






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