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“Frost/Nixon”

Written on 14 de abril de 2009 – 9:44 | by Robledo Milani |

“Frost/Nixon” é exatamente o contrário do que se poderia esperar de um filme com tal argumento. Senão, vejamos: a história e os bastidores de uma entrevista concedida por um presidente que renunciou ao seu cargo a um jornalista sem a menor credibilidade. Pouco atraente, certo? Porém o que vemos na tela é um trabalho fenomenal de dois atores à frente de um dos textos mais impressionantes do ano. Muito já se falou sobre a alta qualidade dos filmes selecionados ao Oscar 2009. Mas este talvez seja o mais inesperado entre os concorrentes à Melhor Filme: ao invés de um drama político cansativo e metódico temos um thriller emocionante entre homens brilhantes em busca de um reconhecimento quase esquecido. Como desta batalha apenas um sairá vencedor, será quase impossível não se deixar envolver pelo desenrolar dos acontecimentos. E o que pode ser melhor do que entretenimento de alta qualidade que ainda provoca reflexão?

David Frost era, na metade dos anos 70, um jornalista em franca decadência. De origem britânica, ele, que já chegara a ter programas exibidos nos Estados Unidos e na Inglaterra, estava tendo que se contentar em apresentar um show de variedades na Austrália! Quando assiste pela televisão o presidente norte-americano Richard Nixon anunciando sua renúncia após os escândalos de Watergate, enxerga ali uma possibilidade de virar o jogo a seu favor. A ideia era convencer o político a conceder uma entrevista exclusiva. Com ela, iria procurar obter toda a verdade por trás daqueles atos, a ponto de torná-la significativa e, com isso, resgatar sua credibilidade jornalística.

Richard Nixon, o homem que aproximou o Ocidente do Oriente, tirou os americanos do Vietnã e encerrou dois mandatos no posto mais poderoso do mundo de forma vergonhosa, via aquela proposta de forma diferente. Afinal, que mal um apresentador de televisão pouco conhecido poderia lhe causar? E, por outro lado, o preço daquela brincadeira não seria barato – Frost concordou em pagar US$ 600 mil pela conversa! E todo aquele espaço na mídia poderia significar também seu retorno à opinião pública, manejando a verdade sobre os fatos da forma que mais lhe conviesse, possibilitando até um resgate público e uma sobrevida política. Atraente, sem sombra de dúvidas. Mas qual dos dois poderia estar mais errado?

A entrevista que Frost conduziu com Nixon se estendeu por quatro programas, todos com os temas que seriam abordados muito discutidos e pré-aprovados. Para se ter uma idéia, apenas no último encontro todos os escândalos de abuso de poder na presidência poderiam ser tratados. E enquanto um acreditava estar com o jogo ganho, o outro preparava a reviravolta final, num pulo do gato inesperado e surpreendente. E nós, deste lado da tela, somos inevitavelmente contaminados por este suspense, adquirindo um grau de envolvimento espantoso.

Isso se deve, claro, a uma feliz conjunção de talentos. Se o texto de Peter Morgan (“A Outra”) não fosse tão preciso nos detalhes e no uso de casa palavra, pouco adiantaria a mão segura do diretor Ron Howard (“O Código Da Vinci”) ou as interpretações acima de média de Frank Langella (“Superman – O Retorno”) e Michael Sheen (“Anjos da Noite”). Aliás, “Frost/Nixon” tem muitas semelhanças com outro longa de cunho político recente, “A Rainha”. Igualmente escrito por Morgan, não só contava com Sheen no elenco principal como também tinha como protagonista um intérprete até então pouco reconhecido num desempenho fenomenal. Se antes foi Helen Mirren como a Rainha Elizabeth, agora é Langella que dá vida a um Nixon assustador!

E esta adequação – não só dele, mas também do companheiro em cena – vem da origem da interpretação. Afinal, os dois foram protagonistas da peça teatral – pela qual Langella ganhou o Tony, o Oscar da Broadway – escrita pelo próprio Morgan. E foi esse um dos pontos fortes que garantiram Howard na direção – afinal, ele venceu uma disputa que incluía Martin Scorsese, Mike Nichols, Sam Mendes e George Clooney ao afirmar que pretendia alterar o mínimo possível da estrutura teatral. Porém, ao contrário do recente “Dúvida”, que se ressente deste passado, tem também elenco, direção e roteiro impecáveis, mas possui um ritmo mais cinematográfico, sendo dotado de um dinamismo que só o cinema oferece. E não é qualquer um que consegue transitar de um meio a outro sem alguns tropeços.

“Frost/Nixon” é um filme muito bem sucedido em todos os seus propósitos. Consegue nos colocar lado a lado com um homem que entrou para a História pelo que fez e, principalmente, pelo que deixou de fazer, enquanto somos guiados por outro homem que fez História justamente quando ninguém mais acreditava no seu potencial. Chocante, revelador e envolvente, talvez pudesse ser um pouco mais emocional – porém, por outro lado, isso seria pedir demais. Afinal, está-se falando de pessoas pouco convencionais acostumadas a uma realidade muito distante daquela que vivenciamos cotidianamente. E só pela oportunidade que nos é oferecida de observá-los mais de perto, todo reconhecimento é apropriadamente merecido.

Frost/Nixon, EUA/Inglaterra/França, 2008
De Ron Howard
Com Frank Langella, Michael Sheen, Sam Rockwell, Kevin Bacon, Oliver Platt, Rebecca Hall, Toby Jones, Matthew MacFadyen

(nota 9)

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