Fina e popular estampa

Por: Fábio Morales
categorias: Destaque, Especiais
Data: quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Imagens de natureza, praia, esportes, atores sem camisa, muita cor e uma música bem pra cima. Assim foi dada a largada para “Fina Estampa”, a nova novela das nove da Rede Globo, que ocupou o lugar da cinzenta, densa e morna “Insensato Coração”. A “pegada” dos autores é bem diferente: enquanto um mira na elite carioca, o outro tem a mão para novelas mais, digamos, “povão”. Com oito capítulos levados ao ar, o autor confirma essa tendência e “Fina Estampa” já tem o ibope maior que suas 5 antecessoras nesse mesmo período, que começaram sempre com índices abaixo do esperado pela emissora. Aguinaldo Silva jogou alto, mirou e, parece, acertou.

Aguinaldo, grande autor e marqueteiro nato, chamou atenção para sua novela há muito tempo. A sinopse saiu de sua Master Class (ideia inovadora que visava lançar novos talentos), trocas de elenco a todo o momento, acusações de plágio e outras tantas polêmicas criadas pelo novelista no mundo virtual. Falar em novelas é falar em clichês, em repetição de temas, inverossimilhanças e por aí afora. A maioria é uma ideia readaptada ou com tintas diferentes, que mesmo assim conquista o telespectador brasileiro.

A história inicia com a imigrante Griselda (Lilia Cabral) que vem para o Brasil ainda nova, se casa e tem 3 filhos que cria sozinha depois do sumiço de seu marido no mar. Para sobreviver, ela vive de fazer concertos nas casas das pessoas – um “marido de aluguel” como ela mesmo é chamada. Rejeitada por um dos filhos e cortejada por um português dono de bar, chama atenção também de um sofisticado chef de cozinha. Por isso terá que enfrentar a ira de Teresa Cristina (Christiane Torloni), esposa do último. Ainda no decorrer da trama ela irá ganhar na loteria. E assim surge a pergunta: até que ponto as pessoas mudam?

Nesse início de jornada Aguinaldo se mostra o mestre popular que é com um texto ágil, acessível e de fácil identificação com as massas. O povo voltou a sorrir e a dormir mais tranquilo após a estreia de “Fina Estampa”. Lilia Cabral há tempos merecia uma protagonista absoluta. Senhora de sua atuação, a atriz não fez feio e já conquistou o público de cara ao ser rejeitada pelo filho. Acredito que esse papel irá sedimentar definitivamente o posto de estrela da atriz. Como ponto negativo, no entanto, se destaca o exagero no ar masculino da personagem.

Sua antagonista é a absurdamente linda Christiane Torloni, que por sua vez está no fio do trapézio, fazendo um tipo muito parecido com outros trabalhos (a Laila de “Um anjo caiu do céu” ou a Melissa de “O Caminho das Índias”, por exemplo). Quando em cenas mais sérias a atriz convence, mas quando carrega nas tintas fica caricata e repetitiva, com exceção para suas cenas com Marcelo Serrado. Estes momentos são inspiradíssimos por parte do autor e com bordões que em breve estarão na boca do povo. Serrado volta para Globo depois de seis anos na Record com trabalho impecável e totalmente diferente do que andava fazendo. Ele é um dos melhores atores da geração dos 40 anos, e espero que a partir daqui ganhe seu devido destaque.

Por outro lado temos Dalton Vigh, galã quase só lembrado por Aguinaldo e que faz muito bem seu trabalho, felizmente nos livrando da repetição de elenco tão frequente. Ainda são destaques a afiadíssima dupla Júlia Lemmertz e Dan Stulbach, a sempre ótima Renata Sorrah, que volta em papel diferente do habitual, bem como Arlete Salles, que anos só fazia o mesmo personagem e surpreende deixando os vícios de lado. Marcos Pigossi (Rafa), Sophie Charlotte (Maria Amália) e Guilherme Boury (Daniel) chamam atenção no elenco jovem, mas a grande surpresa porém foi Caio Castro (Antenor), que vinha acumulando interpretações pífias em “Malhação” e “Ti-Ti-Ti”, mostrou força e densidade nas cenas fortes com Lilia Cabral. O núcleo do marido que bate na mulher, dependendo de como for abordado no decorrer da trama, pode se tornar chato, e o que salva é a trinca de atores Alexandre Nero, Dira Paes e a talentosa Carol Macedo – esta lançada em “Passione”.

Mas nem só de bons atores vive “Fina Estampa”. Malvino Salvador ainda não mostrou a que veio, mas tem crédito devido a participações no teatro e pode surpreender. A incrível Totia Meirelles está escondida no pior e mais fraco núcleo da história, o da praia. Eri Jhonson, Carlos Machado, Rodrigo Simas, Fábio Keldani, Luma Costa e Wolf Maya disputam para ver quem ganha o prêmio da canastrice. Esse último, aliás, deveria se manter somente atrás das câmeras. Carlos Casagrande é outro que novela após novela não aprende a atuar, e a dupla insossa Milena Toscano e Adriana Birolli definitivamente não me agrada: carisma zero.

Mesmo assim, o saldo geral deste início é pra lá de positivo e com grandes possibilidades de crescimento com as entradas de Carolina Dieckmann no papel de uma periguete. O último papel decente dela em novelas veio das mãos do mesmo autor. A veterana Eva Wilma, aqui como uma tia que vem infernizar a vida da vilã, e o marido desaparecido da protagonista, vivido por José Mayer, são outros que ainda estão por entrar.

Espero que esta estampa siga fina, popular, colorida e que faça o povo ir dormir mais leve. Tenho cá pra mim que o mestre Aguinaldo vai acertar em cheio e poderá se gabar muito em breve no seu twitter de uma das maiores audiências dos últimos tempos. É esperar pra ver!

Cotação: 8,5

Fábio Morales é formado em turismo e hotelaria. É, também, um simples apaixonado e viciado em teatro. Escrever sobre uma coisa que me faz tão feliz é um prazer. Welcome to my life!
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