“FilmeFobia”
Por: Robledo Milani
categorias: Críticas, Especiais, Filmes, Guarani, Película
Data: terça-feira, 12 de maio de 2009
O que faz um ser humano enfrentar conscientemente seus maiores medos? Ainda mais se este temor é relacionado a causas irracionais e é aparentemente desprovido de lógica? E quão verossímil é a declaração que afirma que “a única verdade é aquela contida na reação de um homem diante sua fobia”? Pois foi atrás destas respostas que o diretor Kiko Goifman estava quando elaborou “FilmeFobia”, um longa que transcende gêneros. Indo de encontro com a tendência atual de romper barreiras e dialogar com o maior público possível, este é um trabalho de difícil definição: documentário ou ficção? Ilusão ou realidade? A quem compete estas explicações?
A ideia era aparentemente simples: selecionar fóbicos e colocá-los em situações limites, para ver como reagem. O objetivo? Estudar as origens destes medos, analisá-los e, se possível, descobrir como superá-los. E é justamente isso que presenciamos na tela… ou não? Uma reflexão mais profunda revela uma conclusão interessante: portadores destas condições, digamos, especiais, concordariam tão pacificamente em serem atados – e em alguns casos até vendados – e expostos ao pânico absoluto para um registro – na maioria das vezes, humilhante – em vídeo? Absolutamente não! E neste momento nos damos conta que tudo não passa de uma encenação! Só que então surge outra questão – quem está sendo enganado: nós, que até então estávamos comprando tudo como fato consumado, ou os realizadores, que querem vender algo que obviamente não passa de fantasia?
O teórico, crítico e professor de cinema Jean-Claude Bernardet (roteirista de filmes clássicos da produção nacional, como “O Caso dos Irmãos Naves”, de 1967, e de obras mais recentes, porém igualmente elogiadas, como “Um Céu de Estrelas”, de 1996) cruza definitivamente a fronteira entre quem estuda e quem faz para aparecer como ator, à frente das câmeras. Aqui ele é o próprio Jean-Claude, um diretor de cinema que busca revelar estas diferentes fobias. E enquanto vemos homens e mulheres lidando com seus pavores – e estão todos lá, desde os mais esdrúxulos, como anões, ralos, penetrações, botões e cabelos, até as mais comuns, como ratos, agulhas, pombos, cobras ou palhaços. Mas não somos colocados apenas nestas situações: acompanhamos também todo o provável processo criativo do suposto cineasta, suas discussões com a equipe, a elaboração do roteiro e até consultas com colegas, como quando o mítico Zé do Caixão entra em cena para dar sua opinião sobre determinados assuntos.
Alguns momentos são determinantes em “FilmeFobia”. Nem todos reagem descontroladamente. Um homem, por exemplo, fica completamente estático diante sua fobia, e por isso é criticado pelo realizador. “Se seu medo se manifesta internamente, então ele não nos interessa”, afirma Jean-Claude. Mas qual a razão deste desabafo? Não seria um outro viés a ser observado? Ou talvez estaria o verdadeiro foco no exibicionismo latente que situações assim podem provocar? O que, no fundo, está sendo estudado? Por outro lado, lá pelas tantas quem aparece é o próprio Goifman (que estreou no cinema com o ótimo “33”, em 2004, mas que desde o enfadonho “Atos dos Homens”, de 2006, não realizava nada de muito significante), que revela ter fobia por sangue e passa a discutir os problemas que isso gera em sua vida e como seria bom poder vencê-la. Isso, por fim, nos leva a mais um questionamento: seria esse apenas mais um exercício de auto-ajuda extremamente direcionado?
“FilmeFobia”, surpreendentemente, foi o grande vencedor do Festival de Cinema de Brasília de 2008, levando quatro Candangos: Melhor Filme, Edição, Ator (Jean-Claude Bernardet) e Prêmio da Crítica. Um reconhecimento um pouco exagerado (Ator? Filme?), mas ainda assim relevante. Afinal, este é um longa que provoca e incita o debate e a discussão. E nada que leve ao pensamento pode ser descartado tão facilmente, por mais incômodo que seja.
FilmeFobia, Brasil, 2008
De Kiko Goifman
Com Jean-Claude Bernardet, Kiko Goifman, Hilton Lacerda, Débora Duboc, José Mojica Marins
(nota 6,5)






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