“Feliz Natal”
Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Película
Data: sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Selton Mello é um cara legal. Um ótimo ator, consciente das suas escolhas e ousado em seus projetos. E este espírito inquieto ficou claro mais uma vez ao estrear, com apenas 35 anos, como diretor em “Feliz Natal”, produção acima da média dentro do cenário nacional. Não é uma obra para grandes públicos, e a linguagem aqui utilizada está distante da empregada por ele enquanto ator de filmes como “O Auto da Compadecida” ou o recente “Meu Nome não é Johnny”, e sim mais próxima de trabalhos como “Lavoura Arcaica” ou “O Cheiro do Ralo”. Um longa para poucos, mas que compensa todo o esforço necessário.
Em seu primeiro movimento como realizador, Selton revela uma maturidade impressionante. Também autor do roteiro e responsável pela produção e pela edição, ele nos coloca diante de personagens complexos, que demoram para revelar suas verdadeiras motivações. Não sabemos o que fazem, nem o que os levaram até aquele ponto. Muito menos o que pensam e para onde vão. Tudo é revelado com parcimônia, com muito cuidado, e somente o estritamente necessário – na concepção do diretor, claro. Ou seja, há ainda o que permanece obscuro mesmo após o término da projeção, acompanhando o espectador no caminho de volta para casa, como algo incômodo, porém imprescindível.
“Feliz Natal” começa quando Caio (o discreto Leonardo Medeiros, visto recentemente em “5 Frações de uma Quase História”) decide deixar a esposa cuidando do ferro velho que administram para ir passar a noite de Natal com a família, no Rio de Janeiro. Ao chegar se depara com o sobrinho menor (o pequeno Fabrício Reis, um grande destaque), a mãe bêbada (uma estonteante Darlene Glória, em um papel que não existia no enredo original e que foi escrito especialmente para ela), o pai que o rejeita (Lúcio Mauro, surpreendente), o irmão conciliador (Paulo Guarnieri, contido na medida certa, que prematuramente havia se aposentado da vida artística e reconsiderou esta decisão a pedido do diretor) e a cunhada insatisfeita (a fulgurante Graziella Moretto, de “Cidade de Deus”). Caio acaba sendo um centralizador das atenções familiares, como ponto de encontro de frustrações, desilusões e insatisfações, mas termina por se isentar, escapando pela tangente e evitando maiores conflitos. Da mesma forma o filme procura mais revelar cenários, sem buscar conclusões precipitadas e definitivas.
Apesar deste ter sido um dos filmes brasileiros mais premiados deste ano, grande vitorioso dos festivais de Goiânia (9 prêmios, inclusive Melhor Filme, Direção, Atriz – Darlene Glória – e roteiro), Paraná (5 prêmios, inclusive Filme – Júri Popular, Prêmio Especial do Júri e Atriz Coadjuvante – Darlene Glória) e Paulínia (3 prêmios: Direção, Atriz Coadjuvante – Darlene Glória e Graziella Moretto – e Menção Honrosa, para o menino Fabrício Reis), “Feliz Natal” acabou despertando mais atenção da mídia devido a uma tola polêmica provocada por um “manifesto contra a exploração gratuita da nudez no cinema nacional” escrito pelo ator Pedro Cardoso. Ele se referia a uma única cena em que a namorada dele, a atriz Graziella Moretto, aparece nua diante o espelho. É um momento rápido e fundamental para a compreensão dos sentimentos emulados pela trama. Cardoso até pode ter sua parcela da razão, mas não neste caso. E qualquer um que diga o contrário não deve ter compreendido direito a profundidade das intenções de Selton Mello.
Sensível e duro, honesto e compreensivo, bruto e delicado, terrível e gratificante, iluminado e doloroso. “Feliz Natal” é assim, repleto de dualidades e aparentes contradições. Porém aqueles que se dedicarem e conseguirem ir além das aparências encontrarão uma visão singular das coisas que nos rodeiam. Pode não ser o melhor filme do ano – e certamente não é – mas é, sem sombra de dúvidas, um dos mais relevantes feitos em nosso país em muito tempo.
Feliz Natal, Brasil, 2008
De Selton Mello
Com Leonardo Medeiros, Darlene Glória, Graziella Moretto, Paulo Guarnieri, Lúcio Mauro, Emiliano Queiroz, Fabrício Reis
(nota 8)






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