“Fatal”
Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Película
Data: sábado, 29 de novembro de 2008
A tradução literal de ‘elegy’, o título original, é ‘elegia’, ou seja, “sentimento queixoso, de dó ou de tristeza”. E esta denominação é realmente melhor apropriada a este filme que aborda muito mais a dor da perda do que a felicidade da conquista ou a plenitude do desfrutar. Mas esta interpretação é tão subjetiva e delicada que só poderia ser de uma artista como a espanhola Isabel Coixet, responsável por obras tão sensíveis, belas e sofridas como “A Vida Secreta das Palavras” (2005) e “Minha Vida Sem Mim” (2003).
O novo filme talvez seja o pior desta trilogia, o que está longe ter um significado negativo. “Fatal” não tem tantas camadas de leituras e nem é de cortar corações como os trabalhos anteriores, mas provavelmente seja por isso mesmo o longa mais maduro desta realizadora. É uma obra de aparência simples, econômica, mas que esconde um enredo complexo, que merece ser sentido, ao invés de somente compreendido. É uma trama que fala com a alma e com o coração mais do que com o cérebro, abordando com muito cuidado sentimentos, percepções e reações identificáveis em qualquer um de nós.
Apesar do alarde feito em cima da participação de Penélope Cruz (que está, realmente, maravilhosa, marcando de vez esta fase fantástica que a atriz vem passando, após “Volver” e antes do delicioso “Vicky Cristina Barcelona”), o verdadeiro protagonista de “Fatal” é sir Ben Kingsley (vencedor do Oscar em 1983 por “Gandhi”), um professor universitário e crítico de teatro que leva a vida solitariamente, dividido entre uma amante regular (Patricia Clarkson, também presente em “Vicky Cristina Barcelona”) que aparece de tempos em tempos e as alunas que volta e meia conquista, mas que nunca significam para ele mais do que uma mera diversão ocasional. Porém, um dia entra em sua classe uma mulher diferente (Penélope), pela qual se apaixonará e o fará rever todas as suas certezas.
É, então, “Fatal” uma história de amor? Sim e não. Porque é óbvio que a atração e o relacionamento que surge entre os dois ocupa grande parte do roteiro, mas isso está longe de ser tudo. Muito mais interessante aqui é discutir, questionar e raciocinar a respeito dos motivos que fazem uma pessoa se aproximar da outra e, principalmente, dos porquês que as afastam. Como podemos ser tão sozinhos num mundo tão vasto e como uma única pessoa pode nos completar com tamanha intensidade. Quais as razões que nos levam aos ciúmes, aos descontroles e à insegurança desmedida, ao mesmo tempo em que incidentes completamente alheios ao nosso controle podem alterar todos os nossos ideais e crenças.
Baseado no romance “O Animal Agonizante”, de Philip Roth, “Fatal” conserva muito do estilo deste que é um dos mais importantes escritores em língua inglesa da atualidade. Mas adiciona também um viés feminino a este olhar, combinando uma sensibilidade poucas vezes vista no habitualmente rígido discurso dele. E Coixet é a grande responsável por isso. Em cena assistimos a este mesmo embate de duas oposições – a latina Cruz ao lado do britânico Kingsley. E o melhor é que tudo acaba funcionando em perfeita harmonia. “Fatal” vai direto ao ponto, mas não sem antes ter condescendência neste entendimento de como somos todos tão tolos a ponto e deixarmos passar os melhores momentos de nossas vidas nos preocupando com o futuro, e quando este chega tudo o que nos resta é lamentar o que já passou. Será que um dia aprenderemos? Esta mensagem aqui talvez seja um bom começo de aprendizado.
Elegy, EUA, 2008
De Isabel Coixet
Com Ben Kingsley, Penélope Cruz, Patricia Clarkson, Dennis Hopper, Deborah Harry, Peter Sarsgaard
(nota 8,5)






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