“Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada”
Por: Robledo Milani
categorias: Cinéfilo, Colunas, Críticas, Película
Data: quinta-feira, 27 de novembro de 2008
Apesar do imbecil título nacional, que quase me fez não assisti-lo, “Dan in Real Life” é um filme bastante interessante. E muito disso se deve ao ótimo desempenho de Steve Carell, à presença luminosa de Juliette Binoche e ao olhar cuidadoso do diretor e roteirista Peter Hedges. Esta combinação consegue fazer esta comédia romântica se diferenciar do marasmo em que o gênero normalmente se encontra, subvertendo estruturas clássicas e brincando com os clichês mais comuns, ousando na criatividade e num maior carinho para com os personagens principais.
“Dan in Real Life” é o nome da coluna diária que o escritor Dan (Carell) assina no jornal da cidade em que mora. Ali ele conta as desventuras de ser um viúvo pai de três garotas. Quatro anos após o falecimento da esposa, ainda sente a ausência dela, tanto enquanto homem como quando tem que lidar com as filhas: a mais velha insiste em aprender a dirigir, a do meio é uma adolescente que está vivendo o primeiro amor e a menor só quer um pouco mais de atenção.
A trama começa quando Dan e as meninas se reúnem para passar uma semana com a família, na casa dos avós delas. Uma espécie de tradição familiar. Só que o conforto imaginado está longe de acontecer. Ao chegar descobre que todos – os pais, os irmãos, até os sobrinhos – estão preocupados com ele e em como está lidando com a atual situação. Mais sozinho do que nunca, encontra uma luz numa estranha que conhece ao sair para comprar os jornais. Só que a atração que nasceu naquele momento logo gera um conflito quando descobre que aquela mulher é a nova namorada do seu irmão mais novo.
Com um enredo destes, seria muito fácil transformar “Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada” em mais uma comédia besteirol tola e ridiculamente previsível. Talvez como os distribuidores brasileiros desejassem. Sim e não. Porque estamos diante de um filme que termina entregando ao público o que esperamos, sem grandes reviravoltas ou surpresas. Mas faz isso com tanto carinho, cuidado e delicadeza, que é uma ingrata missão não ficar felizmente satisfeito com o que nos deparamos ao final.
Peter Hedges tem um belo currículo: foi indicado ao Oscar pelo encantador roteiro adaptado de “Um Grande Garoto” (2002), e demonstrou seu talento diferenciado em produções como “Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador” (1993, roteiro adaptado), “O Mapa do Mundo” (1999, roteiro adaptado) e “Do Jeito Que Ela É” (2003, direção e roteiro original). Steve Carell, por outro lado, entrega uma composição bastante diferente da vista recentemente no sucesso “Agente 86” (filmado posteriormente, aliás). Ele está mais próximo da atuação vista em longas mais comoventes, como “Pequena Miss Sunshine” (2006). E, conferindo um toque feminino, temos a oscarizada Binoche (“O Paciente Inglês”, 1996), comprovando que seu talento é realmente internacional, independente da língua ser inglês ou o francês (seu idioma original). Outras boas surpresas são Emily Blunt (“O Diabo Veste Prada”, 2006), numa participação especial, e Dianne Wiest (vencedora do Oscar por “Hannah e suas Irmãs”, 1986, e por “Tiros sobre a Broadway”, 1994), como a matriarca. Já o pretenso novo galã Dane Cook (“Amigos, Amigos, Mulheres à Parte”, 2008, “Maldita Sorte”, 2007) é o passo em falso do elenco, merecendo nada mais do que a certa obscuridade.
“Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada” – ou o muito mais apropriado “Dan in Real Life” – é um ótimo “feel good movie”, daqueles que mexem com nossos sentimentos interiores e nos deixam mais leves, felizes e corajosos para encarar a vida real que nos cerca. Boa história, atores competentes e um diretor seguro do caminho a seguir. Precisa mais?
Dan in Real Life, EUA, 2007
De Peter Hedges
Com Steve Carell, Juliette Binoche, Dane Cook, Dianne Wiest, John Mahoney, Alison Pill, Amy Ryan, Emily Blunt
(nota 8,5)
Leia também:
“Dan in Real Life”, por Ale Simas
“A Vida de Dan”, por Gabriel Ruas





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