“Estômago”
Por: Robledo Milani
categorias: Críticas, Especiais, Filmes, Guarani, Película
Data: domingo, 29 de março de 2009
“Estômago” não é um filme para qualquer… paladar, digamos. Por trás de um senso de humor bem particular, por vezes beirando a grosseria, esconde-se uma obra original e muito interessante, uma das mais curiosas a serem produzidas no cinema nacional na última temporada. E a boa aceitação do público foi determinante para a aceitação deste longa que, ao contar uma história de paixão e vingança, consegue se inserir com competência e merecimento na cada vez mais diversa seleção de obras que brincam com relação entre cinema e gastronomia.
O estreante Marcos Jorge pegou o conto “Presos pelo Estômago”, do livro “Pólvora, Gorgonzola e Alecrim”, de Lusa Silvestre, como base para seu primeiro longa-metragem de ficção. A história é contada em dois tempos, que aos poucos vão sendo conectados. O que vem primeiro, qual é consequência do outro, tudo isso só fará sentido próximo ao término da trama, graças a uma edição inteligente e muito bem estudada. De um lado vemos Raimundo Nonato (o excelente João Miguel, de “Cinema, Aspirinas e Urubus”) chegando na cidade grande com a esperança de conquistar uma vida melhor. Logo consegue um emprego como lavador de pratos numa lanchonete de quinta categoria. Mas a sua chance de virada chega quando tem uma oportunidade de cozinhar. Revelando-se um cozinheiro de mão cheia, não só cai nas graças da clientela – a ponto de ser convidado a ir trabalhar num restaurante melhor – como da prostituta Iria (a revelação Fabiula Nascimento), que se apaixona mais pelas coxinhas de frango que ele prepara do que por ele próprio.
Ao mesmo tempo, enquanto isso se desenrola, acompanhamos Nonato chegando na prisão. Ele é colocado numa cela abarrotada, e só consegue um espaço naquela nova sociedade quando começa a cozinhar para os principais bandidos do pedaço. Bem alimentados, eles passam a protegê-lo e estimulá-lo. Até que recebe a missão de preparar um grande banquete dentro do presídio para uma ocasião mais especial, e um erro de cálculo e excesso de confiança poderá colocar tudo a perder.
“Estômago” é o primeiro filme viabilizado através de um acordo de produção feito entre Brasil e Itália em 1974! Levou mais de um ano de negociações entre a produtora brasileira Zencrane Filmes e a italiana Indiana Filmes para o projeto sair do papel. Depois, tudo foi filmado em cinco semanas nas cidades de São Paulo e Curitiba, sendo que toda a edição e finalização aconteceu em Milão e Roma. Com a carreira internacional garantida – o tratado já oferecia distribuição em vários países da Europa – o foco foi buscar uma comunicação com o espectador nacional, que não decepcionou. E o bom resultado pode ser conferido em várias premiações: Melhor Ator, Roteiro Adaptado e Revelação no Prêmio Guarani de Cinema Brasileiro, Melhor Filme e Ator no Festival de Punta Del Este, Melhor Filme no Festival do Uruguai, Melhor Filme e Ator na Semana Internacional de Cinema de Valadolid, na Espanha, e os prêmios de Melhor Filme pelo Júri Popular, Direção, Ator e Ator Coadjuvante, para Babu Santana, no Festival do Rio. Isso sem falar nas 13 indicações recebidas no Grande Prêmio de Cinema Brasil, inclusive para Melhor Filme, Direção e Ator.
Se João Miguel e Fabiula Nascimento são os destaques, o elenco inteiro merece uma atenção especial. Babu Santana, de “Redentor” e “Cidade de Deus”, está em um dos seus melhores momentos, e as participações de Paulo Miklos (“O Invasor”) e do argentino Jean-Pierre Noher (“Ninho Vazio”) também são boas surpresas. No mais temos uma estreia auspiciosa de um novo cineasta, pronto para desafios ainda mais estimulantes e apetitosos. Talvez “Estômago” provoque alguma indigestão nos mais sensíveis, principalmente no final forte e sem concessões, mas é um produto original e defendido com muita gana. E um pouco de humor negro nunca fez mal a ninguém, não é mesmo?
Estômago, Brasil/Itália, 2007
De Marcos Jorge
Com João Miguel, Fabiula Nascimento, Babu Santana, Paulo Miklos, Jean-Pierre Noher, Carlo Briani, Zeca Cenovicz, Marco Zenni
(nota 8)






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