“Era Uma Vez…”

Por: Robledo Milani
categorias: Críticas, Película
Data: quinta-feira, 25 de setembro de 2008

O diretor Breno Silveira está longe de ser um novato no mundo do cinema. Mesmo assim, “Era Uma Vez…” é recém seu segundo longa-metragem, fruto de uma caminhada muito produtiva e que mostra agora resultados de qualidades indiscutíveis. Primeiro foi o fenômeno “2 Filhos de Francisco”, que levou mais de 5,4 milhões de brasileiros aos cinemas. E desta vez ele retorna com mais um trabalho de impressionantes méritos, tanto artísticos quanto técnicos.

Assim como diz o título, “Era Uma Vez…” é uma fábula. Assim, logo de imediato, já avisa que não há nada de ingênuo ou tolo na história do romance entre um favelado e uma menina rica da zona sul do Rio de Janeiro. Os realizadores sabem que estão falando de universos completamente diferentes, de vidas distantes e de fronteiras quase intransponíveis. Mas o que seria do homem se nos fosse tirada a capacidade de sonhar? Assim Breno e o roteirista Bráulio Mantovani (indicado ao Oscar por “Cidade de Deus”) compõem esse enredo de diferenças e igualdades, mostrando que o amor pode ser mais forte do que muita coisa, menos do que a realidade.

“Era Uma Vez…” é a adaptação definitiva do clássico romance “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, só que transposto para o Brasil deste início de século XXI. Romeu deseja Julieta de longe, ela, quando o conhece, se apaixona irremediavelmente. Um irá atrás do outro, e parece que nada poderá afastá-los. Mas ambos vivem em mundos diferentes, e suas famílias, seus amigos, suas histórias os forçam a caminhos opostos. Mas eles insistem, desafiando a tudo e a todos. E o final, bem… todo mundo sabe como termina.

São tantas as qualidades de “Era Uma Vez…” que é até um pouco complicado saber por onde começar. Mas vamos lá. O diretor já tinha esta idéia em mente antes mesmo do seu primeiro trabalho. Mas só a experiência ensina determinadas coisas, como paciência e detalhamento. Então, o que percebemos, é que este filme não poderia ter vindo em melhor hora. Breno sabe o que quer dizer, e estudou muito bem como dizer seu discurso. Sem ser didático, cansativo ou professoral, fala de temas próximos de muitos, mas que insistimos em fingir que nos é estranho. Tudo é proposto com muita calma e sabedoria, envolvendo o espectador de tal forma que será impossível não se identificar com o que transcorre na tela. Somos nós que estamos lá. E de lá não conseguiremos sair.

Outro ponto positivo é o elenco, principalmente a dupla de protagonistas. Thiago Martins, apesar de repetir uma composição muito próxima a vista recentemente em “Show de Bola” – o garoto que mora no morro, é educado, esforçado e inteligente, e sonha com uma vida melhor – tem uma delicadeza no olhar simplesmente encantadora. Já Vitória Frate, estreando no cinema, forma o par ideal com ele. Os dois atuam em plena sintonia, e a química que há entre eles é tão real que chega quase a ser palpável. Rocco Pitanga (vencedor do Kikito no Festival de Gramado por “Filhas do Vento”), como o irmão mais velho dele, Cyria Coentro, como a mãe dele, e Luana Schneider, como a melhor amiga dela, compõem um bom grupo de coadjuvantes. E se até Paulo César Grande, no papel do pai da garota, se sai bem, o que dizer dos demais?

Lançado no centro do país em julho, “Era Uma Vez…” dividiu a opinião da crítica, entre os cariocas que amaram e os paulistas só apontaram defeitos. Eu, como bom gaúcho, não tenho receio de entrar nesta briga e afirmo, sem ressalvas: este é o melhor filme nacional que assisti neste ano. Talvez haja obras mais relevantes, mais moralmente responsáveis ou socialmente produtivas, mas duvido muito. “Era Uma Vez…” fala direto com o coração, é não há como não se envolver nesta trama de anunciado final trágico. Felizmente, é tudo faz de conta. Ou não?

Era Uma Vez…, Brasil, 2008
De Breno Silveira
Com Thiago Martins, Vitória Frate, Rocco Pitanga, Paulo César Grande, Cyria Coentro, Luana Schneider, Felipe Adler, Fernando Brito

(nota 10)

Robledo Milani é crítico de cinema, formado em Comunicação Social pela UFRGS. Já teve textos publicados em jornais, revistas e em diversos sites pela internet, além de ter trabalhado em rádio e em televisão. Robledo Milani é membro fundador da ACCIRS, Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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