Duplicity
Por: Ale Simas
categorias: Colunas, Pop Coolture
Data: quarta-feira, 15 de abril de 2009
Fazia tempo que eu andava sondando “Duplicity”, e num sábado de risos e conversas inteligentes, ele me pareceu um bom componente a ser adicionado ao combo. Infelizmente, a duplicidade do título não é aplicável ao prazer que o longa proporciona. A diversão não é dupla, tripla ou quádrupla. Ela é praticamente nula!
Isso vem como surpresa quando percebemos que o projeto está ligado à Tony Gilroy. Como roteirista, ele é o nome por detrás da série “Bourne”, do antigo “Devil’s Advocate”, e do maravilhoso “Michael Clayton” (onde assina também a direção). Filmes inteligentes, instigantes e que sempre nos deixam presos aos assentos tentando ligar as pecas e os personagens. “Duplicity”, no entanto, não consegue encontrar o seu gênero. É um pouco de Gilroy em tudo, e nada realmente clica.
São duas horas de filme, e o que se vê são inúmeras histórias ao mesmo tempo. “Duplicity” peca por ser inteligente demais, se é que isso faz sentido. Talvez o erro tenha sido a ousadia, ou a sua visão, óbvia apenas na lente e na mente do diretor. O enredo tinha tudo pra dar certo, e na cena de abertura temos a sensação de que estamos prestes a conhecer uma nova versão da série “Ocean’s Eleven”. Mas não. Passado alguns minutos, não temos apenas um segredo, e sim vários. E o principal sendo que a gente está perdido e entediado.
“Duplicity” fala desse casal de espiões que, entre idas e vindas, precisa aprender a confiar um no outro. Julia Roberts interpreta Claire, uma ex-agente da CIA. Clive Owen interpreta Ray, um ex-agente do MI6. Anos atrás, numa festa do 4 de julho, Claire levou Ray para a cama, e após ter transado com ele, não só o drogou, mas também roubou documentos secretos. Ele, obviamente, não consegue esquecê-la, mesmo passado o acontecido. Cinco anos depois eles se reencontram, dessa vez ambos trabalhando nessa guerra underground das corporações farmacêuticas. Hoje em dia, aparentemente, essas são as espionagens que valem à pena. Claire trabalha infiltrada na empresa de Howard Tully (Tom Wilkinson), enquanto que Ray trabalha prestando serviços para Richard Garsik (Paul Giamatti). Os dois são rivais de longa data, e Richard tem certeza de que Howard está prestes a lançar um produto capaz de destruir seu reinado. Agora, perto de uma grande conferência com os seus investidores, eles têm pouco tempo para sabotar um ao outro.
Como disse antes, tudo pra dar certo. E verdade seja dita, mais do que o suficiente para alcançar tal êxito. Mas as coisas não param por aqui. A ambição é maior do que o desejo do público de ser entretido. Para ligar pontos que não sabemos (e quem nem precisávamos), recorre-se ao flashback. Assim, o filme inteiro é esse emaranhado de idas e vindas, locações e épocas. E, passado algum tempo, já não há mais importância, pois a gente perdeu a conta e a vontade de saber se o acontecido veio antes ou depois da visita A ou B.
Para sua sorte, “Duplicity” conta com um elenco competente o suficiente para nos prender por toda a sua duração. Julia Roberts, depois de um período sem atuar, retorna fazendo um papel de força e personalidade. Claire muitas vezes é capaz de expressar muito em silêncio, e quando fala, assume esse tom irônico tão próprio da atriz. Clive Owen, por sua vez, está perfeito no papel de Ray. Ele tem o charme e a safadeza necessária para fazer com que seu personagem seja sedutor, patético e carismático. A química entre eles é palpável, e é impossível não admirar que os dois atores consigam encarnar um casal tão irônico e dinâmico. Ainda mais quando a última imagem que se possui deles juntos vem da cena do fim do casamento deles em “Closer”.
Paul Giamatti e Tom Wilkinson são atores excepcionais, que na minha opinião não foram aproveitados nem na metade do que deveriam, e do que o público merecia. Suas cenas foram limitadas, e acabaram por desperdiçar um desenvolvimento maior da trama, em troca de algumas cenas ao redor do mundo. Não que isso seja necessariamente uma coisa ruim. “Duplicity” é visualmente sofisticado. As cenas em Roma e no México são capazes de nos fazer suspirar – e sim, um pouco por termos Clive Owen sem camisa, mas também pelo figurino e pela fotografia. Se não fosse feito ao excesso, o filme teria condições de ser sedutor na medida certa.
Talvez o grande erro tenha sido Tony Gilroy achar que tinha confiança o suficiente para fazer algo em um tom talvez mais leve. Todas as vezes que tentava se tornar emocional, soava falso. Uma conversa honesta entre o casal me fez revirar os olhos, e isso é um grande sinal. Um homem com a mente “espiã” como a dele não conseguiu encontrar o equilíbrio pra fazer as cenas de sentimento serem palpáveis. O que soa um tanto deprimente, quando tenho na lembrança que foi ele o roteirista de um dos meus filmes favoritos dos anos 90, “The Cutting Edge”. E sim, naquele filme a dinâmica e a tensão dos protagonistas era praticamente a mesma dos de agora. Nesse sentido, ele não evoluiu. Pra sua sorte (ou azar), Gilroy tem um novo projeto a ser avaliado muito em breve: “State of Play”, que traz no elenco Ben Affleck, Russell Crowe, Rachel McAdams e Helen Mirren, previsto para chegar aos cinemas no próximo dia 17 de abril. Mas esse, pelo jeito, vem sem o tempero emocional. Apenas o bom e velho jogo de gato e rato.
“Duplicity” tem tido opiniões tão divididas quanto a minha aqui na América do Norte. O marketing do filme foi intenso, mas o interesse do público nao refletiu no Box Office. O filme entrou em cartaz no dia 20 de março, e até agora arrecadou apenas US$ 32 milhões. Uma pena. Afinal, possui momentos ótimos, porém não tão interessantes e muito menos dignos de tudo que tinha a obrigação de ser. Neste caso, less really means more.
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“Duplicidade”, por Robledo Milani
“Jogo Duplo, Reação Dupla”, por Gabriel Ruas






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