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“Dreamgirls – Em Busca de um Sonho”

Written on 3 de fevereiro de 2007 – 21:56 | by Robledo Milani |
Considerado, desde o início de sua produção, como um dos favoritos ao Oscar 2007, o musical “Dreamgirls – Em Busca de um Sonho” decepcionou quando foram finalmente divulgadas as indicações. Apesar de ter sido lembrado em seis quesitos (sendo que no de Melhor Canção concorre em três vagas), confirmando-se como o recordista de nominações neste ano, o longa ficou de fora das principais categorias, como Melhor Filme, Direção, Roteiro e Montagem. As esperanças recaíram nas técnicas, como Direção de Arte, Figurino e Som, além das altas apostas nos dois atores coadjuvantes, Eddie Murphy e Jennifer Hudson, premiados no Globo de Ouro, no Sindicato dos Atores e apontados como barbadas na maior festa do cinema mundial. Um resultado justíssimo. Afinal este não é um dos cinco melhores filmes do ano, apesar de possuir méritos inegáveis, basicamente os apontados pela crítica e pela indústria.
 
Baseado no musical da Broadway, que por sua vez é inspirado na trajetória real das Supremes, grupo musical dos anos 60 e 70 que tinha Diana Ross como vocalista, “Dreamgirls” é uma visão romanceada da realidade – e é importante destacar, não aprovada pelos verdadeiros envolvidos. Ross chegou a ameaçar a produção com um processo, e em qualquer declaração a respeito afirma categoricamente não ter encontrado no enredo da peça e no do filme nada similar ao que viveu. Porém alguns fatos e similaridades são impossíveis de negar, como a presença sufocante do empresário e o desligamento de uma das integrantes do trio por conflitos internos.
 
Claro que é tentador analisar o que vemos na tela diante uma perspectiva real – ‘será que isso aconteceu de verdade?’, nos perguntamos a todo instante. Porém esta não é a forma mais correta. Afinal, trata-se de uma obra de ficção, e como tal deve ser percebida. E dentro do contexto cinematográfico, os resultados são bem compensadores. “Dreamgirls” é um musical envolvente, porém irregular. Possui números de arrepiar, como “And I’m Telling You I’m Not Going”, ao lado de outros constrangedores, como “Family”. A cada ponto positivo, logo surge outro contrário. No final, fica-se no meio termo, nada demais, nem nada de menos.
 
Premiado também com o Globo de Ouro de Melhor Filme Musical ou Comédia de 2006, bateu fortes concorrentes, como os superiores “O Diabo Veste Prada” e “Obrigado por Fumar”, além do excelente “Pequena Miss Sunshine”, este ainda indicado ao Oscar de Melhor Filme. Mas seria praticamente impossível ignorá-lo numa categoria dedicada ao gênero musical. Na direção está Bill Condon, autor do roteiro de “Chicago” e diretor dos elogiados “Deuses e Monstros” e “Kinsey”. Condon faz um bom trabalho, ainda que inferior ao que o seu currículo prometia. O desenvolvimento da trama é muito certinho, tudo acontecendo de forma encadeada, sem grandes lances ou reviravoltas. E os números musicais lembram muito os de “Chicago”, quase sempre num palco, com cenários luminosos no fundo. São poucos os diálogos que resultam em canções, e estes terminam por parecer forçados e fora de contexto. Por outro lado, o filme ganha durante as performances vocais dos protagonistas, todos muito bem escolhidos segundo este critério.
 
Se Beyoncé Knowles, Jamie Foxx e Eddie Murphy foram apostas seguras, que equilibram bem o estrelismo necessário a um projeto desta magnitude e o talento vocal e interpretativo digno da trama, a novata Jennifer Hudson é a grande surpresa. É praticamente impossível não sair após o término da sessão somente com ela em mente. A cada nova aparição ela domina totalmente a cena, e quando está ausente o filme parece ressentir de fôlego. Nem mesmo Murphy, ressurgindo com um desempenho digno de nota após anos esquecido, consegue batê-la. Beyoncé é linda, dona de uma bela voz, e nada mais. Foxx, elogiadíssimo em “Ray”, é o elo fraco, não conseguindo equilibrar com cuidado as caretas vilanescas e os momentos de fraqueza e sentimentalismo. Hudson, no entanto, é poderosíssima. Ex-integrante do reality show “American Idol”, ela já está com uma mão e meia na estatueta dourada mais cobiçada do mundo cinematográfico, e será uma conquista mais do que merecida. Sua personagem, Effie, é uma verdadeira ‘Diva’, uma cantora de voz hipnotizante e corpo possante, que entra em sai quando quer, e por se recusar a seguir ordens acaba pagando um preço às vezes alto demais. É no seu arco dramático que o espectador está interessado, e é com o que acontece com ela que nos importamos. Ela É o centro de “Dreamgirls”, e ninguém mais.
 
Do início difícil, quando ninguém as conhecia, até o estrelato nacional, passando pelas dificuldades, arrependimentos e vitórias naturais em uma jornada tão rica, este longa acaba se assimilando por demais a outras cinebiografias do gênero, como os recentes “Johnny e June” e mesmo o já citado “Ray”. Ray Charles em 2004, Johnny Cash em 2005 e agora as Supremes: será um ídolo da história da música norte-americana por ano? Quem serão os próximos? “Dreamgirls”, por seu passado mais fantasioso e magnetizante, merecia mais glamour, charme e magia, e não a sensação de “to be continued” que experimentamos após sua apressada (apesar dos mais de 130 minutos de duração!) conclusão. E música sem emoção até provoca elogios, mas não encontra lugar no coração de ninguém.
 
Dreamgirls, EUA, 2006
De Bill Condon
Com Beyoncé Knowles, Jennifer Hudson, Jamie Foxx, Eddie Murphy, Danny Glover, John Lithgow, Anita Noni Rose, John Krasinski
 
(nota 7)

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