Do cinema para o teatro: “Ensina-me a Viver”
Por: Robledo Milani
categorias: Cultura Pop, Teatro
Data: domingo, 29 de junho de 2008
Ao contrário do que acontece na grande maioria das vezes, quando peças teatrais de sucesso servem de base para filmes (os exemplos são inúmeros, tanto no Brasil quanto no exterior), foi no cinema que o diretor João Falcão (“A Máquina”) foi buscar inspiração para o seu novo projeto nos palcos: “Ensina-me a Viver”, em cartaz desde o final do ano passado em São Paulo e que passou há pouco por Porto Alegre. O texto é de Colin Higgins (roteirista também de “Como eliminar seu chefe”, de 1980, e “A Melhor Casa Suspeita do Texas”, de 1982), e foi levado às telas em 1971 por Hal Ashby (“Muito Além do Jardim”, de 1979). E a peça, apesar de funcionar bem no palco, faz questão de em nenhum momento esconder sua origem cinematográfica. Uma sábia decisão do diretor.
O enredo é bastante simples, e muito conhecido. Harold é um jovem de 19 anos e deprimido, que vive simulando a própria morte. Maude é uma senhora de 79 anos excêntrica e divertida, desapegada dos bens materias e que aproveita cada minuto da vida. Um dia os dois se encontram num funeral, e aos poucos vão se envolvendo. Ela irá mostrar a ele o como é bom viver, e não levará muito tempo para esta amizade se transformar em amor verdadeiro. Os 60 anos que separam os dois será um empecilho apenas para a mãe do rapaz, chocada com a notícia. Só que a união dos apaixonados enfrentará uma decisão irrevogável de um deles.
No papel de foi de Ruth Gordon (vencedora do Oscar por “O Bebê de Rosemary”) está Glória Menezes. A gaúcha de Pelotas sempre foi reconhecida mais pela forte presença cênica e pela beleza, mas a idade está lhe fazendo bem. Assim como em seus últimos trabalhos nos palcos (“Jornada de um Poema” e “Ricardo III”), ela compõe uma personagem forte e profunda, que se no início provoca estranhamento, logo conquista o espectador. Ela é, mais uma vez, a atuação de maior destaque. Arlindo Lopes (que no cinema participou de “Cazuza – O Tempo Não Pára” e “Cidade de Deus”) é o verdadeiro protagonista, o jovem Harold. Indeciso entre o dramático e o irônico, não chega comprometer. Mas está longe de atingir os méritos de Bud Cort, que pelo mesmo papel foi indicado ao Globo de Ouro e ao Bafta. Outras presenças de destaque são da também gaúcha Ilana Kaplan (a mãe do garoto), como o alívio cômico, e Augusto Madeira, que desempenha com impressionante desenvoltura diversos personagens, como o padre, o general e o detetive de polícia.
Mas o melhor mesmo de “Ensina-me a Viver”, a peça, são seus aparatos técnicos. A cenografia criada por Sérgio Marimba conquista desde o início, quando os créditos são projetados em telas móveis. Estas mesmas “cortinas” ficam em movimento durante toda a trama, compondo um cenário simples e eficiente. O mesmo pode ser dito dos objetos de cena, baseados em projeto gráfico de Dulce Lobo. O ferro, o metálico, as estruturas até então frias vão ganhando calor, adquirindo vida com os acontecimentos. E a iluminação proposta por Renato Machado e a pesquisada trilha sonora dirigida por Rodrigo Penna completam este conjunto com louvor.
“Ensina-me a Viver” foi um filme que marcou época, e agora é resgatado por um trabalho teatral que justifica esta retomada. Não é uma peça que irá provocar polêmicas ou fortes discussões – mesmo tendo material para tanto – mas é um texto bonito, apresentado de forma competente e atraente. Estimula a reflexão, nem que seja por alguns poucos momentos, e ainda entretêm sem desrespeitar a inteligência do público. Melhor do que isso só uma refilmagem comandada por uma equipe ainda mais gabaritada.
Ensina-me a Viver (Harold and Maude)
Texto de Colin Higgins
Direção de João Falcão
Com Glória Menezes, Arlindo Lopes, Ilana Kaplan, Augusto Madeira
(nota 7,5)






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