Danny Boyllywood

Por: Reginaldo Pujol Filho
categorias: Colunas, Cultura Pop, Isso não é um trailer
Data: terça-feira, 10 de março de 2009

quem-quer-ser-um-milionario02Fora os méritos do “Quem Quer Ser um Milionário?” (Slumdog millionaire), o encontro de Holly com Bollywood e as peculiaridades todas do filme, uma coisa que tem se falado muito aqui no Brasil, sobre o grande vencedor do Oscar, é das suas possíveis semelhanças com o “Cidade de Deus” do Fernando Meirelles. O Danny Boyle chegou até a dizer em entrevista que viu pelo menos quatro vezes o filme brasileiro. Mas eu não vou falar dessas semelhanças. Vou falar das diferenças.

Aliás, acho que de uma diferença que me parece crucial: o “Slumdog…”, a despeito de, como o “Cidade de Deus”, mostrar com beleza e crueza a realidade de um país emergente, não é resultado de um diretor indiano, percebem? Embora elenco indiano, realidade indiana, indústria cinematográfica indiana, lá na cadeirinha, diretor reino-unidense. Mais ou menos como se o Spielberg ou o os Irmãos Coen assinassem o “Cidade de Deus”, não é? Será que aí teria faturado todos os Oscars? (Eu também poderia ter dito que é como se um diretor português fizesse o “Cidade…”, dadas as relações colonizador/colônia que tem na parceria Boyle/Bollywood, mas, no final das contas, os EUA também nos colonizaram bonito, né?).

cidade-de-deus06Bem, mas, vai dizer, é ou não é uma diferença crucial entre o vencedor do Oscar e o nosso superindicado. Já imaginou se o “Cidade de Deus” tivesse sido filmado pelo Clint Eastwood? Não quero discutir se seria melhor ou pior, mas como nós, brasileiros, veríamos o filme. Se na época, dirigido pelo Meirelles, já houve aquelas discussões sobre a estetização da miséria de um lado, do outro, críticas dizendo que a imagem da pobreza, da miséria e da violência era o que estávamos construindo pro mundo. Agora imagina, filme feito no Brasil, elenco brasileiro, trilha nacional, baseado em livro brasileiro, mas com um gringo dizendo action. Será que íamos meter o pau, dizer que não é bem assim que esse americano preconceituoso distorceu o livro e a nossa realidade, que tratou nossa miséria como espetáculo e nossos traficantes como quem dirige um filme do Al Capone? Vai saber.

Pergunto porque me peguei pensando nos indianos que tem a maior (claro que maior não é sinônimo de melhor) indústria cinematográfica do mundo, a segunda maior população e só viram o seu cinema e sua realidade ganhar o planeta – e estatuetas – quando um diretor primeiro-mundano se uniu a eles. E aí me pus a perguntar como será que o pessoal da Índia vê o filme, como se enxergam nessa história toda?

Da mesma forma que me peguei me perguntando (e apesar de me perguntar tanto, juro que não sou esquizofrênico), sobre um dos possíveis significados desse casamento indiano do Danny Boyle. Será que assim como tem pipocado filmes, muitos deles alemães, retratando o período nazista, numa evidente revisão do passado, será que o Reino Unido está começando processo semelhante em relação as suas antigas colônias? Lembrando que a independência da Índia é bem próxima do final da segunda guerra. Ou talvez o Danny Boyle só tenha achado o “Slumdog Millionaire” uma boa história e que, assim como a indústria da informática e a do telemarketing, a do cinema também tem bons negócios a fazer na Índia.

Reginaldo Pujol Filho tem 28 anos, é de e vive em Porto Alegre. Ganha a vida como redator publicitário, mas também é escritor. Publicou "Azar do Personagem", pela Não Editora. Mantém a duras penas o blog www.porcausadoselefantes.blogspot.com.
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