Continuando

Por: Reginaldo Pujol Filho
categorias: Cultura Pop, Isso não é um trailer
Data: quarta-feira, 1 de julho de 2009

Dá pra dizer que o Brasil está próximo de ter uma indústria cinematográfica nos moldes da hollywoodiana. Baseado em que eu digo isso? Números de bilheteria? De investimento? Não, baseado num único número.  O 2.

Parece que estamos seguindo um caminho americano, e um caminho que não gosto: o das continuações de filmes, seja lá quais forem os filmes, tendo, como único critério para fazer a parte 2, o sucesso-de-bilheteria-da-fita-que-deu-origem-à-série.

E digo que seguimos a indústria americana, porque não me lembro de já ter visto um filme francês, argentino, italiano ou espanhol com o número 2 no final do título. Teve “O Filho da noiva II”? “Ladrões de bicicleta – o retorno”? “Fale com ela – agora mais alto”?

Já, aqui no Brasil, repara só: qual o grande sucesso do cinema nacional nesse ano? “Se eu fosse você 2”. Confesso que não vi nem o 1 e nem o 2 e não vou ver o 3 se sair. Mas vi “Tropa de Elite”. E fico me perguntando masmeudeusdocéu, que que vai ser esse tão comentado “Tropa de elite 2”, além de um caça-níqueis? Dá até vontade de ver de novo o filme do José Padilha pra imaginar de onde é que vai sair essa nova história.

Não sou contra continuações. Gosto de todos os “De volta para o Futuro”, assim como os “O Poderoso Chefão”, por exemplo. Mas esses parecem obras que mereciam seguimento ou que tiveram isso pensado a priori, não é? Mas tem filme que acaba nele mesmo. E não tem motivo pra ter um prosseguimento. Ou dá pra imaginar um “Forrest Gump 2”?

Eu não imagino, mas se esse filme tivesse acontecido hoje, se bobear, teríamos o 2.

Mas uma coisa que penso sobre isso tudo é que estamos aprendendo a fazer continuações de sucessos com a indústria americana, sem termos uma indústria como a americana. Olha só: lá nos Estados Unidos rola muito dinheiro privado, os próprios estúdios e produtoras investem e buscam o lucro nisso. É um negócio. Só que aqui o sistema é um tanto diferente. A maioria dos filmes, pra se viabilizar, precisa de investimento do governo, ou de patrocínio via lei de incentivo à cultura. Uma grana muito mais restrita, com muito menos acesso, que não chega a permitir produção em grande escala. E não sei se as nossas continuações não irão se valer desse mesmo estilo tupiniquim de financiar filmes. Tomara que não, tomara que as portas abertas dos estúdios americanos pro José Padilha, por exemplo, injetem grana nesses projetos. Porque, em caso contrário, é preocupante. Estaremos investindo em filmes duvidosos, aparentemente com foco apenas comercial, um dinheiro que poderia estar indo pra um novo “Tropa de Elite”, em vez do “Tropa de Elite 2”. Me parece, e espero estar errado, que se entrarmos nessa onda de continuações talvez não possamos dar continuidade a um bom caminho que o cinema nacional vinha trilhando com “Cidade de Deus”, o próprio “Tropa de Elite”, “O ano em que meus pais saíram de férias” e outros bons filmes dos últimos tempos.

Espero estar errado. Se não até essa coluna vai acabar tendo uma parte 2.

Reginaldo Pujol Filho tem 28 anos, é de e vive em Porto Alegre. Ganha a vida como redator publicitário, mas também é escritor. Publicou "Azar do Personagem", pela Não Editora. Mantém a duras penas o blog www.porcausadoselefantes.blogspot.com.
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Um comentário para “Continuando”

  1. Mateus em julho 7th, 2009 at 4:52

    Concordo e levanto uma questão para tornar essa possibilidade ainda mais triste e possível: o formulismo. Parece ser mais fácil fazer um filme quando uma fórmula deu certo, como é o caso de Se Eu Fosse… e ao que parece de Tropa de Elite. Fica mais fácil não pensar, pois já foi pensado. “Vamos continuar o que deu certo”, mas não é e nem será bem assim. No caso de Se Eu Fosse, onde o público brasileiro já está acostumado com “o próximo capítulo”, entende-se (?) que se vá adiante, mas em um filme de verdade como Tropa ou Cidade de Deus, parece mais preguiça para pensar em outra forma de ganhar dinheiro.

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